Terra Magazine

 

Terça, 22 de agosto de 2006, 07h55

As palavras como ponte ou ferramenta de guerra

Moisés Storch

Terra Magazine tem publicado, semanalmente, duas visões sobre o conflito no Oriente Médio. Leia abaixo, depois da apresentação de Moisés Storch, coordenador do movimento Amigos Brasileiros do Paz Agora (www.pazagora.org), um artigo do psicanalista Paulo Blank. O tema e a abordagem são de livre escolha dos autores.

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..."Como começar a resolver este impasse, se nem conversar é possível, já que para o poeta palavras não servem para provocar diálogo mas somente para denegrir o inimigo?"

O psicanalista Paulo Blank foi à Festa Literária Internacional de Parati com a esperança de construir pontes de diálogo para diminuir as diferenças que teimam em provocar conflitos no Oriente Médio.

Tentou e não conseguiu. Encontrou escritores que, em vez de usar as palavras como ferramenta para o entendimento, ainda preferem utilizá-las como arma de guerra...


Eu Vi Barghouti

por Paulo Blank

Fui a Parati, crente que a FLIP era festa de palavras, e encontrei a defesa do silêncio na fala do poeta Mourid Barghouti. Não fosse a intervenção do nosso Ferreira Gullar, e o discurso do poeta palestino que não acredita em palavras-ponte teria sido uma fala sem contraponto. Seria mais um destes discursos de ataque a Israel que tanto sucesso fazem nestes tempos de cólera solta e impotência desembestada da nossa esquerda órfã de líderes e de dialética.

Como já conhecia as traquinagens de Tariq Ali, o novo darling de certa intelectualidade brasileira apaixonada por Chavez e discursos anti-semitas, não me dei ao trabalho de assistir à performance psicodramática daquele grande manipulador de massas, apresentado pela dona Liz Calder, presidente da FLIP, como o pensador máximo da esquerda inglesa. No resguardo, esperei o poeta apresentar-se ao lado de Ferreira Gullar.

Após a intervenção de Barghouti, o coordenador leu duas perguntas. Uma perguntava à mesa como os dois poetas viam a possibilidade de resolver conflitos através da palavra. Barghouti começou surpreendendo, ao dizer que preferia falar das palavras-problema e não das palavras-encontro.

Em tom dramático disposto a arrebatar a platéia, lá foi ele demonstrando como a palavra pervertida associa árabes a terrorismo e, no final das contas, sem dar atenção ao conteúdo da pergunta, não considerou a possibilidade de resolver conflitos.

Em nenhum momento Barghouti conseguiu transformar o seu sofrimento num desejo de reconhecer que só o entendimento pode transformar a realidade do Oriente Médio. Falando da travessia sobre o Rio Jordão no seu caminho de volta do exílio, esqueceu das palavras-ponte. Sem elas o que resta além da guerra e da exclusão radical do diferente?

"O escritor Amos Oz disse que palestinos e israelenses são como um casal separado que, sem outra solução, é obrigado a conviver no mesmo apartamento. Caso o sr. concorde com esta afirmação, que parte caberia a Israel neste apartamento?". A segunda pergunta era minha. Queria que o ativista político esclarecesse de forma clara o que o poeta pensava sobre as possibilidades de a palavra resolver discordâncias entre judeus e palestinos.

Afinal, não era Barghouti o mesmo poeta que no ano 2000, Iossi Sarid, então ministro de educação de Israel, membro do Meretz, partido pacifista e de esquerda, resolveu introduzir no currículo dos colégios gerando uma crise política e um enorme debate em seu país?

Mas, em Parati, diferente de seu "inimigo" de Jerusalém, Barghouti parecia mais interessado em demonizar o outro e trancafiá-lo numa prisão de palavras sem saída. Não bastasse a negação de seu próprio oficio de escritor ao desdenhar o alcance da palavra, na segunda resposta que deu o poeta negou a validade do PAZ AGORA, o movimento pacifista de Israel, esculhambou com um de seus fundadores, o autor Amos Oz, o mesmo que dias antes havia pedido a aceitação do cessar-fogo em manifesto de escritores israelenses. Que pena.

Em sua resposta à minha pergunta, novamente, Barghouti preferiu falar da impossibilidade. Que não era hora de escritores construírem belos pensamentos. Que o movimento pacifista israelense fracassara porque não aceitava o direito palestino de retorno a Israel. Ou seja, ou se volta a 1947, quando os estados árabes não aceitaram a resolução da ONU da criação do estado de Israel e fomentaram o êxodo palestino prometendo uma guerra rápida para jogar os judeus no mar ou, então, não há conversa possível.

Diante desta proposta suicida que quer a destruição de Israel, com quem Barghouti pode ser capaz de trocar palavras? A esta altura dos acontecimentos, trata-se da aceitação mútua da realidade como ponto de partida para negociar uma solução de dois estados, onde, de fato, Israel já existe e é hoje reconhecido, até mesmo, por paises árabes.

Como começar a resolver este impasse, se nem conversar é possível, já que para o poeta palavras não servem para provocar diálogo mas somente para denegrir o inimigo?

Curioso. O argumento que Barghouti usou para responder à primeira pergunta, de que as palavras subvertem a realidade, construindo imagens negativas do outro, foi a prática que ele mesmo utilizou ao longo de todas as suas participações. Só se ouviram de sua parte ataques sem qualquer possibilidade de encontro. Foi Ferreira Gullar quem salvou a situação.

Gullar encantou a todos quando disse que o importante nesta vida não era ter razão, mas ser feliz. Eis um bom ponto de partida para Barghouti aprender algo em seu giro latino. Para alcançar este estado, o que vale é a disponibilidade das pessoas para conversar.

Ou queremos ter razão, e aí buscamos a vitória a qualquer preço, ou então, renunciamos à razão perversa que nega o outro e construímos a razão do encontro como uma ponte que liga as margens, mantendo as diferenças. Vale encerrar com um antigo quase poema judaico que eu gostaria muito que um dia Barghouti pudesse conhecer:

"Se eu sou eu porque você é você
E você é você porque eu sou eu, então nem eu sou eu nem você é você.
Mas, se eu sou eu porque eu sou eu, e você é você porque você é você,
Então eu sou eu
Você é você
E nós podemos sentar e conversar".

Ou seja, meu caro poeta, é na aceitação radical da diferença que se dá a possibilidade do encontro. Que a paz ilumine os seus pensamentos e me permita, um dia, encontrá-lo para uma boa leitura de poesia brasileira.

Salam, poeta Barghouti!

*Paulo Blank é psicanalista, escritor e membro dos Amigos Brasileiros do PAZ AGORA (www.pazagora.org). Escreve uma coluna aos domingos no Jornal do Brasil.
 

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