
Atualizada às 11h11 Bob Fernandes
A Polícia Federal inicia hoje em Presidente Bernardes uma investigação em torno do chileno Maurício Hernández Norambuena. Líder do seqüestro do publicitário Washington Olivetto em 2001, ele está preso em regime de segurança máxima desde 2003 no mesmo presídio onde hoje estão os maiores líderes do Primeiro Comando da Capital - PCC.
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Calado foi libertado no sábado por volta de 23h, e levou o DVD com a gravação das exigências do PCC para a Rede Globo. A emissora exibiu o vídeo na madrugada de domingo e, a 0h30 desta segunda, Portanova foi solto.
Norambuena terá suas ações rastreadas, mas a Polícia Federal não tem dúvidas de que, apesar do suposto suporte ideológico e eventuais lições do "como fazer" por parte do chileno, Marcos William Herbas Camacho, o Marcola, é o comandante inconteste do PCC e de suas ações mais ousadas. Em Presidente Bernardes a Polícia Federal tem uma unidade com cerca de 80 homens.
Norambuena está confinado no anexo do presídio. O sistema de segurança é o Regime Disciplinar Diferenciado - RDD -, contra o qual se bate o PCC. Funcionários do presídio que conversaram ontem à noite com Terra Magazine chamam o Anexo de SRP - Sistema de Reabilitação Penitenciário.
Além da PF, outro organismo federal, recém-criado, deve também começar a atuar nas próximas horas: a Coordenação de Inteligência Nacional. A Coordenação é um apêndice do Departamento Penitenciário Nacional (Depen), reestruturado há pouco e vinculado ao Ministério da Justiça. O Depen é chefiado por Maurício Kuehne.
A Coordenação tem como missão cuidar das articulações do setor de Inteligência nos cinco novos presídios federais de segurança máxima - o primeiro deles, e único já inaugurado, em Catanduvas (PR), onde está, por ora como preso único, Fernandinho Beira-Mar. Tanto a PF como a Inteligência do Depen não atuarão no caso do seqüestro dos funcionários da Globo, investigação de alçada exclusiva da polícia de São Paulo.
Como são notórios os obstáculos políticos na relação dos governos federal e estadual nessa questão da segurança pública, a Polícia Federal e o Depen se limitarão às ações de Inteligência constitucionalmente permitidas a forças federais em qualquer estado da federação.
Segundo informações vazadas pela polícia paulista e reproduzidas nas últimas 72 horas, mesmo isolados em celas individuais, os criminosos manteriam diálogos entre si e Norambuena teria ensinado ao PCC a utilização de códigos, em especial para as conversas por celular.
A Polícia Federal examina com cautela as informações a respeito da atuação de Norambuena por entender que, nesse momento, o terreno é fértil não apenas para fantasias como também para plantações de interesse dos próprios criminosos. Não faltam exemplos.
Noticiou-se que em junho do ano passado agentes da PF no Rio de Janeiro teriam descoberto um plano espetacular: 80 homens do PCC e do carioca Comando Vermelho pretenderiam resgatar Norambuena do presídio em Presidente Bernardes e, com ele, o líder do PCC, Marcola, e o traficante Fernandinho Beira-Mar, à época preso com os dois. A denúncia existiu, mas, terminadas as investigações, a PF concluiu que não tinha fundamento.
Norambuena é oriundo de uma organização - Frente Patriótica Manuel Rodriguez (FPMR) - que, no Chile, transitou da condição de ultra-esquerda, quando pregava a revolução socialista por meio das armas, à de mera quadrilha de criminosos comuns. No Chile, Norambuena já foi condenado duas vezes à prisão perpétua. A primeira pelo seqüestro de Cristián Edwards Del Rio, cujo pai era proprietário do diário El Mercúrio, e a segunda pela cumplicidade no assassinato do senador Jaime Gúzman. Em 1996, ele escapou da prisão em seu país.
Na quarta-feira (9) a hipótese da iminência de seqüestros por parte do PCC freqüentou a reunião de comandos militares e de Inteligência no ministério da Justiça.
Presentes os ministros da Defesa, Waldir Pires, e da Justiça, Marcio Thomaz Bastos, os comandantes do Exército, Matias de Albuquerque, da Marinha, Roberto de Guimarães Carvalho, da Aeronáutica, Luiz Carlos da Silva Bueno, o subchefe do Gabinete de Segurança Institucional, general Wellington Fonseca e o diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda, a questão do seqüestro como um próximo passo a ser dado pelo PCC foi analisada.
Levou-se em conta o roteiro clássico de atos de terrorismo planejados. O primeiro passo, intranqüilizar a população, deu-se em maio com o grande choque do PCC. O segundo veio com ataques a instituições como câmaras de vereadores, bancos, fóruns e outros prédios públicos. O terceiro ato neste roteiro, previu-se no encontro da quarta-feira, seria o das ações espetaculares, como seqüestros de personalidades ou autoridades.
Do ponto de vista da organização criminosa e midiático, pouca coisa pode ser mais espetacular do que um seqüestro de funcionários da Globo seguido, como se viu, pela leitura na emissora de um manifesto com as exigências do PCC.
Ainda que desconhecidos da grande maioria do público, o repórter Guilherme Portanova e o auxiliar técnico Alexandre Calado representam o que por muitos é visto como das maiores fontes de poder real do país, a Rede Globo de Televisão.
Terra Magazine
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