
Entrevista a Fernando Eichenberg
Ausente dos palcos desde dezembro de 1999, Chico Buarque retoma a estrada em nova turnê a partir de 30 de agosto, na casa de espetáculos Tom Brasil, em São Paulo. A maratona de shows se prolongará por sete cidades brasileiras, e uma escapada, agora em outubro, para Lisboa e Porto, em Portugal. Há pouco mais de quatro meses, ainda no início da primavera européia, entrevistei Chico Buarque aqui em Paris. Acomodado numa cadeira de madeira na sala de seu apartamento na capital francesa, ele falou durante exatas duas horas e meia, o tempo de duas minifitas cassete de 60 minutos e mais um lado de 30 minutos. O resultado do encontro, motivado pelo lançamento de seu novo cd, Carioca (o primeiro em oito anos desde Cidades, 1998) -, foi publicado na edição de maio da revista Trip. Mas por motivos óbvios de espaço e também editoriais, praticamente metade de nossa conversa daquela tarde de 12 de abril, uma quarta-feira, permaneceu inédita. Aproveitando a estréia da turnê e também o fato de que a Internet não sofre do limite de páginas e permite longas tertúlias, segue abaixo a entrevista com os trechos inéditos, incluindo também a maior parte do que saiu na versão impressa já publicada.
Para você, o ato de criar sempre foi algo misterioso, com destinos inesperados. Começa de um jeito e acaba de outro, completamente inusitado. Continua sendo assim hoje?
Chico Buarque - É assim desde que comecei a alternar a música com a literatura. Quando volto a compor não sei mais como se faz para escrever uma música. O violão fica realmente encostado durante anos. Quando retomei o violão agora para compor, já querendo me livrar um pouco de assuntos de literatura, estava com vontade de tocar, de escrever música, mas a transição é difícil. Estava ainda mergulhado naquele mundo de literatura, queria sair dele mas o violão custou a me atender. Quando você pega o violão de novo, é como se não tivesse domínio do instrumento. É um pouco como começar um caso amoroso, é uma mulher que você não conhece, não sabe como lidar, no começo você faz muita cerimônia. E o violão ficava ali, arredio. Mas quando a música começa a aparecer, ela é inteiramente nova. Essa é a contrapartida. É uma dificuldade para você retomar, mas como não é uma continuação, mas um recomeço mesmo, você acaba encontrando novos caminhos. É mesmo uma namorada nova. Depois que você começa a criar intimidade, você vai ser uma outra pessoa. Você vai lidar com aquela pessoa de uma forma diferente com a que lidava com uma outra pessoa. Você tem se adaptar, começa a descobrir outras coisas. E assim foi, comecei a tocar violão. E a parar de ler, porque depois de escrever o livro, a gente ainda fica um bom tempo mergulhado naquele mundo da literatura. Primeiro, pelo próprio livro, porque você fica lendo o que sai a respeito do livro, acompanha as traduções. E você começa a conviver com gente de literatura e recebe livros e lê. E você fica lendo, lendo, lendo... e quando volta para música, primeiro tem de se despir de qualquer literatice, e isso no começo é difícil. Mas eu já estava com vontade de fazer música, com tesão musical mesmo. Então as músicas começaram a aparecer, e eram melodias e caminhos harmônicos novos para mim. Caminhos que tinha impressão de estar descobrindo, quase inventando. E assim foi, comecei a compor algumas melodias. Mas a letra demorou a aparecer, porque a cabeça ainda estava um pouquinho impregnada de literatura. E letra de canção não tem nada ou muito pouco a ver com literatura, é outro tipo de linguagem.
A cada disco você diz que essa inspiração misteriosa é confinada a um espaço mais estreito e rarefeito, menos fácil e espontâneo como era antes.
Isso é natural. Você já seguiu muitos caminhos e a não ser que você queira repetir o que já fez, trabalhar tecnicamente, isso é fácil, pode fazer várias músicas. Mas você quer fazer o que não fez ainda. E começa também a desconfiar da facilidade. Quando tudo parece fácil, você tem de abrir o olho e dizer "não é por aí". A dificuldade vem daí. Não é uma esterilidade, mas uma vontade de procurar um caminho novo, original, e, portanto, mais difícil. Às vezes você tem a impressão de que já falou sobre tudo, sobre todos os assuntos, e já tocou todas as notas, já harmonizou de todas as formas possíveis. Mas não, você sempre pode descobrir coisas novas. Depois, além disso, há um trabalho de depuramento que você começa a curtir mesmo. As primeiras músicas nascem espontaneamente pelos borbotões, e ficam mal-acabadas, e você grava assim mesmo, tem aquele entusiasmo juvenil, que é natural da juventude ser dado a arroubos. E é natural, vamos dizer, da terceira idade (risos), você se deter mais tempo na música, achar que sempre pode melhorar um pouquinho. Então, cada canção leva um bocado de tempo para nascer, outro tanto para terminar e outro tanto para burilar, para chegar até a forma final.
