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Segunda, 21 de agosto de 2006, 07h23

Luzes e sombras

João Carlos Salles

"Em que está trabalhando?", perguntaram ao sr. K. Ele respondeu: "Tenho muito o que fazer, preparo meu próximo erro".

Bertold Brecht, "O esforço dos melhores".*

1.
Quem é sem defeito não tem uma personalidade própria. Como escreveu certa feita Lichtenberg, "desde que uma pessoa tenha uma doença, tem uma opinião pessoal". É verdade que Lichtenberg era corcunda e, provavelmente, advogava em causa própria, mas não acerta menos o alvo. A norma, a regra, o padrão, tudo isso parece comum e, de certa forma, não nos pertence. O erro, ao contrário, apresenta o que nos é próprio, se não for, por vezes, o melhor de nós. O erro singulariza, então, pelo desvio, mesmo sendo fugaz ou furtivo.

Estou longe de afirmar uma oposição entre uma vida pública artificial e uma vida interior, esta sim autêntica, embora insidiosa e subterrânea. Sugiro antes que, de preferência a um gesto anódino ou eloqüente, mas esperado, uma gafe denuncia mais nossa presença. Uma falha em uma cerimônia impecável nos devolve a nossa condição humana, relembra nosso difícil e singular equilíbrio, como se nos fizesse retornar ao fato, nada oculto, de que só podemos andar provocando e interrompendo uma sucessão de pequenas quedas. Não seríamos inteiros, enfim, apenas em meio às luzes. Raramente racionais em nosso dia-a-dia, dificilmente seríamos decifrados tão-só por demonstrações, mesmo em nossas mais abstratas produções filosóficas e científicas, nunca de todo imunes à história e à vida.

Creio ser essa uma parte fundamental da intuição exegética de Fernando Rego, cujo livro História Noturna da Filosofia será lançado em setembro, em Salvador, pela Editora Quarteto. Fernando sempre foi um grande devorador de livros de filosofia (que lia às vezes como policiais) e de livros policiais, lidos com fervor filosófico. Por essa estratégia de leitura, mostrava saber bem que, sem caráter e sem mácula, nunca se é verdadeiramente sagaz. Assim, encontramos em seu livro pequenas leituras de grandes textos, iluminados então de um ângulo que os procura tornar mais inteiros. Uma leitura das luzes, portanto, que jamais desconhece a noite - essa noite que sempre vem, como em poema de Kaváfis, com seus conselhos, seus compromissos, suas promessas, sua força.

O olhar de Fernando Rego sabia, pois, desvelar intenções e sombras de vida mesmo na expressão mais gélida ou mórbida da razão, sendo sua palavra sempre capaz de ironizar o mundo e as pessoas, não nos poupando de juntar nosso ridículo atroz ao de Deus e suas obras. Repito aqui minha homenagem a Fernando e reforço um convite ao eventual leitor para que acompanhe esse olhar noturno, retomando agora o texto do meu prefácio a seu belo e esconso livro.

2.
Hume descreve-nos como um constrangimento suave o processo por que a imaginação faz crer necessário o laço entre acontecimentos sucessivos constantes. Nem sempre, porém, é suave o movimento de afirmação da regularidade, nem sempre se instala como natural, mesmo quando vitorioso. Há, por exemplo, alguma violência, como a insinuar uma vingança, no modo com que a natureza reivindica e quase faz retornar a si os objetos roubados pelo trabalho humano, quando a decadência dos homens já não reitera o modo único de proteger os filhos do rapto, de conservar as peças que, usurpando, modificou e fez humanas. Há no abandono, que enseja esperanças nas forças naturais, uma mácula indelével; e a peça abandonada já não retorna nem fica, já não é dos homens nem de ninguém, como os móveis sujos e quebrados, as pedras desgastadas de museus e igrejas de Cachoeira. A violência é então irônica e nada suave.

Quando não se faz sem alguma violência, quando o preço da regularidade decifra-nos o que é próprio do humano, a filosofia encontra então temas outros que os da lógica ou da teoria do conhecimento. Quando o território é de abismos, o campo é fértil para considerações éticas ou existenciais. Não é, parece-me, na superfície plana da técnica filosófica, nem no domínio por vezes quantitativo de saberes, que poderemos encontrar o que faz incômoda e fecunda a reflexão de Fernando Rego. Não que seus textos, porquanto literários, independam de laborioso trabalho conceitual ou o dispensem, mas antes porque preferem exigir investimento, anteposição do leitor. Seus textos incomodam e desafiam; nesse sentido, nunca são apenas acadêmicos. É o que sinto, é o que sempre me surpreende. Parece-me que pergunta, de preferência, quando devassa um filósofo, não pela relevância de sua contribuição e sim contra quem escreve, não o precioso que revela e sim o que invariavelmente esconde. Seu olhar é, assim, noturno, embora eu tema ter percebido algum desconforto quando sugeri a Fernando Rego que intitulasse História Noturna da Filosofia uma sua coletânea de textos. É, todavia, como penso devam ser lidos seus textos, é como os sinto ameaçadores; afinal, poucos suportam uma continuada exposição do mundo e do saber antes ou depois da regularidade, em afirmativo caos, em pleno exercício de forças deveras criminosas, ou seja, demasiado humanas, mesmo se camufladas ou, sobretudo, quando camufladas em fina reflexão, em gélida lógica.

Creio, finalmente, que Fernando Rego não considerará irritante a comparação seguinte, por demais genérica, entre seus textos e um momento hitchcockiano. Os seus textos lêem questões filosóficas como pequenos crimes, cuja força, porém, não se encontra nos golpes desferidos no instante do banho. O crime é relativamente curto. A vertigem quase não tem duração. Demorada e constrangedora é a caprichosa arrumação do quarto de motel, a cuidadosa limpeza da banheira. O carro tragado pelo pântano é como o labor agora humano para produzir regularidade, para fingi-la, como o fazem homicidas, filósofos ou físicos, como o deseja fazer quem pretende cometer o crime perfeito e enterrar no quintal um corpo, sob uma laje de pedra, como o fazemos todos ao apagar as pistas de nós mesmos e de nossa existência.

* Histórias do sr. Keuner, São Paulo, Editora 34, 2006, tradução de Paulo César de Souza.


João Carlos Salles é professor do Departamento de Filosofia da UFBA e publicou os livros A Gramática das Cores em Wittgenstein e O Retrato do Vermelho e outros ensaios.

Fale com João Carlos Salles: joaocarlos.salles@terra.com.br

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