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Terça, 29 de agosto de 2006, 07h58

Chico Buarque em palavras (parte 4)

Entrevista a Fernando Eichenberg

O que você guarda de sua experiência na faculdade de arquitetura, na FAU? Você desistiu depois de 1964, quando o clima ficou chato.
Chico Buarque -O clima ficou muito chato mesmo. Não falo que larguei a faculdade por causa do golpe de 64, porque seria mentira. Cursei um ano de arquitetura em 63. No segundo, em 64, claro que a faculdade ficou chata, fecharam o grêmio, tudo ficou mais chato. Mas eu também já estava começando a fazer música. E ainda passei para o terceiro ano com algumas dependências. Em 1965, fiz um pouquinho e larguei, para fazer música. Comecei a fazer os primeiros shows. Fui fazer Morte e Vida Severina, gravei o primeiro disco. Quando me chamaram para fazer Morte e Vida Severina, eu ainda era estudante da FAU.

Você acha que poderia ter sido um bom arquiteto?
Não, não seria um bom arquiteto. Às vezes fazia um trabalho de estagiário em escritório de arquitetura, meus colegas faziam plantas e copiavam não sei o que, e eu não sabia manejar aquilo, borrava tudo com nanquim, ficava uma porcaria. E eu não tinha gosto pela coisa técnica da arquitetura. Na verdade, não tinha talento para isso. Fui para arquitetura por exclusão, não sabia para onde ir. Pensava: "Vou ser escritor". Mas não adianta estudar Letras, tinha de ter uma profissão. Nenhum escritor vivia de ser escritor. Meu pai era professor. Os outros escritores tinham alguma outra profissão, a exceção clássica era o Jorge Amado. Talvez, Erico Verissimo. Mas os escritores eram outras coisas, e eu tinha de ser uma outra coisa. Eu não ia ser advogado, nem médico, nem engenheiro, administração de empresas, e fui para arquitetura, que tinha alguma coisa a ver com arte. E naquela época tinha aquela empolgação, arquitetura era concorrida, muita gente moça queria ser arquiteto por causa de Brasília, de Oscar Niemeyer. E a escola era muito boa, os professores eram o Paulo Mendes da Rocha, o (Vilanova) Artigas, e o meio universitário era estimulante. Foram bons anos ali. Mas não por causa da arquitetura. Eu estudava em colégio de padre, e foi a primeira vez em que estudei em colégio público. Com 18 para 19 anos fui estudar em escola pública. Não sabia o que era isso. Sempre estudei em colégio de padres. Quando fui para Roma, era colégio de padres. Fiquei seis meses interno, num colégio particular, lá em Guatacazes. E, de repente, era aquilo, um outro mundo para mim. Aí comecei a participar um pouquinho de política estudantil, etc. Pouco. Nunca fui apaixonado por isso.

Você teve uma educação católica bem rigorosa, primeira comunhão, crisma, colégio de padre e...
...era no tempo em que a missa era em latim, e eu fui coroinha no colégio. Tinha a sacristia, e a gente roubava hóstia - não consagrada, que é pecado mortal -, e às vezes um gole de vinho. Mas é bom, por isso que eu posso te mandar e-mails em latim. E você responde "va bene" (risos). Porque além de estudar latim, eu sabia ajudar missa, sabia tudo.

No que resultou isso? Hoje você tem alguma fé, acredita em alguma coisa?
Não, nada. Sete anos em colégio de padre foi bom para não gostar muito de igreja. Eu não gosto nada, sempre achei meio esquisito. As minhas lembranças de igreja, hoje, são sempre muito sombrias. Um dia, em Roma, minha mãe conseguiu uma audiência - não particular, claro, mas uma audiência restrita, pública, com umas cem pessoas -, para ver o papa. Quando apareceu aquele papa, o Pio XII, fiquei com um medo daquele homem, daquele velho. Fiquei apavorado. A única coisa que me relaxou ali foi a minha irmã, porque a gente ficou numa sala, e aquele cheiro de incenso que me enjoa, e esperando, esperando, e em pé. E a minha mãe, que é católica - meu pai, claro que não estava ali -, levou os sete filhos para ver o papa de perto. Aí, depois de sei lá quanto tempo - para mim foi uma eternidade -, apareceu o papa numa... - não sei como chama esta cadeira, eu sabia o nome disso, tem um nome em latim, depois eu vejo (cadeira gestatória). E ele passando carregado pelos soldados da guarda suíça. Ele com aquela batina branca, sendo carregado, cheio de almofadas brancas, e aí minha irmã mais nova falou alto: "A papa é folgada, não é?" (risos). Enfim, eu me afastei completamente da igreja. Já perdi a fé lá na escola de padre.