O que você considera novo musicalmente neste novo disco?
As músicas que eu compus têm pouco a ver melódica e harmonicamente com o que eu fiz antes. Até a parte literária da composição tem mais parentesco com o que foi feito antes do que a parte musical. Há coisas que faço até de propósito, citações de coisas feitas antes, citações literárias, letras que remetem a outras letras, retomadas de temas.
Por exemplo?
Tipo um samba chamado Dura na Queda (2000), que é a continuação da idéia de Ela Desatinou (1968), que tem 40 anos de idade. Na verdade, essa música eu tinha composto para o outro disco e no fim não gravei. Alguma coisa me dizia que não era adequada para aquele disco. Depois, a Elza Soares um dia me procurou, ela com o produtor, perguntando se por acaso eu faria uma música nova, e disse "não estou fazendo música, estou começando a escrever". Estava no meio do livro. E no meio da conversa lembrei "peraí, tem uma música que foi feita para a Elza Soares, e essa música tem tudo a ver com ela". Mas agora me deu vontade de gravar também nesse disco, ela se encaixava bem. É engraçado isso, você não sabe direito por que, mas algumas coisas se encaixam. À medida que o disco vai nascendo, ele vai ganhando uma cara que você não previa. Por exemplo, outra música, já mais antiga, Imagina (1983), uma parceria com o Tom (Jobim), é uma música que eu sempre quis gravar. Mas a cada disco que gravava, dizia: "Não, Imagina aqui não cabe". Nesse, eu já estava com as 11 músicas prontas, ouvi o disco e disse: "Falta uma música para terminar esse disco; claro, é Imagina". Para fechar uma coisa que ainda estava manca, imperfeita.
Você já falou de uma obsessão na hora de compor, algo que te persegue, uma imagem, na hora da criação de uma música. Você teve obsessões nesse disco?
É um trabalho obsessivo. E cada vez mais. Primeiro, a idéia para você começar a escrever uma música, uma canção, não precisa de um motivo forte. O motivo, às vezes, não é forte em si, mas acaba se tornando forte pela obsessão. Você não tira aquilo da cabeça, aquilo te persegue, te persegue, te persegue. "O que eu faço com isso? Tenho de fazer uma música". Mas você não sabe por que aquilo apareceu na tua cabeça. E você não vai sossegar enquanto não transformar em canção, em verso. Isso eu digo da idéia literária. E, às vezes, é uma coisa musical. Eu lembro que a última música que fiz fiquei dois meses tocando, não tinha letra, não vinha a letra, e era meio diferente, uma música meio espanhola. E acabou que não tem nada de espanhola. Mas tem um pedaço da seqüência harmônica que era meio espanhola, eu chamava de espanhola. E ficava fazendo aquele desenho harmônico mil vezes por dia. Mudava uma coisinha no dia seguinte e regravava. É sempre uma coisa obsessiva para mim. Eu trabalho obsessivamente.
Qual é essa música?
A música se chama Subúrbio.
E a música Outros Sonhos?
Pois é, para você ver, tem coisas também que vêm lá detrás, que emergem. Outros Sonhos é uma coisa que meu pai cantava o mote. A música, acho, que é chilena. Depois fui descobrir que estes versos foram musicados por um autor chileno, mas também por um autor argentino. Tem um tango do Carlos Gardel que diz a mesma coisa. Enfim, esses versos são anônimos, não sei de que país vêm, se da Espanha ou de que país de língua espanhola: "Soñe que el fuego helaba/ Soñe que la nieve ardia/ Y por soñar lo imposible/ Soñe que tu me querias". Meu pai cantava muito isso (repete os versos cantando). Mas ele cantava muito quando eu era garoto, só lembro muito disso e, depois, sumiu. De repente, volta. Volta e começa a ficar te perseguindo, aquela idéia, "tenho de fazer essa música". Como aquela outra citação célebre do Montaigne, que aqui na França todo mundo conhece: "Parce que c'était lui, parce que c'était moi". É a explicação para a profunda amizade que ligava Montaigne a La Boétie, que tinha morrido jovem. Ele não sabia explicar, e finalmente saiu com essa: "Porque era ele, porque era eu". Isso foi transformado numa história de amor, que você também não explica, por que esta mulher?, por que esta história?. Não tem como explicar, é só porque era ela, e era eu (risos). Essa obviedade cristalina e luminosa ficou me perseguindo um tempão. Até que apareceu o filme do João Falcão, A Máquina, e ele veio falando sobre a música de amor e tal, e eu falei pare ele: "Acho que eu tenho essa idéia, acho que vai servir para esse filme". Aí eu completei a canção.
