Terra Magazine

 

Terça, 29 de agosto de 2006, 08h00

Chico Buarque em palavras (parte 5)

Entrevista a Fernando Eichenberg

Como foi sua relação com a análise?
Chico Buarque - Fiz três vezes e larguei as três. Não me dei bem com a psicanálise. Mas tentei três vezes. Uma, acho que era junguiana, outra freudiana, nem lembro mais. Não gostei, não me dei bem. Antidepressivo nunca tomei. Remédio é só para dormir, em último caso. Evito me viciar nessas coisas. Então, tomo às vezes, quando precisa, o Dormonid. Mas se puder não tomo nenhum e tomo vinho. Com um vinho e mais uns placebos, umas besteirinhas, e mais umas idéias na cabeça eu consigo dormir. Mas é difícil. O sono é brabo. Isso me lembra do meu pai, insônia, é muito dele. E tomando remédio. Eu prefiro evitar ficar dependente. E ficar dependente de uma coisa só. Eu fico dependente de várias. Com várias, eu mudo de dependência (risos). Porque a seco não dá para dormir, simplesmente não dá, você deita e não consegue. Não sei como se faz para dormir.

Você já teve depressão?
Depressão, depressão, não. Eu sei o que é depressão. Já vi pessoas com depressão. Mas não tive, apesar de uma revista de São Paulo ter insinuado isso. Gente ligada a coisas da indústria farmacêutica diz que essas revistas, na opinião delas, estão fazendo jabá, estão vendendo matéria, e na verdade fazem publicidade de remédio. Uma vez fizeram isso, aí deram exemplo de pessoas com depressão, e era eu a pessoa com depressão. Nunca tive. Depressão é uma doença séria. Talvez não seja a pessoa mais feliz do mundo, sei o que é angústia, mas não sou uma pessoa deprimida e nem dada a depressão. Angústia criativa eu sei o que é. Nas três vezes em que entrei para a psicanálise foi um pouco por isso, assombrado por um período de infertilidade criativa, não conseguia fazer nada, aquilo foi me angustiando, e aí entrava na análise. Por algum motivo, alguma hora eu começava a fazer música, mas não acredito que isso se devia à análise. Mas aí, quando eu começava a fazer uma música ou algo assim, eu me dava alta, "já estou bom". E agora lido melhor com isso. A experiência ajuda, você se diz "paciência, isso é normal", você passa por períodos mais brilhantes e outros mais opacos.

Durante algum momento de sua vida, já passou pela sua cabeça a idéia de se matar?
Não, nunca. Gosto muito da vida, não quero morrer, não. Com tudo o que há, eu quero viver, viver bastante. E viver bem. No futebol eu já anunciei que iria pendurar as chuteiras em 2022. Anunciei no campo. Até vai ter uma festa, o pessoal quer fazer um churrasco. Mas isso já faz alguns anos, e agora estou achando que 2022 é cedo, vou estar com 78 anos. Estou com vontade de adiar um pouco (risos). Você podendo fazer algumas coisas boas até mais adiante, dá para viver.

Em Nova York, uma vez você fez sessões para tentar atingir o estágio Alfa, quando o cérebro se encontra num ritmo mais lento, mas com mais energia, e a capacidade de raciocínio, a percepção, a memória e todas as funções são maiores.
Fiz duas tentativas de entrar em Alfa, mas não deu certo. Isso foi coisa da minha irmã, Miúcha, só podia ser ela. Uma experiência maravilhosa, entrar em Alfa, mas eu não consegui.

O seu pai não tinha muita ligação com crianças - era o jeito dele, como você mesmo já disse uma vez, e vocês foram criar uma cumplicidade maior mais tarde -, mas você é o contrário. Você curte muito seus netos.
Acho que é uma coisa de geração. Não era meu pai, eram os pais. Não existia muito uma idéia de pedagogia difundida. Era aquela coisa, ainda mais na minha família, sete filhos, a gente ia se criando meio sozinhos. Tinha babá, tinha a mãe, que cuidava da coisa prática, mas não havia uma afetividade maior. Uma demonstração de afeto maior. Criança era feito para crescer. "Cresçam e aparecem", aquela coisa. Children should be seen and not heard. Não podia abrir a boca, só fala bobagem, cresce, cresce. Aí você cresce, e depois você cria os filhos, e vê nascer os netos, e aí começa a tomar esporro dos filhos e dos netos. É uma geração sanduíche, porque aprendeu que tem de tratar os filhos muito bem, não pode botar de castigo, não pode bater nos filhos, fica paparicando os filhos e tome esporro. E agora são os netos que batem em mim. Regularmente eu tomo surra dos meus netos (risos). Eles acham que sou bom de apanhar, bom de bater.

Entra as coisas que você sente falta de seu pai, é quando termina um livro, pois ele seria a primeira pessoa a quem daria para ler.
Quando comecei a escrever, as primeiras coisinhas, os contos, era para ele que eu mostrava. Ele até aprovou e encaminhou ao Estado de São Paulo um conto. Ele foi complacente no julgamento dele, mas acho, talvez tendo em vista que eu era garoto de 17 anos, mandou para o suplemento literário. Ele conhecia o Décio de Almeida Prado (diretor do Suplemento Literário, do Estadão, de 1956 a 1967). Foi um certo nepotismo, favorecimento, mas bem-intencionado, acho. Porque ele era um crítico severo. Ele lia com atenção. Eu ficava com medo e saía de perto enquanto ele estava lendo, e depois ele me chamava e fazia observações, me indicava leituras. Ele gostaria de me ver escritor. Se bem que ele não tinha esse problema em relação à música popular, que muita gente diz que não tem, mas tem. Ele achava ótimo música popular. Não achava que eu estava galgando um degrau na hierarquia das artes escrevendo romances. Mas ele gostaria de me ver escrevendo e publicando livros, traduzidos em toda parte. Hoje, eu poderia brincar com ele. Lembro quando apareceu Raízes do Brasil em japonês lá em casa, e ele mostrava. Hoje, eu mostraria para ele o exemplar que recebi outro dia de Budapeste em hebraico, que você lê de trás para diante.

