
Bob Fernandes
O último parágrafo da introdução a esta entrevista foi escrito na noite de 18 de maio, logo depois de uma entrevista com o governador de São Paulo, Cláudio Lembo (PFL), no Palácio dos Bandeirantes, e publicado na manhã seguinte. Terra Magazine reproduz o mesmo parágrafo porque tudo ali continua valendo - em relação aos fatos e à persona do governador. Três meses depois, em outra conversa nos Bandeirantes, Lembo outra vez surpreende Terra Magazine. Não pelo seu bom humor, sutileza, mordacidade e inteligência, que seguem os mesmos, mas pela sua capacidade de dizer exatamente o que pensa. E ele, outra vez, disse o que pensa. O mais desabrido, sobre a sucessão presidencial em curso:
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-...poderá haver uma mudança, se acontecer um fenômeno muito especial. Nesse momento creio ser muito difícil uma vitória do candidato da oposição.
Ante a pergunta "do Geraldo Alckmin?", o governador emenda, de primeira:
- O próprio Geraldo...
Diz ainda:
- Não vejo condições de haver segundo turno nesse momento...
Para não deixar dúvidas, arremata:
- Acho que nós estamos caminhando para a definição num primeiro turno...
Para o governador, também sua poltrona já tem outro ocupante visível a caminho:
- Estamos muito próximos do José Serra governador de São Paulo...
Quanto à utilização - por parte de setores da oposição - de fitas gravadas com conversas entre bandidos como tentativa de influenciar no cenário eleitoral, Cláudio Lembo é, outra vez, direto:
- Eu diria que pode muito bem ter presos que queriam isso, mas não creio que seja uma posição coletiva desse ou daquele grupo de má vida, do crime organizado. (...) Nós temos que tratar a sucessão com um grande cuidado. Deve ser feito um processo democrático, o processo democrático tem que ser sempre preservado, e tendo limites de comportamentos.
O governador do mais poderoso estado da federação repete, e ainda amplia, sua análise quanto ao que ele mesmo celebrizou como a "elite branca, má e cruel" de São Paulo, do Brasil:
- (...) foi bom para que a própria elite branca tenha consciência do resultado de sua ação nos 500 anos. Todos nós temos que ter consciência disso. (...) O PCC e acho que outras situações sociais extremamente degradantes são efetivamente o resultado de uma má visão do mundo que nós, da elite branca - e querem alguns que eu também seja, e eu sou - tratamos mal os problemas sociais.
O governador de São Paulo, Cláudio Lembo, 71 anos, é homem dotado de apurado e contumaz senso de humor. Lembo foi presidente da Arena-SP, foi do PP de Tancredo Neves, secretário de Jânio Quadros e é um dos fundadores do PFL. Cláudio Lembo é político arguto. No dia da posse, para um mandato de 8 meses, disse ter chegado ao Palácio dos Bandeirantes "por obra do acaso". O acaso, certamente, levou-o a estar à frente do governo de São Paulo quando a organização criminosa denominada PCC decidiu-se por atacar as polícias do Estado. Mas não é o acaso que tem guiado as ações, e as palavras, do governador Lembo.
Leia a entrevista na íntegra:
Terra Magazine: Governador, peço que senhor nos diga como percebe a sucessão presidencial hoje. Qual sua expectativa?
Eu creio que poderá haver uma mudança sim, se acontecer um fenômeno muito especial. Nesse momento creio ser bastante difícil uma vitória do candidato da oposição.
Do Geraldo Alckmin?
O próprio Geraldo...ele está numa posição muito complexa porque a diferença entre ele e Lula é muito grande. A não ser que aconteça um episódio totalmente inusitado.
Quantos anos o senhor tem na política?
Ah... mais de 40.
Com a sua experiência, o senhor imagina que haveria segundo turno ou nem isso?
No dia de hoje não. Não vejo condições de haver segundo turno nesse momento. Principalmente em razão da popularidade do governo. Uma coisa incrível face a uma comparação com os governos anteriores.
A eleição, então, praticamente hoje está...
É um momento difícil hoje para a eleição. Acho que nós estamos indo para a definição num primeiro turno.
Há um assunto que passa pelo seu Palácio, que passa pela sua mesa, que pareceu uma tentativa de politizar a crise policial, criminal de São Paulo. O que aconteceu? Existiram conversas de bandidos? O senhor teve acesso a conversas de bandidos? (NR: Em fitas gravadas pela polícia criminosos falam em atacar "políticos do PSDB...e não do PT") O senhor teve informação de que isso existia? Me parece que havia uma escalada, uma preparação para algo...
Eu diria que realmente houve documentos dos bandidos...
Dizendo o quê?
No começo da minha chegada aqui...
12 de maio, 13 de maio (NR: quando eclodiu a crise em São Paulo)...
...o secretário Nagashi, ex-Secretário de Administração Penitenciária, chegou a me apresentar um documento que era uma carta entre presos que falavam o nome de partidos. Posteriormente surgiram outros sinais desse tipo, mas coisas muito pequenas, muito tópicas. Uma, duas cartas. Eu diria a você que dentro de presídios devem ter representantes de todos os partidos, desse, daquele... Portanto, não dêem importância a isso.
O senhor acha que não há nada concatenado, para ser objetivo, com o que saiu nas últimas horas, que existiria um plano para atacar políticos, menos os do PT?
Eu diria que pode muito bem ter presos que queriam isso, mas não creio que seja uma posição coletiva desse ou daquele grupo de má vida, do crime organizado.
O senhor acha que isso é um tema que deveria freqüentar dessa forma a sucessão?
Não, de maneira alguma. Nós temos que tratar a sucessão com um grande cuidado. Deve ser feito um processo democrático, o processo democrático tem que ser sempre preservado, e ter limites de comportamentos.
Em que nível se deu e até onde se deu, agora, a federalização - ou a concatenação do estado de São Paulo - no combate à criminalidade?
Muito bem, vai muito bem. Nós tivemos grandes diálogos com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sua equipe de governo. Eu creio que nós temos hoje uma interação total entre as tropas da PM paulista e o Exército, e também com a Polícia Civil e a Polícia Federal. Portanto, vai bem.
Mas sem a presença, como o senhor queria, de tropas federais no estado. (NR: O governador é contrário a tropas do exército nas ruas de São Paulo).
Não... eu sempre achei desnecessário tropa do exército ou de qualquer outra força nas ruas de São Paulo. Nossa Polícia Militar é muito competente e daria conta do recado, porém a inteligência do Exército e a inteligência da Polícia Federal estão usando continuadamente e usávamos naquela ocasião. Porém, agora, a integração é muito mais forte.
Uma última pergunta. O senhor que para sua cadeira já há um sucessor também? Ou é algo ainda de se ver?
Eu creio que nós estamos muito próximos de ver o José Serra Governador de São Paulo. Ele tem números muito bons nas pesquisas e o discurso dele em São Paulo tem uma boa veiculação. Será o Serra.
Por fim, para terminar, da última conversa que tivemos aqui no 18 de maio, daquelas referências... O senhor se arrepende de mencionar uma "elite branca, má e cruel" (leia aqui)?
Não, não, pelo contrário, acho que foi bom para que a própria elite branca tenha consciência do resultado de sua ação nos 500 anos. Todos nós temos que ter consciência disso.
O PCC é um resultado disso...
Eu creio que o PCC e outras situações sociais extremamente degradantes são efetivamente o resultado de uma má visão do mundo que nós, da elite branca - e querem alguns que eu também seja, e eu sou - tratamos mal os problemas sociais.
Obrigado.
Obrigado.
Terra Magazine