Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Fernando Eichenberg

Terça, 29 de agosto de 2006, 07h58

Chico Buarque em palavras (parte 3)

Entrevista a Fernando Eichenberg

Há pouco tempo, você não se imaginava usando celular e Internet. O celular você usa pouco e de forma pragmática, mas o e-mail e a Internet se tornaram parte de sua vida. Aqui mesmo em Paris e quando viaja, você é freqüentador de cybercafés.
Chico Buarque -Vou para saber notícias lá do Brasil, e sempre tem essa coisa de correspondência. Eu comecei a ter só por necessidade imperiosa, para troca de e-mails com os tradutores, quando começaram as traduções de Budapeste. Quando escrevi o Budapeste, eu usava o computador como uma máquina de escrever, com o Word, mas não tinha Internet. E aí passei a ter para isso, para ter contato imediato. Antigamente, isso era feito por telefone, por fax, era complicado, e isso facilita muito a vida. Mas também você perde um pouco de tempo ali. Antigamente, eu ficava jogando paciência, que era uma espécie de aquecimento dos dedos para você começar a escrever. E, às vezes, só aquecia. "Hoje eu vou escrever meu livro", e aí sentava e ficava aquecendo o dedo. Uma hora, duas, três, quatro horas, e dizia "não, agora vou desligar a paciência" (risos). Aí passava para a folha em branco, olhava, escrevia duas palavras, voltava para a paciência e desligava o computador. Durante todo o tempo em que escrevi meu livro, tinha esse ritual. E agora, em vez da paciência, tem o Google, sei lá, fazer uma pesquisa, ver uma sacanagem.

E o que você acha do sampler no trabalho de criação musical?
Você está achando que vai me pegar, que eu não sei o que é sampler, né? (risos). Mas eu sampleei uma vez, também não sou tão bobo assim, não. Isso foi num disco já antigo. Não foi nem no penúltimo disco, mas no anterior. Tem uma música chamada Uma Palavra (1989). Faz tempo isso. Será que foi esse disco? Não, não foi nesse disco, não. Foi numa música chamada Tempo e Artista (1993), em que eu queria um serrote. Falei: "Luiz Cláudio, aqui nessa canção tem de ter um serrote (faz o ruído do serrote), aquela coisa super aguda". Aí não se encontrava. Tentaram localizar um cara que tocava serrote em São Paulo, mas parece que já tinha morrido. Não tinha um bom instrumentista para tocar o serrote no disco. E a referência que eu tenho do serrote é a introdução de Ne me quitte pas célebre, do Jacques Brel. E aí o que nós fizemos? Sampleamos a introdução de Ne me quitte pas. Nessa você não me pegou, não.

Ao colocar o ponto final em Budapeste aqui em Paris, já no dia seguinte você disse: "E agora? Tenho de arranjar outra coisa para fazer". Você já está se sentindo assim depois de ter finalizado o Carioca ou ainda não deu tempo?
Já está começando, perigosamente. Porque dá um brancão, né? Mas eu vou ter ainda coisas, o show, usar o meu tempo para isso. Não posso ficar parado, senão dá uma sensação desagradável. Eu me lembro que estava aqui em Paris quando cheguei ao final do livro na minha cabeça. Ele estava num ritmo muito lento e sabia que, vindo aqui para Paris, em um mês eu ia adiantar. Porque num mês aqui eu escrevo quase o dobro do que escreveria no Rio. Você fica mais isolado. E lembro o dia em que estava andando à beira do Sena, e tem aquele pessoal que fica dançando ali no verão. Naquele ano, pelo menos, era mágico. São vários anfiteatros, e cada um tem um gênero de música. O pessoal do hip hop aqui, e lá adiante tem o pessoal dançando música brasileira, por exemplo, e você anda mais um pouquinho e tem o pessoal do tango. E tem um meio caminho em que você está ouvindo uma coisa e vendo outra. É muito louco isso, estar ouvindo uma música percussiva, que ficou ali para trás, e vendo o pessoal dançando tango ali adiante. E eu ia passeando por ali com a cabeça noutro lugar, eu estava no livro. Era uma forma de distrair um pouco a vista, mas a cabeça estava trabalhando. E foi um dia assim, andando, que descobri que tinha chegado ao final do livro. Aí eu parei e fiquei olhando o pessoal dançando tango, estava tocando uma coisa do Piazzola. Fiquei olhando aquilo e aí me deu uma alegria e uma tristeza misturada. Lembro que fiquei com os olhos marejados, emocionado com aquelas pessoas dançando tango e, ao mesmo tempo, a cabeça dizendo: "Pô, terminei, terminou meu brinquedo, já sei que meu livro tem um fim". E agora também, o disco estava pronto, só em duas músicas atrasou a mixagem, e aí vim para cá, tem esses quinze dias assim de hiato, tem a masterização e vem aqueles detalhezinhos, a última minuciazinha técnica que eles estão discutindo, e eles me perguntam de lá, porque sou o artista. Mas, na verdade, eu não tenho uma percepção tão fina do detalhe técnico. Se a flauta sobe meio db (decibel) ou não sobe, se a orquestra... são minúcias que eu não alcanço. Então, ouvi isso aqui num cybercafé, com os fones, e "tá bom, tá bom". Mas fiquei curtindo, andando com esse fone. Não é um I-Pod e essas coisas, mas um velho walkman, um fone bom que me mandaram comprar, e saí por aí ouvindo o disco. Esse é um momento bom de você curtir, porque é uma despedida também. Ontem, já acordei um pouquinho de ressaca, "já não vai ser mais tão bom como antes"(risos). Depois, você entrega o disco e ele cai na vida, as pessoas vão ouvir, vão gostar ou não, e vão gostar disso ou daquilo, e você já não está mais vivendo aquilo.

