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Segunda, 7 de agosto de 2006, 07h57

Verdades que vêm do olhar

Milton Hatoum

I

Minha visita ao Líbano foi uma viagem às origens mais distantes e apenas imaginadas. Porque nossa origem é sempre plural: Origens, como o título da revista do poeta cubano Lezama Lima.

No romance Grande sertão: veredas, de João Guimarães Rosa, o narrador-personagem Riobaldo diz, poeticamente: Eu sou donde nasci, sou de outros lugares.

Usei essas palavras de Rosa na epígrafe do romance Cinzas do Norte porque traduziam a vida e o destino do personagem Mundo. O sentimento de pertencer a um lugar não é exclusivo dos autóctones. A passagem do gaúcho Raul Bopp pelo Pará e a viagem do paulistano Mário de Andrade pela Amazônia foram viagens de descoberta de um Brasil povoado de mitos, culturas e paisagens que lhes permitiram escrever obras-primas como Cobra Norato e Macunaíma. Algo de essencial e decisivo na poesia de Murilo Mendes surgiu de sua longa permanência na Itália. A mesma coisa pode-se dizer das muitas referências a Andaluzia na obra de João Cabral, que trabalhou como diplomata em Sevilha.

Quando afirmo: sou do Amazonas, é como dizer: sou também de outros lugares. Nas sete ou oito cidades em que morei em meio século de vida, alguma coisa me tocou: uma paisagem, um corpo amado ou desejado, ou uma amizade que ficou para sempre na minha memória. O conhecimento do outro, de outras culturas, é uma das grandes dádivas da vida.

II

Até julho de 1992, eu não conhecia a cidade onde meu pai tinha nascido: Beirute. Ele morava no Brasil desde a década de 1930 e se naturalizara brasileiro. Já era um homem idoso, beirando os oitenta anos. Eu acabara de ganhar uma bolsa para passar uma temporada numa cidade francesa - Saint-Nazaire -, ali onde o rio Loire deságua no Atlântico. Então meu pai quis saber se eu podia acompanhá-lo até o Líbano.

Mas o que era o Líbano? Na memória do meu pai, era acima de tudo Beirute, a capital de muitas culturas e religiões, o lugar onde tantos Orientes e Ocidentes se encontram. Uma cidade milenar habitada por várias civilizações superpostas, como se fosse um espaço-palimpsesto. Em seu livro magnífico e talvez definitivo (Histoire de Beyrouth), o historiador Samir Kassir mostrou como a cidade, apesar de suas sucessivas destruições, foi e ainda é uma metrópole cosmopolita que, já no século 19, havia antecipado o hibridismo das grandes cidades do nosso tempo. A própria paisagem da cidade é um privilégio da natureza, pois se debruça sobre as margens do Mediterrâneo e é envolta por montanhas em que a neve e cedros milenares são paisagens permanentes.

Há mais de dois mil anos evocado por viajantes, poetas e escritores, o Líbano era comparado a uma Suíça do Oriente: uma denominação bem ao gosto de orientalistas e visitantes deslumbrados com o único país da região que não conhece o deserto. Não por acaso o nome do país aparece na mais bela e poética passagem do Antigo Testamento: o Cântico dos Cânticos.

São tantos os detalhes, emoções, encontros e surpresas, que essa viagem podia ser matéria de um livro. Meu pai, mais de trinta anos sem ver seus parentes, reencontrou os sete irmãos. Podia entender algo da conversa em árabe, podia expressar-me em francês ou inglês, mas eu preferia olhar e observar. Na perplexidade, na emoção do encontro não havia palavras, só olhares. Lembro que os parentes chegavam em grupos para conhecer os "brasileiros". Ao amanhecer, escutava a voz do muezin no alto do minarete da mesquita de Borj el-Brajneh. Depois, lentamente, as tamareiras saíam da noite e recortavam o céu.

III

Não se podia - ou ninguém queria - falar da guerra civil. Em 1992 a memória do horror ainda era viva. O lixo estava por toda parte. E também ruínas, escombros. E o luto. Beirute ainda estava caída: era uma cidade devastada.

Um tio me levou para conhecer Sabra e Chatila, onde moram milhares de palestinos exilados. Lá, ouvi relatos de um grande massacre.

"Nunca vamos esquecer", disse um dos sobreviventes.

Referia-se a 1982, quando Ariel Sharon invadiu o Líbano e mais de 17 mil libaneses e palestinos morreram. Em setembro desse mesmo ano, milícias de libaneses cristãos executaram o massacre de Sabra e Chatila sob o olhar e a permissão do então coronel Sharon, um cúmplice nada secreto.

"Nunca vamos esquecer".

Porque o esquecimento de todo e qualquer genocídio é uma grave ofensa moral aos parentes e amigos das vítimas. E também à humanidade. O esquecimento é a legitimação de um crime. Por isso o mundo não deveria esquecer tantos holocaustos e massacres.

Não sei se o mundo esqueceu Sabra e Chatila ou se esquecerá dos dois bombardeios da aviação militar israelense que matou mulheres, crianças, velhos. Os dois em Qana, a pequena cidade que os libaneses chamam Qana da Galiléia: o primeiro em abril de 1996, quando mais de cem pessoas morreram num abrigo da ONU. O mais recente, nas primeiras horas do dia 30 de julho de 2006. Nenhum desses massacres está desvinculado dos ataques recentes à Gaza, onde já morreram mais de 200 palestinos, incluindo dezenas de jovens e crianças.