Você diz, mesmo assim, ter tido uma experiência positiva, no trabalho com a Organização de Auxílio Fraterno.
Isso era bacana. Eram padres progressistas. Eu tenho conhecidos, amigos padres da igreja progressista. Mas sempre achei meio esquisito. Não acredito muito que eles acreditem naquela coisa da igreja, essa história toda, nos dogmas da igreja. Mas o padre André, um padre canadense, levava a gente - eram filhinhos de papai que estudavam naquela escola - para dar cobertor e sopa para mendigos ali na Estação da Luz. Lembro de chegar lá e os mendigos ficarem assustados. A gente ia chegando como se fosse se aproximando de índios. E vivia coisas que possivelmente não veria. Esse padre André era legal. Lembro que quando chegou lá, só falava francês, e a gente achava legal porque ele jogava vôlei junto com os alunos. Eu comecei a ensinar português para ele. Tinha a manchete no vôlei, e eu dizia: "Ô, a punheta, padre, bonita a punheta" (risos). Eu ensinei português para o padre e ele me ensinou a ver os mendigos na Estação da Luz. Mas, hoje, não tenho religião nenhuma, não gosto de religião.

No filme Vinicius, você fala do tempo em que as casas eram mais abertas ao convívio, da passionalidade nas relações. Você sente saudades desses tempos?
Não sinto falta, porque não sinto nostalgias. Não só havia casas mais abertas, como havia os bares também. Na verdade, havia mais bares do que casas. A gente se encontrava nos bares, ficava no Antonio's, depois no Luna Bar. Vinicius, Tom, a gente ficava horas. Horas. Não sei como é que eu podia fazer outra coisa. Lembro de uma vez, a gente bateu o recorde, 13 horas sentados numa mesa do Antonio's. Chegamos ao meio-dia e pouco e saímos às 3h da manhã. Acabou, passou esse tempo. Eu sinto falta das pessoas. Mas não dá para recuperar isso.

Como é sua relação com a política hoje? Você já disse experimentar um certo fastio da política porque qualquer coisa que diga parece que já se ouviu dizendo? É a política que não muda, você, os dois?
Não vejo grandes novidades na política. Nem vejo muito espaço para grandes mudanças, sinceramente. Já não alimentava grandes ilusões de grandes mudanças com o governo Lula. Achava bonito isso, dele ser eleito. Bom para o país um operário ser eleito e chegar à Presidência da República. Mas também não achava que ia ter transformações profundas na sociedade. É difícil. E agora ficou provado que é mais difícil até do que imaginava.