Ler o que escreveu continua sendo para você mais prazeroso do que o ato em si de escrever?
Eu só escrevo para ler. Não gosto de escrever. Gosto de ler. Isso enquanto estava escrevendo o livro. Agora nem sei mais do que trata. E o livro ainda está saindo, agora vai ser editado na Alemanha, mas isso já está tão distante de mim. E eles queriam que eu fosse lá fazer leituras. E acabou que não fui, pois estava gravando o disco. Talvez, agora na Copa, faça alguma coisa. Mas vai tudo ficando distante.

Budapeste, o livro, tem algumas charadas que você não pensou que fossem ser descobertas de cara, como o uso de nomes dos jogadores da seleção húngara de futebol. Uma outra é a fala da dançarina andaluza na televisão, legendada em húngaro (ö az álom elötti talajon táncol), tirada de um poema de Sevilha Andando, do João Cabral de Mello Neto.
É, botei um verso do João Cabral. Nem os brasileiros sabem disso, nem os húngaros. Eu tinha de botar uma bailarina de flamenco dando uma entrevista e pensei: "O que ela vai falar?". Porque eram as primeiras palavras que o personagem lê em húngaro. Ele está vendo televisão e ela está falando espanhol. Ele tira o som e aparece ali a legenda. Ela tinha de dizer alguma coisa. E aí pensei: "Dançarina de flamenco? Ah, João Cabral!". Era uma coisa de "ante-sala do sonho", já não lembro mais, era um daqueles poemas dele que falam das dançarinas andaluzas.

Há outras charadas no livro?
Ah, deve ter. Agora não lembro, assim, na lata. São curtições minhas. Às vezes nem são coisas para ser contadas. São coisas que eu sei que alguma pessoa lendo vai saber, coisas que não interessam a mais ninguém. Isso acontece muito, essas coisas cifradas em livros ou em canções.

E como foi escrever o livro sem nunca ter estado em Budapeste? Qual foi a sensação quando você esteve na cidade pela primeira vez, depois de ter escrito o romance?
É engraçado, porque lendo e vendo mapas fui entrando naquela cidade e parecia que eu já a conhecia. A única coisa que me surpreendeu mesmo foi o cheiro de Budapeste. Como cheira bem aquela cidade. E os jardins bem cuidados, por toda parte tem perfume. Isso não tem no livro. Não tem o aroma da cidade. Mas a atmosfera da cidade mais ou menos bateu com o que eu esperava. E conversando lá com os jornalistas que foram me entrevistar, eles me disseram isso também. Teve um que falou que, lendo o livro, às vezes tinha a impressão de que eu conhecia intimamente a cidade e, outras vezes, tinha a perfeita noção de que nunca tinha estado lá (risos). Porque isso também é proposital. Também não queria dar essa ilusão. Eu poderia dar os nomes reais das ruas, era só consultar o mapa. Isso é o mais fácil. Outras coisas eu errei por culpa da Internet, como marca de cigarro. Eu não sabia que a marca de cigarro que a minha mulher húngara fuma no livro não existe há trinta anos. E o jornal em que ele anuncia nos classificados o trabalho dele aos domingos, não sai aos domingos.