Uma das novidades desse novo disco é que você canta vibrato numa música.
Depois o músico me corrigiu. É appoggiatura. É em Porque era ela, porque era eu.
Ainda é difícil para você decidir quando uma música está pronta, se libertar dela?
Tem isso até o dia da gravação. E no dia da gravação também não termina. Depois, durante a mixagem, você podendo mudar uma coisinha, sentindo necessidade ou mesmo um capricho de trocar uma palavra aqui e ali, acontece muitas vezes. Depois do disco pronto, você fala: "Ai, ai, ai, mas não era essa a palavra, tinha uma outra melhor". Dá vontade de mais tarde regravar a música só para deixar registrada a palavra ideal. Você devia poder fazer isso. Assim como você pode cantar a sua mesma música com um arranjo novo, com modificações harmônicas, poderia também fazer uma segunda edição das músicas com letras alteradas. Quando eu estiver com muita preguiça, acho que vou fazer isso, fazer a revisão das velhas músicas e canções. Estou falando de brincadeira, porque nunca vou fazer isso. Mas se um dia eu tivesse muita preguiça, poderia fazer isso, uma edição revista.
Você acha que a música ainda pode te abandonar um dia? É um temor que te persegue?
Eu já sublimei um pouco isso com esta coisa da literatura. Mas também não sei até quando vou levar isso. Parece um jogo perigoso. Porque vai acontecer. Quando este período de música passar, normalmente ainda vou fazer shows, e depois isso vai morrendo de morte natural. Aí imagino que eu vá querer escrever um novo livro. Pode ser que não, que eu queira fazer outras canções ou outra coisa. Mas se eu quiser começar a escrever um novo livro, evidentemente que não vou saber por onde. Não tenho idéia nenhuma, não penso isso. Não escrevo nada, tenho muita dificuldade para escrever. Escrever uma carta para mim é difícil, fico ali horas. Então, parece um jogo arriscado. E é isso que é bom também. O livro seguinte nunca será a continuação do anterior.
Você também é um curioso pela criação alheia. Águas de Março, por exemplo, é uma música que você diz que adoraria conhecer tanto o prazer como o mecanismo de criação.
Eu adoro Águas de Março. Eu devo ter citado isso num momento em que tinha acabado de ouvi-la, como poderia citar outras músicas, do Tom e de outros compositores, porque o prazer da criação é muito grande. Eu lembro do Tom quando ele compôs Águas de Março. Ele era extrovertido, e me mostrava a música, e a música não estava pronta. É uma coisa que eu não sei fazer, ele mostrava o rascunho e mudava ali na frente da gente. Testava novas coisas, novas palavras. Eu via aquela coisa e vivi com aquela música na cabeça por um bom tempo. Porque dava inveja, né? "Eu queria estar com aquela música na minha cabeça, queria que ela fosse minha". Não pelo prazer autoral, da posse daquela música, mas pelo prazer da criação. Daquela incerteza de que você pode fazer assim ou assado. Esse prazer é muito grande, muito intenso, mas o momento mesmo de criação é curto. Depois, o trabalho de burilação e tal você faz por necessidade, por gosto, mas não por paixão. Não tem aquela coisa de você virar a noite, não querer dormir, e ficar respirando aquilo direto.
No início você não acompanhava muito o processo de produção de um disco. Aos poucos você foi se apropriando de algumas tecnologias. Para A Volta do Malandro (1985), você disse que usou um gravador de quatro canais na criação. Hoje, você tem mais conhecimento dos recursos tecnológicos disponíveis e segue o disco até o fim.
