Terra Magazine

 

Sexta, 25 de agosto de 2006, 07h50

Glauber, o artista como filósofo

Silvio Tendler

Paloma Rocha, a filha do cineasta Glauber, está lançando em DVD A Idade da Terra, último filme de Glauber e sem dúvida seu trabalho mais polêmico. A Idade da Terra funciona como testemunho de um mundo que mudava, última intuição do genial baiano que anteviu naquele momento o que estamos vivendo hoje.

Denunciou com garra e convicção, pagando o alto preço do isolamento em seu auto-exilio em Cintra, Portugal. Retornou para morrer no Rio de Janeiro em agosto de 1981.

Glauber faz parte de uma tríade, junto com o italiano Píer Paolo Pasolini e o suíço Jean-Luc Godard, que ajudou a sacudir as bem comportadas estruturas cinematográficas nos anos sessenta, criando uma conexão revolucionária entre cinema, política, cultura, costumes, linguagem.

Sim, eles pretendiam mudar o mundo. Não queriam fazer do cinema apenas entretenimento como Hollywood fazia crer que era a missão da arte. Combatiam o "business world" e o contrapunham com o cinema revolucionário.

O primeiro subversivo foi o ex-professor de literatura e cineasta de fé marxista, Píer Paolo Pasolini, quando apresenta seu genial "Evangelho Segundo São Mateus". A melhor versão da vida de Cristo foi filmada por um comunista.

Jean-Luc Godard , freqüentador da cinemateca francesa junto com Truffaut, Malle, Chabrol, Rohmer e outros jovens que formariam a "nouvelle vague", 'nova onda' francesa, começou revolucionando a linguagem cinematográfica, contestando a "gramática" acadêmica imposta pelas "majors" e propondo outras narrativas geniais.

Glauber iniciou sua grande carreira com "Barravento", que introduz no "cinemão" temas que até então eram restritos a documentários. "Barravento" fala da cultura afro-brasileira e mostra, pela primeira vez, um ritual de iniciação no candomblé. Tema ainda visto e recebido preconceituosamente pela elite branca.

E com o genial "Deus e o Diabo Na Terra do Sol", incomparavelmente seu melhor filme, subverte a linguagem do "western". Daí para cá, nem o cinema nem o mundo foram os mesmos.

Estes filmes e seus autores prenunciavam que alguma coisa iria mudar.O que terminou acontecendo com as explosões sociais, políticas, culturais e de costumes dos idos de 1968, que já encontrou a tríade com obras maduras: sintomas e agentes destas mudanças.

Pasolini caminha para uma radical crítica à moral, aos costumes, e termina fazendo um cinema brutal e escatológico. O cineasta é violentamente assassinado, com requintes de perversidade numa rua em Roma num crime que mistura, fascismo, homossexualismo, homofobia e prostituição masculina.

Godard dá uma guinada política em sua vida aderindo à moda maoísta, tornando-se um propagador da revolução cultural chinesa através dos filmes mais chatos e equivocados politicamente.

Glauber, depois de ganhar o prêmio de melhor diretor do festival de Cannes com o filme "O Dragão Da Maldade Contra o Santo Guerreiro", rompe com a ditadura militar, denuncia a tortura no Brasil e num auto-exílio, leva para o mundo sua inquietação e indignação; filma no Congo, Espanha, Chile, Itália, Portugal. Gira pelos Estados Unidos, Peru, México, Uruguai. Era um viramundo compulsivo. Seu melhor filme foi sua vida.

Glauber se considerava um filósofo. Se estivesse vivo, hoje seria considerado um artista performático, multimeios. Se identificava e dizia ser reencarnação do poeta Castro Alves. Não buscava coerência nem unanimidade. Era provocador, demolidor, imprevisível para amigos e inimigos, os quais cultivava aos borbotões.

No final da vida, completamente cansado em seus combates, retirou-se para Portugal, de onde trocava correspondência com os poucos amigos que restavam, ou palavras com os que iam visitá-lo. Para os cineastas portugueses era um mito e um herói - este foi seu principal alimento nos tempos que viveu embalado por idéias revolucionárias, amarguras e drogas.

"A Idade da Terra" foi seu último combate. Filme longuíssimo (mais de duas horas de duração), barroco, como o conjunto de sua obra. Resultou numa tentativa incompreendida de, mais uma vez, revolucionar a linguagem cinematográfica - Glauber não quis colocar créditos de começo e fim. O filme foi pensado para ser projetado de forma aleatória pelo projecionista, na ordem que melhor lhe conviesse. Os espectadores não deveriam assisti-lo de uma só vez, mas degustá-lo pouco a pouco como se faz com um bom livro ou um bom trago.

O mundo já caminhava aceleradamente em direção ao "yuppismo" que estava sendo construído na era Reagan-Thatcher. Glauber insistia num manifesto terceiro-mundista. Um de seus personagens era um Cristo negro interpretado pelo seu ator de sempre, Antonio Pitanga, que numa cena genial e premonitória, nu na esplanada de Brasília tendo ao fundo a imagem do Palácio do Planalto, professa: "Um dia chegaremos lá!".

Por intermédio de Glauber, o ator Antonio Pitanga profetizou em 1980 o que o petista Antonio Sampaio (nome de batismo de Pitanga com o qual ele assina sua atuação em Barravento) faria em 2002 com Lula: chegar ao Palácio do Planalto.

Veneza recebeu mal Glauber, que chegou mais provocador do que nunca. O mundo mudou, o festival de Veneza mudou: o diretor do festival era o comunista Carlo Lizzani e um dos principais filmes apresentados era "Guerra nas estrelas" de George Lucas. Estranho coquetel ideológico para Glauber que havia rompido com a esquerda quando, numa famosa entrevista em 1974, apoiou o processo de redemocratização que se iniciava no Brasil, e elogiou o General Geisel com suas intencionadas aberturas políticas.

Glauber não suportava igualmente a dominação do cinema pelas "majors". Continuava defendendo a produção de uma arte independente, o cinema-arte e seu direito de praticar filosofia através do cinema. O mundo mudava e Glauber continuava um Quixote barroco provocando.

Glauber protestou, foi agredido e agrediu. Isolou-se num combate que poucos entenderam. Hoje, passados vinte e cinco anos, e à luz do que ocorre com a indústria de cinema, completamente dominada pelas "majors", já dá para dizer que Glauber pagou um alto preço na luta pela expressão artística libertária. O cineasta-filósofo-guerrilheiro tinha razão.

Não coloquei as datas dos filmes e dos fatos relatados. Cabe ao leitor interessado pesquisar e montar este quebra-cabeças ou, se quiser, assistir meu filme: "Glauber o filme, Labirinto do Brasil". Boa viagem


Silvio Tendler é cineasta, autor dos filmes Os Anos JK - Uma Trajetória Política (1980); Jango (1984); Castro Alves - Retrato do Poeta (1990) e Glauber, o filme, labirinto do Brasil (2001).

Fale com Silvio Tendler:s.tendler@terra.com.br
 

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