Terra Magazine

 

Terça, 1 de agosto de 2006, 07h59

A Comunicação como ciência social

Murilo Ramos

Nossos cursos de Comunicação Social são espaços acadêmicos que exibem personalidades rachadas entre uma formação de graduação quase só técnico-profissionalizante e uma formação de pós-graduação com pretensões científicas. Essa quase esquizofrenia é particularmente aguda quando o assunto é a formação de jornalistas, cuja regulamentação profissional é a mais rígida. Diplomas específicos de curso superior não são exigidos para nossos graduados em publicidade, cinema, rádio e televisão.

Se para os organismos estatais de avaliação e fomento, o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Ensino Superior (Capes), somos uma ciência social aplicada - como a Economia e a Administração, por exemplo -, para a Federação Nacional de Jornalistas (Fenaj) e para a Associação Nacional de Jornais (ANJ) tendemos a ser escolas profissionais de terceiro grau.

No centro desse embate recorrente está a exigência de diploma de curso superior para o exercício do jornalismo; uma causa histórica da Fenaj e dos sindicatos a ela filiados, combatida sistematicamente pela ANJ e suas empresas filiadas. As batalhas mais recentes desse embate foram a idéia, muito boa, aliás, de um Conselho Federal de Jornalismo, encaminhada ao governo pela Fenaj em 2004, e o recente projeto de lei, muito ruim, aliás, de autoria do deputado federal Pastor Amarildo (PSC-TO), que amplia a exigência de diploma para jornalistas repórteres fotográficos, cinematográficos, ilustradores, professores de disciplinas jornalísticas, comentaristas, assessores de imprensa.

Ao longo de 25 anos como professor do Departamento de Jornalismo da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília, carreira a que cheguei após graduado em Jornalismo pela Universidade Federal do Paraná, com mestrado e doutorado em Jornalismo (e é assim mesmo que está nos meus respectivos diplomas) pela Escola de Jornalismo da Universidade de Missouri-Columbia, Estados Unidos, construí a convicção de que ser diplomado por uma universidade é exigência fundamental para os praticantes de jornalismo; que o diplomado em jornalismo parte em vantagem sobre um eventual concorrente não diplomado na área quando inicia a carreira profissional; mas que o diploma em jornalismo não deve ser o critério exclusivo para a entrada na profissão.

A formação acadêmica em Comunicação - jornalismo, publicidade, relações públicas, rádio, cinema e televisão - tem que ser resultado da melhor combinação possível entre o que se ensina e aprende na graduação e o que se ensina, aprende e pesquisa na pós-graduação. A formação acadêmica em Comunicação, por isso, não pode ser segmentada em habilitações profissionais legalmente tão separadas, como se um jornalista não possa ser amanhã um publicitário, ou vice-versa; como se um documentarista cinematográfico não reúna condições de ser amanhã um excelente produtor radiofônico; como se um roteirista de televisão não pudesse acumular esse trabalho com o de repórter especial de política de alguma redação jornalística. A formação acadêmica em Comunicação não pode, ainda mais, ser fracionada entre uma graduação que só faz e uma pós-graduação que só pensa, dando razões a campanhas publicitárias espertalhonas de faculdades privadas de Comunicação, que pretendem iludir o público com mensagens do tipo 'na prática a teoria é outra'.

As instituições de Comunicação - televisões, jornais, rádios, portais de internet, produtoras de televisão e de cinema, agências de publicidade, agências de relações públicas, e tudo o mais assemelhado - são agentes cada vez mais centrais para a constituição das sociedades contemporâneas; das mais ricas às mais pobres. A compreensão dessa centralidade é objeto científico complexo, sociocultural e político-econômico; seu estudo e pesquisa não podem começar apenas nas pós-graduações, mestrados e doutorados. Eles têm que começar cedo, nas graduações, cujos currículos não separem artificialmente aquelas instituições, e procurem suas articulações interdisciplinares tanto dentro quanto fora do campo da Comunicação Social.

Toda vez que os cursos de Comunicação são envolvidos, direta ou indiretamente, em disputas essencialmente corporativas, como esta recente, da ampliação da exigência de diploma para outras funções profissionais, e se omitem nessas disputas, correm o risco de perder sua razão de existência. E aí me refiro em especial aos cursos de Comunicação, de universidades públicas ou privadas, que se dedicam, na medida de suas possibilidades, ao ensino, à pesquisa e à extensão.

O que significaria, em tese, para nós, nas faculdades, escolas e departamentos de comunicação, a ampliação para novas classes profissionais da exigência de diploma? Possivelmente, a inclusão nas grades curriculares de ainda mais disciplinas técnico-profissionalizantes, em detrimento da interdisciplinaridade há pouco defendida, e do nosso crescimento como ciência social; uma ciência social que, por suas características atuais de centralidade sociocultural e político-econômica, pode ter diante de si um belo futuro de buscas teóricas e práticas.

Um diploma universitário por si só não melhora uma profissão; e isto vale para qualquer profissão. Mas, um médico sem diploma de Medicina é certamente um charlatão, e um perigo para a sociedade. Ninguém se sentiria seguro consultando sobre um problema de saúde com um sociólogo com muita experiência e leitura em Medicina. Ou com um engenheiro mecânico muito interessado em Odontologia. Já o mesmo não se pode dizer do economista. Reza nossa história recente que até um médico sanitarista pode ser ministro da Fazenda; talvez não um bom ministro, mas isto menos por seu desconhecimento de economia e mais por alguma visão teórica equivocada sobre, por exemplo, a precedência da econometria sobre a economia política. Advogados podem se considerar especiais, mas ninguém precisa ser formado em Direito para se tornar um eficiente criminalista. Nesse ponto, advogados podem até ser mais tecnicamente corporativos do que nós jornalistas.

Profissões e diplomas são essenciais, e isto não se discute. O que se pode discutir são os riscos dos enclausuramentos de certas profissões, como o jornalismo - um viver e fazer profissional essencialmente humanístico -, em regramentos muito fechados. Isto vale, aliás, para todas as ciências sociais, aplicadas ou não. Politicólogos podem ser sociólogos, e vice-versa, não importa o que esteja escrito em seu diploma. Lingüistas e antropólogos podem trocar de sinal com igual facilidade. Jornalistas podem ser cientistas políticos ou sociólogos ou politicólogos, e o reverso pode ser também verdadeiro. O que importa na formação universitária, em especial nas ciências humanas, é o rigor teórico e conceitual, aliado às maiores intersecções disciplinares possíveis.

A partir daí que se façam as opções profissionais por vocação e oportunidade, sabendo-se que aqui e acolá a sociedade não se livrará dos patrões oportunistas, que usarão essa flexibilidade para achatar salários, e dos profissionais oportunistas que, por incompetência em seus campos acadêmicos de origem, poderão até se tornar destacados colunistas em destacadas publicações.

Mas, isto, parafraseando Nelson Rodrigues (jornalista? dramaturgo? cronista esportivo? ....?) não seria a vida como ela é?


Murilo César Ramos é jornalista e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. Coordena na UnB o Laboratório de Políticas de Comunicação e o Grupo Interdisciplinar de Políticas, Direito, Economia e Tecnologias das Comunicações. É sócio da Ecco / Consultoria em Comunicações.
 

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