Com as crises do mensalão e as CPIs sobre corrupção, a queda do ministro Antonio Palocci no caso da quebra ilegal de sigilo bancário, as eleições que se aproximam, como você vê esse momento do Brasil e do governo Lula em particular?
Não vejo com nenhuma satisfação especial. Não é um assunto que me entusiasma, não. Mas, enfim, fazer o quê? Podemos falar disso também. Até porque as pessoas estão muito exaltadas. Eu não sei por que as pessoas estão tão exaltadas assim. A argumentação política cedeu lugar à ofensas pessoais. E parece que isso vai se agravar nestes meses que vêm por aí. Não há muito argumento. Porque, no fundo no fundo, honestamente, não vejo como um próximo governo, com quem quer que seja eleito, possa ser muito diferente desse governo Lula. Como o governo Lula não foi muito diferente dos governos que o antecederam. As notícias de corrupção, mensalão, estão na ordem do dia porque são mais recentes, mas elas também repetem práticas similares de governos anteriores. Todo mundo sabe disso. Claro que o governo do Lula é mais vulnerável hoje porque é a vidraça, porque o próprio PT ajuda a jogar pedra na sua vidraça, ao contrário dos partidos mais conservadores, que por mais que se debatam lá dentro não saem atirando uns nos outros. Parecem que estão indignados. Eu fico vendo esse pessoal do PSDB e do PFL indignados na televisão, o sujeito vai ficando roxo. Peraí, vamos falar sério, né, vocês não podem estar tão indignados, surpresos com o nível de corrupção, que não é maior do que foi no governo anterior. A compra de votos do governo não é muito diferente do que aconteceu no governo anterior. Todo mundo sabe como foi conseguida essa malfadada reeleição presidencial, que é nociva, na Constituição. Todo mundo sabe o que aconteceu, as falcatruas, a tentativas bem-sucedidas de abafar CPIs. Então fica reduzido a quê? O sujeito gosta deste ou gosta daquele. Ou tem simpatia ou alguma vantagem pessoal a levar com governo tal. Eu não tenho isso, não quero proximidade nenhuma com poder nenhum. Mas eu fico um pouco espantado com o grau de agressividade das pessoas. Eu conheci o grau de agressividade do PT, por exemplo, que eu sei como é. Eu já falava isso, tem muito chato nesse PT. Ficam enchendo o saco da gente, enchendo o saco dos artistas, cobrando isto e aquilo, uma chatice. Isso acho até que vai acabar um pouco, porque acabou a idéia de que o PT é um partido superior aos outros como um partido ético. Como o PSDB já foi quando rompeu com o PMDB e depois se misturou com todo mundo, com o PFL, não pode também falar grande coisa. Agora, também não vejo porque neste clima que se instalou no país as pessoas se sentem no direito de ofender o Lula, de chamar o Lula de imbecil, de ignorante. É um concurso de quem xinga mais o presidente ou dizer que vai dar um soco, vai agredir fisicamente. As pessoas não gostam que se diga, mas isso evidentemente trai um preconceito de classe muito forte. São pessoas que não admitem, até hoje não engolem, o fato de o Lula ter sido eleito, ter ocupado o Palácio da Alvorada, ele com a dona Marisa. Então, se na próxima eleição os candidatos forem o Lula, o Alckmim, talvez Garotinho e uma dissidência à esquerda, eu voto no Lula até por isso. Não posso dizer que estou satisfeito com o governo dele, mas não vejo vantagem nenhuma no governo voltar às mãos do PSDB e do PFL. E já que vamos ter uma reeleição, o que é um absurdo, se o Lula for reeleito, acredito que ele, ao contrário do Fernando Henrique, possa fazer um segundo mandato melhor do que o primeiro. Até porque estará livre de uma porção de malas e de gente que atrapalhou. Ele vai ter de governar mais, de estar mais atento, mais presente. Vai ter de escolher as pessoas para governar. Mas não gosto da idéia dele sair escorraçado, pela porta dos fundos, as pessoas xingando, quando não faziam isso com o Fernando Henrique, nem com o Collor e o Sarney. Não sei por que as pessoas acham que têm o direito de enxovalhar. Qualquer um vai pro jornal: "E o Lula?", "é um merda", "é um bosta". Acho que isso é um bom motivo para votar no Lula.

Nas suas caminhadas por Paris, você aprecia passar pela frente do prédio em que a escultora Camille Claudel viveu, entre 1889 e 1913, na Ile de Saint-Louis, para ler a frase gravada numa placa, escrita por ela numa carta para Auguste Rodin: "Il a toujours quelque chose de absent qui me tourmente" (Há sempre algo de ausente que me atormenta). Você se sente um pouco assim?
Ah, sim. Sinto exatamente o que é isso. Eu sei muito bem ao que ela está se referindo. Ela estava meio maluca quando escreveu isso, mas, assim mesmo, eu sei o que é.

Leia as outras partes da entrevista:
» Abertura da entrevista
» Parte 2
» Parte 3
» Parte 5

 

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