Terra Magazine

 

Quarta, 16 de agosto de 2006, 08h15

Modelo: cabide ou persona

Maria Alice Rocha

Há algumas semanas, foi encerrado o concurso "The Next Britain's Top Model" (a próxima modelo britânica), promovido por uma TV por assinatura no Reino Unido. A velha fórmula do concurso de Miss foi mesclada com o pós-moderno "Big Brother", resultando num programa que causou interesse geral e revelou muitas das dificuldades de bastidores dos profissionais da passarela e câmera fotográfica.

Na semana passada, uma outra emissora de TV da Inglaterra veiculou um programa sobre um consurso de beleza para mulheres acima do peso. A audiência foi um sucesso, e a repercussão da iniciativa na promoção do "ser feliz do jeito que você é" foi imensa, principalmente em relação ao vínculo que o assunto tem com a melhoria da auto-estima e confiança de cada uma das participantes.

Diferentemente dos concursos de misses, ser bela não é o primeiro dos requisitos para ser modelo. É preciso lembrar que o que deve (ou deveria) ser destaque é o produto que está sendo veiculado e não a pessoa que serve de suporte.

Um ponto bastante importante é a capacidade física e atitudinal de ser camaleão. Explico melhor: uma modelo tem um dia-a-dia gerenciado por uma agência, que muitas vezes tem carta branca para escolher os trabalhos, fazendo com que num pequeno intervalo de tempo a modelo tenha que "encarnar" uma personagem sedutora, agressiva, ingênua, romântica, etc. A canadense Linda Evangelista foi eleita a mais clássica das camaleoas.

Da mesma forma, as linhas do rosto e a postura devem variar de acordo com a tarefa. É necessário ainda ter flexibilidade relacionada com cabelos, linha das sobrancelhas, palidez ou bronzeado, leveza no andar ou uma expressão séria no rosto.

O que talvez seja realmente o mais difícil para ser tornar uma modelo de sucesso seja o domínio sobre o próprio corpo em ação. Com a globalização, os produtos de moda devem atingir públicos de culturas diversas, e muitas vezes um sorriso é bem-vindo para uns e mal visto para outros. E mais: a maioria delas é orientada a não sorrir, visto que isso tiraria a atenção da roupa para o seu rosto. Portanto, a emoção deve ser controlada sob os flashes.

A maioria das campanhas de moda são realizadas com a antecedência suficiente para que tudo esteja nas ruas no momento correspondente à estação do ano. Isso significa que a modelo pode estar posando de biquíni durante um inverno rigosoro, ou que esteja com camadas de casacos de inverno num verão tropical.

É comum ainda o bronzeamento ou maquiagem do corpo, principalmente para aquelas que tem tatuagens. Apliques, escovas, tinturas, tudo pode mudar nos cabelos em menos de duas horas, assim como nas unhas, cílios e no que mais a criatividade permitir.

Por funcionar literalmente como um "cabide", a modelo tem que sustentar a roupa de forma que seja possível a apresentação dos detalhes da peça, e muitas vezes seus atributos relacionados à flexibilidade, como em roupas multi-uso.

O pudor é algo não deve fazer parte do universo de uma modelo, visto que decotes, recortes, transparências e nudez são lugar comum em seus trabalhos.

Considerando que o que a modelo está vendendo não é o seu corpo, e sim a sua imagem como um todo no contexto da peça que ela veste, todo segundo deve ser monitorado. Em desfiles, os flashes são intermináveis, resultando em ângulos "perigosos" para a imagem do produto e dos próximos trabalhos da modelo.

Outro ponto a ser considerado é que um desfile, com duração média de 20 minutos, carrega em si o trabalho intensivo de no mínimo seis meses e uma equipe multidisciplinar, que vai do design têxtil à trilha sonora, da inspiração às personalidades sentadas na primeira fila.

Mas, o que realmente fica para o público em geral, é aquela foto publicada na primeira página do jornal ou revista. Essa foto deve ser perfeita, e toda a responsabilidade sempre recai sobre os ombros da modelo.

Algumas técnicas têm sido desenvolvidas para auxiliar a carregar esse "fardo" com competência. O olhar distante ajuda a modelo a se concentrar em um universo paralelo e exprimir as sensações que a roupa proporciona, sem interferências de flashes, luzes, gritinhos e acenos.

A elegância no andar deve ser permanente, seja descalça, com salto agulha ou em plataformas desafiadoras. Para isso, o eixo do corpo é todo deslocado para a ponta dos pés.

O busto deve inflar ou diminuir de acordo com o decote e o "clima" da roupa, e a modelo deve controlar os músculos, muitas vezes desafiando a lei da gravidade para alças e decotes.

Como há fotógrafos em toda a platéia e em todos os ângulos, o andar deve ser tenso (embora parecendo relaxado) para evitar fotos com pernas dobradas ou abertas, em poses deselegantes. O andar de Gisele Bündchen, cruzando as pernas a cada passo é um dos mais perfeitos.

Se tudo isso ainda não é suficiente para fazer uma "top model", se deve lembrar que além do controle físico do corpo, a modelo tem uma imagem pública, mesmo quando fora de serviço.

Revistas de celebridades não perdem a oportunidade de divulgar uma notícia de suas vidas pessoais, de uma gafe, de um erro, ou da escolha de uma peça de roupa que não seja do seu patrocinador oficial.

Não é por acaso que as mais famosas modelos se vestem simplesmente com jeans, camiseta e tênis. O uso excessivo de roupas e adereços (para muitos considerados extravagantes) em sessões de trabalho traz o efeito contrário fora dos holofotes, pois como para qualquer ser humano, tudo em demasia cansa.

A modelo inglesa Kate Moss, há tempos vem ocupando as manchetes por suas inúmeras atitudes irreverentes. Mesmo sendo classificada como um modelo que não deve ser seguido, talvez a assinatura de novos contratos e o aumento da sua conta bancária sejam um reflexo da sua humanidade: neste caso, as falhas também fazem parte da perfeição.


Maria Alice Rocha é doutoranda em moda na University for the Creative Arts de Rochester, Inglaterra, e professora e pesquisadora de moda, vestuário e consumo na Universidade Federal Rural/PE.
 

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