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Quinta, 3 de agosto de 2006, 08h03

A terciarização da economia mundial e seu impacto

Antonio Corrêa de Lacerda

O fenômeno da terciarização, ou seja, a migração para o setor de serviços, é cada vez mais evidente na economia mundial. Trata-se de uma extensão das grandes transformações provocadas pela globalização, que se intensificou nos últimos dois decênios.

A melhora do ambiente econômico internacional deve se refletir positivamente nos fluxos de investimento direto estrangeiro (IDE). Da mesma forma, o comércio internacional deverá crescer o dobro do PIB, impulsionado pelos acordos regionais de comércio, pelas estratégias de terceirização (outsourcing) das empresas transnacionais e ainda pelo crescimento dos serviços prestados no exterior (offshore). O resultado dessas transformações tem levado a uma nova divisão internacional do trabalho.

Do ponto de vista estrutural observa-se um processo de migração das atividades do setor primário (agricultura e pecuária) e secundário (indústria), para o setor terciário (serviços). Tradicionalmente os serviços são considerados como não transacionáveis, já que implicam uma presença local do prestador. As grandes transformações proporcionadas pela telemática têm produzido uma significativa alteração nesse quadro. Nesse ponto, os investimentos diretos estrangeiros representam grandes oportunidades de operações offshore, que também ampliam significativamente a sua participação nas exportações dos países.

O setor de serviços já absorve cerca de 60% do estoque global de IDE (de cerca de US$ 4,4 trilhões) em comparação aos 49% em 1990. Em contrapartida, o setor secundário diminui a sua participação de 42% para 34% no mesmo período, de acordo com dados da UNCTAD (United Nations Conference on Trade and Development).

Esse movimento de terciarização representa grandes oportunidades para os países em desenvolvimento. Na Índia, por exemplo, mais de 60% das exportações realizadas pelo país estão associadas a serviços de TI, geralmente realizados por filiais locais de grandes corporações transnacionais.

Para o Brasil, esse processo representa igualmente novas oportunidades. O custo da mão de obra especializada brasileira é cerca de um quarto da dos países desenvolvidos. Dada a conhecida criatividade e versatilidade dos técnicos brasileiros, esse diferencial competitivo compensa a vantagem de custo de países como China e Índia, cuja mão de obra custa em média a metade da brasileira.

Embora o custo da mão de obra seja um fator importante, ele por si só não garante o sucesso em um mercado cada vez mais competitivo. Daí a importância de se estabelecer uma estratégia atração e retenção de investimentos. Nesse sentido, o objetivo da política industrial brasileira acerta o foco ao definir o setor de software como um dos principais alvos dos programas de fomento a serem implementados. No entanto, infelizmente muito pouco saiu do papel nos últimos dois anos. Há objetivos, mas que não passam de exercícios de retórica, de baixa eficácia. Enquanto isso, estamos perdendo terreno e oportunidades de geração de exportações, emprego e renda.


Antonio Corrêa de Lacerda é professor de economia da PUC-SP e doutor pela Unicamp.

Fale com Antonio Corrêa de Lacerda: alacerda@terra.com.br
 

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