IV

É nesse momento trágico para o Oriente Médio que me vem à memória minha viagem ao Líbano. Agora o pesadelo da guerra civil (1975-1990) e da ocupação israelense (1982-2000) tornou-se realidade. Embora a destruição e o número de vítimas sejam muito maiores no Líbano e nos territórios palestinos, esse conflito é também desastroso para os israelenses. Depois dos ataques ao Líbano e a Gaza, que outra guerra será feita para combater o "terrorismo", essa palavra que estigmatiza até as crianças palestinas que resistem à ocupação militar atirando pedras em tanques?

Segundo o pacifista veterano israelense Uri Avnery, "a terrível arrogância (das forças armadas) tornou-se parte do nosso caráter nacional". E isso pode ser uma verdadeira catástrofe para toda a região e talvez para o mundo. Nesse mesmo artigo (The Knife in the Back, 2-08-06), Avnery criticou com contundência essa guerra insana. Para ele, "o único caminho que leva à resolução do problema é a negociação, e a paz com palestinos, libaneses e sírios. E com o Hamas e o Hezbollah".

Quando a esperança por uma paz justa parece uma miragem, leio uma carta de cineastas israelenses aos seus colegas libaneses e palestinos. Esse documento foi corajosamente endossado por centenas de cineastas e produtores de cinema brasileiros. São palavras de artistas que lidam com imagens. Às vezes, as palavras expressam verdades que vêm do olhar. Diante de um desconhecido - seja ele um estrangeiro ou vizinho -, o olhar é a mediação mais íntima do primeiro contato. É o momento inaugural do conhecimento mútuo, da aproximação, aceitação e compreensão. Nós só podemos compartilhar nossa existência com outros seres humanos se soubermos olhar para eles sem preconceito, arrogância e prepotência.

Essa carta diz muito porque não se deixa impregnar por uma linguagem viciada, que desqualifica o outro. É uma mensagem de pessoas que sabem olhar e compreender (e não culpar) as vítimas. É honesta e ética porque não menciona palavras que são usadas para justificar invasões militares e massacres de civis. Certamente alguns cineastas que assinaram essa carta são filhos, netos ou parentes de vítimas do Holocausto. Também por isso é uma mensagem poderosa que será lembrada como um dos documentos mais relevantes contra essa guerra.

Há algo mais digno no ser humano do que reconhecer o sofrimento do outro?

* * *

CARTA AOS CINEASTAS PALESTINOS E LIBANESES
Na ocasião da abertura da Bienal do Cinema Árabe em Paris (22 de julho de 2006)

Nós, cineastas israelenses, saudamos todos os cineastas árabes reunidos em Paris para participar da BIENAL DO CINEMA ÁRABE. Por intermédio de vocês, queremos enviar uma mensagem de amizade e solidariedade aos nossos colegas Libaneses e Palestinos que estão atualmente acossados e sendo bombardeados pelo exército de nosso país.

Somos categoricamente contra a brutalidade e a crueldade da política israelense, intensificadas ao máximo nas últimas semanas. Nada pode justificar a continuidade da ocupação militar, do cerco e da repressão na Palestina. Nada pode justificar o bombardeio de populações civis e a destruição da infra-estrutura no Líbano e na Faixa de Gaza.

Permitam-nos dizer a vocês que os seus filmes, aos quais fazemos tudo para assistir e circular entre nós, são muito importantes para os nossos olhos. Esses filmes nos ajudam a conhecer e a compreender vocês. Graças a esses filmes, os homens, as mulheres e as crianças - que sofrem em Gaza, em Beirute e em todos os lugares em que nosso exército exerce sua violência -, têm, para nós, nomes e rostos. Queremos agradecer-lhes por terem feito esses filmes. E também encorajá-los a continuar a filmar, apesar de todas as dificuldades.

No que diz respeito ao nosso trabalho, mantemos o compromisso de expressar - por meio de filmes, de ações pessoais e de voz elevada - , nossa oposição categórica à ocupação militar israelense. E de expressar também nosso desejo de liberdade, justiça e igualdade para os povos da região.

Nurith Aviv / Ilil Alexander / Adi Arbel / Yael Bartana / Philippe Bellaiche / Simone Bitton / Michale Boganim / Amit Breuer / Shai Carmeli-Pollack / Sami S. Chetrit / Danae Elon / Anat Even / Jack Faber / Avner Fainguelernt / Ari Folman / Gali Gold / BZ Goldberg / Sharon Hamou / Amir Harel / Avraham Heffner / Rachel Leah Jones / Dalia Karpel / Avi Kleinberger / Elonor Kowarsky / Edna Kowarsky / Philippa Kowarsky / Ram Loevi / Avi Mograbi / Jud Neeman / David Ofek / Iris Rubin / Abraham Segal / Nurith Shareth / Julie Shlez / Eyal Sivan / Yael Shavit / Eran Torbiner / Osnat Trabelsi / Daniel Waxman / Keren Yedaya

Milton Hatoum é escritor, autor dos romances Dois Irmãos, Relato de um Certo Oriente e Cinzas do Norte.

Fale com Milton Hatoum: milton.hatoum@terra.com.br

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