Terra Magazine

 

Terça, 29 de agosto de 2006, 07h57

Chico Buarque em palavras (parte 2)

Entrevista a Fernando Eichenberg

Voltando para a música. O Bob Dylan, por exemplo, continua cantando antigos sucessos na sua The No Ending Tour (a turnê sem fim), mas com arranjos irreconhecíveis às vezes mesmo para os fãs. No último show dele aqui, um fã gritava o tempo todo pedindo Mr. Tambourine Man - que ele não cantou -, e à saída fez o comentário: "Ele não toca mais as músicas antigas, faz de propósito, quer negar seu passado". De uma certa forma, você também sofre esse tipo de pressão?
Chico Buarque -Isso acontece com qualquer artista. O show, de uma certa forma, estou negociando com o público. Em geral, o público só quer ouvir as músicas que conhece. E o artista, em geral, só quer cantar as músicas novas. E se for cantar as músicas antigas, geralmente a gente canta de uma nova forma, mexe um pouquinho no arranjo. Então, quando você escreve os roteiros dos shows, tem de tentar equilibrar. Não quero chatear as pessoas, mas também não quero só fazer a vontade dos outros. Senão poderia fazer show sem ter disco, só cantando os maiores sucessos, the best of. Existe esta coisa conservadora muito forte do público querer reviver momentos da sua juventude. "Ah, ele namorou, casou, ao som desta música". Eles falam muito essas coisas. "Esta música é a trilha sonora da minha vida". Tá bom, acho legal, é bacana, ninguém está querendo renegar o passado. Mas estar ativo, estar criando, é melhor. Quando estou criando, tenho certeza de que estou fazendo melhor do que fazia antes. Agora, isto é uma coisa minha. Porque, senão, não faria uma música nova. E tem aquele que fala o senso comum: "Não, as antigas que eram boas", etc. Você tem de lidar com isso. Não vou brigar. Se ele quer ouvir Carolina (1967) e eu quero cantar As Atrizes (2006). É questão de gosto. Então, tá bom, eu canto uma coisinha para ele e, outra, para mim.

No primeiro volume de seu livro de memórias, o mesmo Bob Dylan se queixa de ter sido estigmatizado como "cantor de protesto", e diz que nunca quis mudar o mundo, ser líder contestador, profeta ou guia de ninguém, e que detestava os jovens que faziam peregrinação até sua casa em busca da palavra do guru. Certa vez, você manifestou o desejo de ser despojado de qualquer imagem anterior. Você ainda sente necessidade de quebrar a sua imagem?
Eu já não sei muito bem qual é essa imagem. É muito tempo, são mais de 40 anos. E durante esse tempo já fui catalogado de várias formas. Acho que, hoje, ninguém me chamaria de cantor de protesto ou de porta-voz disso ou daquilo, como esperavam que eu fosse nos anos 70. Naquela época, eu sentia necessidade de romper um pouco com essa exigência das pessoas, "você precisa falar isto, precisa dizer aquilo, você é o nosso porta-voz", e "eu não quero ser isso, não". Ou ser o cantor maldito.

Ou o escritor maldito.
Escritor? Maldito porque isso são os escritores que acham (risos). Porque os escritores são aquele mundo cheio de ciúme. Parece que alguém chegando na literatura é um intruso. Você se atreve a invadir esse mundo, dos puros, dos escritores. Mas isso não precisa levar muito a sério. Mas, sobre as imagens, elas vão se substituindo, e depois inventam outras. No começo, eu não era o cantor de protesto, era o menino bonitinho. E eu não queria ser o menino bonitinho. Lembro que escrevi a peça Roda Viva (1967) e pessoas ficaram chocadas, "mas como, o bom moço, o bom menino, o marido que as mulheres queriam para suas filhas, o genro". Depois, veio o "cantor de protesto". Depois, ficou sendo "o sogro..." (risos). Virou também uma espécie de coisa como se eu quisesse ser um latin lover, um símbolo sexual, uma coisa assim, que é absurda. Já era absurda aos 50 anos. Agora, estou com 61, vou fazer 62 anos. É ridículo alguém pensar que eu pretenda levar essa história adiante. Então, acontece num show de eu cantar músicas de épocas variadas e que agradam a um, não agradam a outro, dependendo até da faixa etária do público, que é muito ampla. Pelo menos no último show que eu fiz era assim, tinha uma garotada na frente e o pessoal mais velho sentado lá atrás. Você não vai agradar a todo mundo mesmo.

Há também interpretações próprias da sua obra. Por mais que você desminta que o refrão "você não gosta de mim/ mas sua filha gosta" (Jorge Maravilha, 1974) não se referia ao general Ernesto Geisel, pessoas continuam afirmando o contrário.
Outra foi Apesar de Você (1970), que eu teria feito para o Médici. Ficou sendo. Fazer o quê? Deixa que falem.

Aliás, ainda tem gente que pensa que você é parente do Aurélio Buarque de Holanda, do dicionário?
Acho que não, isso acho que já acabou. Quando eu era criança, tinha bastante. Às vezes, ainda falam: "É sobrinho do Aurélio, teu tio?". Eu digo: "Não sou sobrinho".

O fato de ser um dos compositores mais importantes da música brasileira já influiu na sua maneira de produzir? A responsabilidade atrapalha de alguma forma?
Não, porque na hora de produzir você sai do zero. Não sai do trampolim, do pódio. Você não está de salto alto. Você tem de estar descalço. As pessoas imaginam que a gente fique pensando na gente mesmo mais do que é a verdade. Acham que o artista pensa nele o tempo todo, fica se olhando no espelho, se achando o máximo e tal. E você age como uma pessoa normal, porque você se sente como uma pessoa normal. E aí as pessoas dizem: "Tá lá o artista fingindo que é uma pessoa normal". Vira um número de artista. Quando vou escrever, eu não sou nada.

Você acha que a música que você faz, a "canção", está com os dias contados? Se o Chico Buarque estivesse começando hoje, acha que ele vingaria?
É difícil imaginar. Parece aquela coisa do futebol, né? Se o Garrincha aparecesse hoje... Se eu tivesse nascido quarenta anos depois, é possível que eu não fosse músico, não virasse compositor. Isso aconteceu muito por causa do momento que eu vivi. Quando apareceu a bossa nova eu tinha 15 anos. Se eu tivesse 12 ou 18, não teria o mesmo impacto que teve para mim. Eu nasci em 1944. Se tivesse nascido em 1948, não teria compreendido, e não teria me entusiasmado e me deixado levar como me deixei por aquele momento. Então, se fosse um jovem hoje, se tivesse nascido 15 ou 20 anos atrás, é possível que fosse outra coisa, que não me sentisse atraído pela música. Ou, pelo menos, não teria sido atraído pela força com que fui naquele momento. Antes de ouvir Chega de Saudade, eu pensava que seria um escritor. Isso eu pensava com mais força, mais convicção. Eu escrevia nos jornais de escola, cronicazinhas e tal. Queria ser uma espécie de Rubem Braga. E achava que ia ser. Então, a música me sugou naquele momento. Agora, essa história da "canção" é outra conversa. Acho curioso. Porque é um assunto interessante. Um jornalista na Itália me perguntou uma vez, mas acho que já citando alguém, se a música popular não seria um fenômeno restrito ao século 20, assim como a ópera tinha sido do século precedente. Há vários indícios. Também não estou querendo jogar contra mim. Estou fazendo músicas novas e talvez sejam músicas tardias, não sei. Ou eu já seja um sujeito tardio, do século passado. Talvez. Mas é interessante isso. Porque algumas coisas levam a acreditar nisso. É o caso da percussão em detrimento da harmonia e da melodia, do rap, que é um pouco a negação da canção como a gente conhece. Também essa proliferação de revivals, de coletâneas, de best of e tudo mais. Esse anseio do público pelo velho, de querer ouvir aqueles standards. Se isso tudo não seriam sinais de fim de linha da canção como modo de expressão. Talvez seja. Tomara que não seja. Mas aí já interpretaram mal, de uma forma um pouco malévola, como se eu estivesse dizendo que nós fomos das últimas gerações a compor, e agora vocês vão pegar essa sopa, não vai ter música para vocês, não (risos). Mas pode ser que exista uma maneira. O rap já é um pouco isso. Também não sei se o rap vai continuar imperando, e amanhã digam que o rap foi uma moda do começo dos anos 2000, não sei.

Você ouve rap e hip hop?
Eu até ouço às vezes. E até ouvi, por dever de ofício, quando pensei no rap para Ode aos Ratos. Depois desisti de fazer um rap, porque falei: "Não, essa coisa já está um pouco vulgarizada, já está todo mundo fazendo, vejo anúncio na televisão, não vou fazer rap, não". Mas depois fiz essa embolada que é um pouco um rap, um pouco falada. Uma coisa já antiga, nordestina, mas que tem a ver com a divisão do rap, a maneira de falar a música. E a música eletrônica, já dançou ao som de um DJ?
Não sou muito bom de dançar. Aliás, uma vez eu dancei, mas foi num lugar em que não precisava se dançar muito. Não sei o que era. A pessoa que estava comigo reclamou que não era tecno, que era house, ou que era house e não era tecno. Eu não entendia nada daquilo. Isso foi aqui em Paris. Mas as luzes piscavam e você não precisava dançar. Você meio que mexia assim (faz o gesto), e você olhando de fora via uma espécie de uns robôs dançando. Se é assim, então tá bom, você não precisa ser um Fred Astaire para brilhar na pista. Aí entrei, dei meus passos, e tudo bem.

Como foi essa experiência de gravar Roda Viva com a Fernanda Porto, num outro ritmo, mais eletrônico?
É, tem isso. A Fernanda é uma musicista muito boa. Ela é curiosa. O trabalho dela é interessante. E acho interessante retomar coisas como Roda Viva ou coisas normais, coisas anteriores. Não tenho nada contra isso. Não tenho vontade de cantar aquilo como foi, como disse no começo da entrevista, então você pega aquilo e transforma em outras coisas. Eu mesmo transformo, e se pudesse transformar mais, transformava, mexia na letra.

Já passou pela cabeça por vezes trabalhar com outras pessoas para se aventurar em outros caminhos musicais?
Eu tenho impressão de que não faço tudo sempre igual (risos). Nesse disco, são doze músicas, doze canções bem diferentes. Com tratamento orquestral diferente para cada uma. Cada uma é uma história à parte, com exceção de duas músicas que são bem coladas, porque a temática é a mesma. Uma é a continuação da outra. As Atrizes e Ela Faz Cinema. Mas assim mesmo são duas canções diferentes. Uma é um choro-canção, outra é uma bossa nova.

Elas foram escritas no mesmo elã?
Não. Isso foi engraçado. Eu compus As Atrizes porque estava gravando aquela série de dvds, vim gravar aqui em Paris, e surgiu este assunto de Paris na minha vida, da França. E me lembrei daquele momento em que vim a Paris pela primeira vez. Era pequeno, tinha uns oito anos de idade. Morava em Roma com a minha família toda. Eu conheci a cidade, e o maior impacto para mim naquela época foi ver mulheres com peitos de fora. Não digo mulheres inteiramente nuas, mas tinha fotos de mulheres de peitos de fora nas bancas de revista. Nós passeamos à noite pelo Moulin Rouge, perto de Pigalle, naquelas casas noturnas, e nas casas de teatro e nos cabarés havia fotos de mulheres quase totalmente nuas. Eu nunca tinha visto nada parecido, nunca tinha visto peito na minha vida. Na verdade, só os das minhas irmãs, mas isso não contava, elas não tinham peito, eram mais novas do que eu. Não tinha visto peito de mulher, não sabia que era assim. Então, aquele menino ficou deslumbrado com aquela coisa. E logo adiante, tinha aqueles filmes franceses, que eram proibidos para menores de 18 anos, mas que a gente, às vezes com jeitinho, conseguia, com 15, 16 anos, entrar no cinema e ver. Ver Martine Carol e aquelas atrizes francesas, e mais tarde a Brigitte Bardot, nuas. E só existia isso em filme francês. Se não me engano, no Brasil, o primeiro filme com nu frontal foi Os Cafajestes (1962), do Rui Guerra. Então escrevi essa música em cima dessas reminiscências de infância, pré-adolescência e de adolescência, das atrizes nuas que eu via e ficava de boca aberta. E mais adiante, o Roberto Oliveira (amigo de muitos anos e diretor da série de dvds), foi me enrolando e muito delicadamente me levando a fazer mais e mais programas, e quando vi já tinha feito doze. Aí ele fez um programa sobre cinema, e disse: "Você não quer fazer uma música nova sobre cinema?". Eu disse: "Mas eu já fiz, só que você usou no programa da França, mais cinema do que isso é impossível". Mas, depois, eu pensei: "Por que não dá para fazer uma outra?, vou fazer uma continuação". Musicalmente é outra coisa, mas é uma continuação, é o marmanjo já, que termina a outra música dizendo "com tantos filmes na minha mente, é natural que toda atriz, presentemente, represente muito pra mim". Esse é o mote, o estopim para a música seguinte, tanto é que quando termina a música há quase uma sugestão de ligação musical com a faixa seguinte, que é Ela Faz Cinema, que é então já o adulto, vítima de uma mulher que só faz cinema.

Ainda nessa sua relação com a tecnologia, você tem I-Pod?
Não, nem sei direito o que é isso. Eu ouço falar, mas não sou bom disso. Não sei lidar muito bem com informática. Só sei o básico. Mas até hoje não consegui entender como se faz para gravar um cd. Tenho tudo lá em casa, mas aí quando fui fazer as músicas e tive de mandar para o Luiz Cláudio Ramos, que é o arranjador, tentei e não consegui. E aí recorri ao velho gravador cassete. O problema é que o remetente tem o cassete, mas o outro lado também tem de ter. E o Luiz Cláudio, por sorte, ainda tinha um gravador cassete, pois cada vez menos pessoas usam. Nem cassete eu sabia onde comprar direito, tinha um antigo lá. Então foi à moda antiga.

Leia as outras partes da entrevista:
» Abertura da entrevista
» Parte 3
» Parte 4
» Parte 5

 

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