Mas você adorou a cidade.
Adorei, já voltei lá mais de uma vez. E quando batia uma coisa com o que eu tinha escrito, era uma sensação vertiginosa. Aí eu ia pegar o metrô, que peguei milhões de vezes durante o livro, e o metrô tinha a cor que eu tinha falado, as estações tudo em azul, e cheguei ao ponto final que era onde eu descia no livro. Tem muita música também em Budapeste, cheiros e música. Mas música também tem no Rio. E quando desci na estação tinha um grupo tocando, uma valsa meio cigana, aquilo foi muito tocante. E fui lá porque o meu tradutor me disse que a rua que eu tinha inventado existia e ficava ali mesmo perto daquela estação, a trezentos metros. E no último dia, acordei mais cedo e disse: "Vou fazer esse percurso". Eu falo "milhões de vezes" porque peguei aquele metrô na minha imaginação milhões de vezes mesmo no livro. Escrevo e reescrevo e reescrevo. Então fui fazer o percurso e estava tudo lá. E saí ao som da música procurando a rua. Mas a rua não tinha no mapa, porque era um subúrbio. E estava preocupado com o tempo, porque tinha de voltar para o hotel para fechar tudo e pegar o avião. E fiquei dando voltas nos trezentos metros em torno da estação, procurando a rua. E o bairro parecia com o bairro que eu tinha imaginado. E aí via meninos brincando na rua e pensava: "Esse menino pode ser o meu enteado do livro, tem tudo para ser, tem a cara dele". Isso é muito bom.

Qual é a cidade que você mais gosta?
Eu gosto do Rio de Janeiro, cidade onde nasci e moro, mesmo, há 40 anos. Fui com dois anos para São Paulo, estive em Roma, mas com 21 anos voltei para o Rio para fazer um show e fiquei. É a cidade onde sei morar melhor. Cidade não é só gostar, tem de saber morar.

Você já disse que, durante muito tempo, resistiu à idéia de ser carioca.
Eu sempre me senti carioca, o que acho meio chato é esta coisa do bairrismo, de "ah, sou carioca", essas carioquices. Eu não me sinto um carioca da gema, do chope em bar, já fiz isso até muito. Mas essa coisa do cariocão não tem muito a ver comigo. Mas também acho paulistice chata, baianice chata, mineirice chata. Acho bairrismo uma coisa muito chata. Por ter morado em São Paulo, ter amigos em São Paulo, isso faz ter uma ligação forte com a cidade, mas é uma cidade onde não gostaria de morar. Mesmo porque a cidade, hoje, tem muito pouco a ver com a São Paulo da minha infância. Eu era criança e ia para o Rio em todas as férias. Meus pais foram morar em São Paulo, mas o resto da família era do Rio, tanto pela família do meu pai como da minha mãe. Então meus tios, minhas avós, primos, todos moravam no Rio. Em todas as férias ia para lá, era carioca de Copacabana. E além de ter os primos, a praia, quando chegava no Rio tinha sempre a sensação de que estava chegando numa cidade grande, e que quando voltava para São Paulo, estava voltando para uma cidade pequena, uma cidade de província. Veja como são as coisas, o aeroporto de Santos Dumont era um aeroporto grande, que recebia vôos internacionais. E quando não descia no aeroporto, na maioria das vezes eu ia de ônibus, geralmente um tio ia me buscar ali na Praça Mauá, e eu vinha pela beira-mar, e vendo aqueles prédios todos, aqueles anúncios luminosos no Rio. Era uma coisa assim de estar chegando à capital, à metrópole. Em São Paulo, eu morava em casa, meus amigos todos moravam em casas, prédios altos eram só no centro da cidade. Era uma cidade menor, e tinha esta coisa de cidade quase de interior. A rua onde eu morava - que hoje é uma rua muito chique, cheia de lojas de grifes, que era a Taiarana e virou a Vitório Fasano -, era uma rua de terra, a gente jogava futebol ali. Então, a minha lembrança de São Paulo é essa. E mesmo mais tarde, a faculdade ficava em Higienópolis, os bares ali e tal. E, hoje, vou para São Paulo e não conheço mais a cidade. Não sei andar em São Paulo. Se me derem um carro, não vou saber sair dirigindo.

É uma cidade que, hoje, você não aprecia?
Eu tenho laços afetivos com São Paulo, e amigos lá. Mas a cidade é um desastre. Era uma cidade amável nos anos 50. Se podia gostar de São Paulo. Hoje em dia acho impossível alguém gostar. Eu estou falando da cidade, da arquitetura, do urbanismo. Se vai falar da vida noturna, cultural, restaurantes, é muito bom. São os melhores restaurantes, os melhores hotéis, os melhores médicos, os melhores tudo. Mas a cidade é detestável. É um desastre, é a cidade que não deu certo. Lá no Rio, às vezes dá no noticiário "temporal em São Paulo", e aí vêm aquelas imagens da Marginal. Não se pode viver assim, engarrafado.

