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Segunda, 7 de agosto de 2006, 08h43

A crise da GM retrata o declínio americano

Carlos Drummond

A notícia de que a Toyota está prestes a ultrapassar a General Motors como a maior fabricante de veículos do mundo representa muito mais do que a derrota dos carrões consumidores de gasolina cara diante dos econômicos modelos japoneses. Quando o presidente da GM, Charles Wilson, em depoimento no Senado americano, em 1952, proferiu a fase famosa: "O que é bom para o país é bom para a General Motors e o que é bom para a GM é bom para o país", os Estados Unidos despontavam como a liderança mundial necessária tanto para o reerguimento da economia solapada pela guerra como para fazer frente ao demônio comunista.

Wilson tentava justificar, diante dos senadores, a escalada da empresa que comprou e desmantelou durante anos empresas públicas de transporte urbano com o objetivo de estimular o transporte privado, em uma ação importante para a conformação de um padrão logístico e industrial que tornou os Estados Unidos refém dos combustíveis fósseis até hoje. A supremacia americana, apoiada em grande medida no exercício do poder consentido e na maré de otimismo que acompanhou os Anos Dourados do bem-estar social, contribuiu para que a ação predadora da GM caísse no esquecimento com relativa rapidez.

No contexto contemporâneo de explosão de preços do petróleo e assalto militar americano a países produtores da commoditie, com violência e instabilidade mundiais crescentes e o afloramento de possíveis potências mundiais como a China, o destino da General Motors, afundada em prejuízos, parece depender do êxito de uma união com a francesa Renault e a japonesa Nissan. Ambas são presididas pelo brasileiro Carlos Goshn, primeira pessoa a figurar simultaneamente como presidente de duas das 500 maiores empresas do mundo selecionadas pela revista Fortune.

A ascendência de montadoras japonesas sobre o destino da indústria automobilística americana parece ironia. Derrotado na guerra pelos Estados Unidos, o país oriental fabrica hoje os veículos preferidos pelos americanos. Uma pesquisa entre os 8,3 milhões de visitantes do site cars.com em abril mostrou uma preferência avassaladora pelos carros menores e com consumo baixo, em especial os fabricados pelas montadoras do Japão. Os cinco primeiros dentre os dez preferidos são japoneses: Honda Civic, Toyota Camry, Honda Accord, Toyota Corolla e Acura MDX. O sexto é o primeiro americano da lista: Ford Mustang. O sétimo, um japonês, o Toyota RAV4. Os americanos surgem só mais uma vez entre os dez mais desejados, no oitavo lugar, com o Dodge Caliber. Seguem-se os alemães BMW 325 e o Volkswagen Jetta.

Talvez a General Motors em declínio volte mais uma vez ao Senado americano, com outro papel. A articulista Nancy Spannaus, da Executive Intelligence Review, propos uma ação imediata do Senado para que as montadoras de modo geral e a GM em particular possam assumir o seu papel na definição do futuro dos Estados Unidos como uma potência industrial. O título do artigo de Spannaus na Review é uma paródia do aforisma de Wilson: "A batalha para salvar a General Motors é a batalha para salvar os Estados Unidos".


Carlos Drummond é jornalista. Coordena o Curso de Jornalismo da Facamp e é doutor em Economia pela Unicamp

Fale com Carlos Drummond: carlos_drummond@terra.com.br
 

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