As circunstâncias são outras. Naquele tempo, no começo da carreira, nos anos 60, eu não parava. Fazia show o tempo todo e gravava num intervalo entre um show e outro. Chegava lá, já estava pronta a base, tinha de gravar depressa. Havia um certo descuido também. Às vezes, escuto discos gravados nos anos 70, meus e de outros, e fico espantado: mas que coisa amadora, que bagunça. Tinha também o lado bom, no sentido do amador, não profissional. Mas que coisa esculachada. O estúdio era uma festa, as pessoas iam e bebiam e não sei o que mais. Então isso transpira no disco, você ouve e sente aqueles eflúvios. Se ouvir muito de perto, periga ficar de porre. Hoje não se faz mais assim, a vida é outra. Existe todo um aparato técnico, que estimula a fazer as coisas com mais precisão e cuidado. E, por outro lado, eu também vivo o disco por inteiro. Quando eu estou gravando, não estou fazendo outras coisas ao mesmo tempo. Estou compondo, gravando a música que acaba de ser composta, já estou mexendo nela, e assim vai. Tem também na música essa coisa da parceria, de você compor ou gravar sempre em parceria com seus músicos. Ao contrário da literatura, que é um trabalho muito solitário, na música você está convivendo com essa gente, são novas idéias que estão surgindo o tempo todo. A música vai ser arranjada por um músico, os outros músicos, na gravação da base, às vezes também sugerem uma coisa ou outra. O técnico de som, o engenheiro de som, também contribuem com esse tipo de coisa que você falou, na tecnologia. Eu escrevi o contraponto para uma música que eu já tinha gravado, a única já gravada, do musical Cambaio, com o Edu (Lobo), que é Ode aos Ratos (2001). Eu fiz esse contraponto, e tinha a idéia de fazer um rap, mas no fim saiu uma embolada. Aí cheguei no estúdio com a embolada, a letra na mão, e vamos ver como funciona. Soltou a música e eu mandei ver a embolada, e depois quando a música voltava, a embolada repetia, continuava fazendo duas vezes, e ficou legal. Para mim já estava bom, mas aí o técnico sugeriu um efeito, que não sei como chama, que a voz parece a de um rádio de pilha (imita o ruído). Aí falei: "Formidável isso". Eu nunca teria imaginado isso, foi a contribuição do técnico, no momento. E a criação está ali, é uma coisa coletiva, isso é muito bom, é muito prazerosa essa coisa do estúdio. Eu não quero perder isso de jeito nenhum.
Mas há também momentos em que o prazer se mistura a outros sentimentos. A turnê do disco vai começar por São Paulo, no final de agosto. Você ainda fica nervoso, é angustiante subir no palco ou o prazer supera?
Aí vem essa coisa que todo mundo fala: "Ah, porque ele é tímido, mas nesse dia ele não estava tímido". Todo dia eu não estou tímido, mas eu sou tímido porque está escrito na biografia, na pauta. "O tímido, o super-tímido Chico Buarque nesse dia se soltou" (risos). Mas ele está se soltando todo dia. Eu não sou tímido na minha vida normal. Mas eu não acho que seja normal você subir no palco e cantar. Ali, realmente, travo um pouco. Não sei como vai ser o próximo show. Espero não sofrer. Eu gosto dos ensaios, gosto de viajar com os músicos, essa coisa toda é muito boa, a gente diverte muito. Mas entrar no palco, uma estréia, quando penso agora fico um pouquinho apreensivo. Às vezes a boca fica seca. Sei lá, acontece mesmo de esquecer tudo, de dar tudo errado. Mas ao longo da temporada vai melhorando, não é todo dia uma estréia. Espero que não seja assim.
Um parêntese de futebol. Você vai fazer um show de aquecimento da turnê em Berlim e aproveitar para assistir, na Alemanha, aos dois primeiros jogos do Brasil na Copa. Qual você acha que deve ser o time?
Eu não entendo nada de futebol, nada disso de tática. Eu quero ver os melhores jogadores ali, todos juntos.
Mas qual deve ser a composição do "quadrado mágico" do Parreira?
Ronaldo, Ronaldinho, esses dois. Kaká está muito bem. Adriano não está muito bem, mas pode entrar. O Robinho, acho ótimo. Acho que o Juninho Pernambucano também pode jogar. Acho que o Edmílson deve jogar também, porque avança (a entrevista foi feita antes da lesão e do corte do Edmílson). Eu gosto de jogadores quando vão para frente, a defesa também fica cheia de buracos, mas aí é problema do técnico. Eu não sei, não entendo mesmo. Gosto de jogar e de ver. De ver jogadas criativas, ver gol, os passes, os dribles. Gosto menos de ver defesas brilhantes, beques que atrapalham as jogadas do ataque. Para mim, eles estão atrapalhando o espetáculo.
Leia as outras partes da entrevista:
» Parte 2
» Parte 3
» Parte 4
» Parte 5
Terra Magazine
» Memórias de um encontro: Claude Lévi-Strauss (1908-2009)
» Encontro com Albert Uderzo, um dos pais de Astérix & Obélix