Você costumava sonhar com cidades imaginárias. Ainda acontece?
Não sei se sonho. Eu penso em cidades para dormir. Fico imaginando essas coisas, porque para pegar no sono tem de ficar inventando histórias, senão você não dorme. Sempre tenho de inventar histórias antes de dormir, e tem de ser coisas irreais. O único passo para você entrar no sono que eu conheço, a não ser que seja um remédio, um sonífero, é a imaginação. Você cria um mundo lá e vai para aquele mundo. Tem uma hora em que você percebe que está pegando no sono e esse mundo começa a ficar meio solto, frouxo. Às vezes a gente já está dormindo, meio que acorda e fala: "Oba, já estou entrando no sono". E um desses pensamentos bons ou úteis, soporíferos, é a invenção de cidades. Aí chego na cidade, tem o aeroporto, a avenida. E também desenhava cidades. Era algo que gostava muito de fazer, mas não tenho tido muito tempo, mas qualquer hora posso voltar à ativa.

Você também imagina lances de futebol.
Às vezes sim, imagino um jogo de futebol, imagino jogadores, dou nomes. São os artifícios naturais para se pegar no sono. Se não der, tem Dormonid.

Você lembra de seus sonhos, chega a analisá-los?
Tenho uns sonhos de música que são engraçados. Descobri que eu não sou compositor nos meus sonhos, nunca compus. Eu componho músicas dos outros. Ainda não parei para analisar porque componho músicas dos outros. Mas aconteceu uma série de vezes. Compus a música do meu bisavô, uma música inteira que existe, "maré, maré" (canta). Compus a música do Sérgio Ricardo. Mas acordava com a música inteira, era o Samba da Biblioteca. E uma vez compus uma música do Zeca Pagodinho. E o mecanismo do sonho é formidável. Eu estava no palco, acho que no Canecão - e isso é clássico do sonho, você está lá no palco e na hora não sabe o que vai cantar, muita gente conta que está em algum lugar e não sabe o que vai fazer -, e por algum motivo ia cantar uma música do Zeca Pagodinho. E eu dizia "droga, não estudei essa música, não sei nada, a música, a letra". E aí o conjunto começou a tocar e eu falei: "Como vou cantar essa música agora?". Aí tinha um grupo de apoio, backing vocal, atrás de mim, que começou a cantar. E eu peguei a manha de ir ouvindo eles e cantando junto. Era uma coisa chamada Samba de Roda. Eu acordei com esse Samba de Roda inteiro composto na minha cabeça. O diabo é que você acha sempre que vai lembrar e se esquece. Guarda umas coisinhas. De Maré guardei um pedaço da melodia, da letra também, da música do Sérgio Ricardo também, mas dessa do Zeca Pagodinho eu perdi quase tudo. E aquele pânico, "como vou cantar essa música do Zeca Pagodinho, ninguém me ensinou, o que estou fazendo aqui no palco". E tinha lá atrás o pessoal cantando "vai o samba de roda..." (canta). Eu ia um pouquinho atrasado. E a platéia do sonho aplaudiu e tudo, não percebeu que eu estava enrolando. É engraçado isso. Eu podia compor uma música minha mesmo, e acordar e pá, o serviço já estava pronto (risos). Seria mais fácil a vida, você dormir bastante, tendo sonhos musicais, acordava e ia direto para o estúdio gravar.

E você tem pesadelos?
Tenho (silêncio). Têm uns sonhos assim que voltam. Tinha um que era muito bom, que faz tempo que não tenho, que era de voar. Faz alguns anos, sonhei de novo que eu voava, e era tão bom, acordei tão feliz, "eu ainda sei voar". E era uma coisa assim que você voa, mas não como o Super-homem ou o Capitão Marvel. Meu ídolo de infância era o Capitão Marvel. Minha primeira mulher, antes das francesas mostrarem os peitos, era a Mary Marvel com uma sainha curta que voava assim. Mas eu não voava que nem eles, não. No sonho, era como se eu pulasse, como se não existisse lei da gravidade. Era como se a minha gravidade fosse menor, então eu podia abrir esta janela e dar um pulo até aquele telhado ali, e se eu pousasse no chão, pegasse um impulso, voava cada vez mais. Então, não é voar, é flutuar. E bem alto, de ir até as nuvens e voltar. Era delicioso esse sonho. Eu tinha direto. E depois parei de sonhar isso, "que droga, aconteceu alguma coisa na minha vida que perdi o caminho desse sonho".

Leia as outras partes da entrevista:
» Abertura da entrevista
» Parte 2
» Parte 4
» Parte 5

 

Exibir mapa ampliado

O que Fernando Eichenberg vê na Web

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol