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Quarta, 23 de agosto de 2006, 12h18

Biotecnologia: fibras alternativas

Maria Alice Rocha

O progresso da civilização tem trazido um sentimento de retorno às origens, principalmente em relação aos tecidos. Consumidores de várias partes do mundo têm experimentado o desconforto relacionado com tecidos sintéticos, apesar das promessas dos fabricantes quanto às propriedades especiais de novos tecidos.

O sentimento dos consumidores em fazer algo para salvar o planeta, no meio de tantas bombas, ameaças e catástrofes tem, embora ainda timidamente, feito surgir um nicho de mercado para aqueles que optam por vestir apenas fibras naturais ou ecologicamente corretas.

Essa sede tem alimentado algumas empresas com pesquisas, algumas bem inovadoras, outras com técnicas tradicionais, embora inovando na matéria prima.

Apesar de nem todos os processos de beneficiamento de fibras naturais isentarem de prejuízo a natureza, é sabido que estas aumentam o bem-estar de quem as vestem.

As iniciativas relacionadas à corrida biotecnológica já começaram, e o maior beneficiado deverá ser o consumidor final.

A Embrapa - Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - é líder mundial na pesquisa com algodão natural colorido. A unidade de Campina Grande conseguiu melhorar geneticamente espécies nativas e silvestres de algodão colorido da Região Nordeste, tornando as fibras mais longas e resistentes. Atualmente, a Embrapa Algodão oferece cultivares marrom, verde, safira e rubi. Dessa forma, o algodão colorido pôde ir direto para os teares, sem requisitar o uso de corantes.

O mais interessante desse projeto é que toda a cadeia têxtil está envolvida, desenvolvendo não somente a fibra naturalmente colorida (que evita alergias e intoxicações) em laboratório, mas todas as etapas - da fibra à prateleira. O consórcio Natural Fashion envolve cooperativas de produtores rurais, tecelagens artesanais, artesãos manuais e instituições públicas e privadas.

Desde o lançamento em 2000, interessados compradores do mundo inteiro aguardam com atenção os resultados e o crescimento do negócio, visando principalmente o mercado europeu infantil e para a terceira idade. O principal diferencial do algodão colorido brasileiro é que todo o melhoramento genético foi realizado com a utilização de técnicas convencionais enquanto que outras iniciativas pelo mundo realizam a inserção de corantes no gene da planta, resultando num produto geneticamente modificado.

À medida que a aversão às fibras derivadas de petróleo como poliéster, acrílico, poliamida e elastano, (as duas últimas são mais conhecidas por seus nomes comerciais nylon e lycra, respectivamente) aumenta, os consumidores procuram fibras mais naturais. A elevação do preço do petróleo é outro fator que tem contribuído para o crescimento da competitividade das fibras naturais e orgânicas.

A indústria têxtil tem investido bastante em pesquisas relacionadas com o desenvolvimento de fibras artificiais oriundas de produtos naturais, sendo as mais conhecidas o rayon (mais conhecido como viscose) e o acetato, ambas decorrentes de reprocessamento de fibras de algodão curtas ou reclicadas.

Inúmeras pesquisas têm sido feitas para a transformação de matéria orgânica em fibras tais como: utilizando a polpa da madeira (Tencel), celulose (Lyocell), soja (SPF), milho (Ingeo), polpa de bambu (Bambrotex). Apesar do apelo ecológico à matéria prima, o processo de produção das fibras artificiais ainda é muito poluente, o que não as caracterizam como 100% "amigas da natureza".

O que tem chamado atenção de um número cada vez maior de pessoas interessadas em negócios têxteis tem sido o potencial da maconha como fibra têxtil. A planta "cannabis sativa" é uma das mais antigas fibras têxteis: o cânhamo. O seu cultivo é de fácil implementação, o seu beneficiamento não requisita sofistição, e o efeito final do tecido se assemelha ao linho, um dos mais nobres e confortáveis tecidos.

A moda do "industrial hemp" (maconha industrial, em inglês), inicialmente restrita a comunidades alternativas, já está presente em coleções da Adidas, Calvin Klein e Giorgio Armani. A loja anglo-australiana Braintree Hemp na efevercente região de Camden Town, em Londres, é um exemplo claro que a roupa de maconha não provoca nenhum dos efeitos relacionados com a substância ativa da planta original (THC).

Na Europa, a maconha comercializada como fibra têxtil vem da planta com baixo teor de THC e as áreas de plantio autorizadas são monitoradas para que não haja a troca da planta "têxtil" pela planta "droga". Além de países do leste europeu, a planta têxtil é cultivada por poucos agricultores na China e na Rússia. Com o aumento da demanda, algumas ilhas caribenhas e a Austrália têm demonstrado interesse no negócio, principalmente por conta de suas condições climáticas e geográficas.

Sabemos que essas condições favoráveis existem em várias regiões do Brasil, como o "polígono da maconha", no sertão de Pernambuco. Se substituíssemos essas plantações de maconha ilegal por maconha com baixo THC, poderíamos iniciar um ciclo produtivo de moda natural no Brasil e partir na frente dessa corrida. Alguém se habilita?


Maria Alice Rocha é doutoranda em moda na University for the Creative Arts de Rochester, Inglaterra, e professora e pesquisadora de moda, vestuário e consumo na Universidade Federal Rural/PE.
 

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