Quem são, hoje, as primeiras pessoas para quem você mostra o livro pronto?
Pode ter uma pessoa, um interlocutor de maior intimidade, a quem eu recorra. Que não seria necessariamente uma pessoa com discernimento crítico. Mas no sentido de que a história fosse compreensível, que eu não estaria viajando demais. Eu já tenho esta tendência a me soltar um pouquinho, e nesse terceiro livro, o Budapeste, eu tive essa preocupação. Nos livros anteriores, algumas coisas que eu tinha pudor de explicitar e que achava que estavam claras, de repente não estavam claras. Estavam meio vagas, meio soltas. Então quis que a narrativa fosse clara. No Estorvo, por exemplo, foi diferente, foi minha estréia, não contando o começo todo, Fazenda Modelo. E aí mostrei alguma coisa ao Luiz Schwarcz e ao Zé Rubem Fonseca. O Zé Rubem deu uns três palpites no livro, coisas que eu até acatei. E depois, mesmo o título, quando liguei para o Luiz Schwarcz e disse "tenho o título do livro, Estorvo", e foi aquele silêncio (risos). É que havia uma noção, uma idéia de que um livro não podia ter um título negativo. Então, houve uma certa resistência no começo. Depois falei com o Zé Rubem, e ele aprovou.

Você curte o lado família?
Eu me dou bem muito bem com as minhas filhas, e gosto de crianças, de netos. É aquela corujice normal. Nem sou muito curtidor de bebê, mas é quando começa a falar e fazer comentários, a definir a personalidade, isso é muito interessante. Tudo tão diferente um do outro. Mesmo as filhas, criadas iguais, mas com aquelas características assim e assado. Aí vêm os netos, que têm outras coisas, um tão diferente do outro. Gosto disso. Fico provocando para saber como cada um vai reagir.

Como você vê a juventude de hoje com essa maneira de lidar com relacionamentos? Você acha que falta romantismo? O beijo e o sexo ficaram fáceis demais, perderam o valor da conquista, como você já disse uma vez?
Isso já existia. No pós-pílula, anos 60, já era assim. Eu não peguei isso na minha formação sexual, e é uma pena, gostaria muito de estar me formando sexualmente agora (risos). Naquela época, as primeiras experiências sexuais já eram mais tardias do que hoje, porque você tinha menos informação. Hoje, um garoto de 10 anos está sabendo o que um garoto de 15 daquela época não sabia. E a formação sexual se dava com prostitutas ou com empregadas domésticas, que faziam um pouco de prostituição também. No meu caso foi isso, minha primeira mulher foi uma empregada que dava... ela não dava, cobrava, baratinho até. Era a empregada de um amigo da turma, que tinha essas liberalidades. A gente sabia, e tinha aquela fila (risos). E depois, prostitutas e tal. Namoro não chegava às vias de fato. Eu tive várias namoradas com que rolava uma forma qualquer de sexo, mas incompleto. Já depois, nos anos 60, eu já com 20 anos, aí começou uma certa liberação. Também aos 21 eu já era um artista, era conhecido, e isso facilitava um pouco a vida. Se eu fosse estudante de arquitetura, não sei se teria as mesmas facilidades. Então, que bom que a questão é mais aberta, menos traumática, menos hipócrita. O que me preocupa é que, às vezes, parece que há um certo enfado, que não existe mais a vibração que existia pela própria facilidade com que as coisas são obtidas. Pode ser. Mas pode ser impressão minha.

Você acha que o casamento é a melhor forma de relacionamento a dois?
Pode ser, perfeitamente. Para muita gente é. Conheço vários casamentos que deram muito certo, que resistem ao tempo e resistem bem, e quando resistem é porque é bom. Não existe mais aquela coisa de 40, 50 atrás, do estigma da mulher separada. Não existia divórcio. Mulher desquitada era quase como dizer "puta". Então, os casamentos iam até o fim, até que a morte os separasse os casais iam ficando juntos por falta de alternativa, de opção. Hoje em dia não, quando um casal permanece unido, geralmente é porque escolhe. Então é bom. Acho ótimo. No meu caso, vivi casado trinta anos e estou há dez anos só. Não me sinto só, não sinto solidão. Mas também não sei se é um caso especial, porque eu trabalho sozinho. Eu gosto de trabalhar. Então, posso gostar de estar acompanhado, mas gosto de, certamente, estar sozinho também. Têm momentos em que quero estar sozinho.

Você já foi cantado por homens?
Já fui cantado por homens. Não foi adiante (risos). Eu achei graça até. Era garoto, recebi uma proposta mirabolante. Achei engraçado. Quando eu era garoto, talvez achassem que eu pudesse ser veado. Hoje em dia, homem nenhum mais me canta. Pensando bem, já faz muito tempo que não tem um homem que me faz uma cantada. Mas quando eu era novinho acontecia. Eu era um menino atraente, acho que pensavam que eu era veado. Mas nunca fui veado, não.

Na questão das drogas, você é a favor da legalização?
Sou. Sou cada vez mais. Você vê no Brasil, nos países pobres principalmente, a quantidade de vítimas que o tráfico de droga faz é muito maior do que a das vítimas das próprias drogas. No Brasil, no Rio de Janeiro, moleques de 9, 10 anos já estão cheirando cocaína, porque estão trabalhando com isso. Eles manejam, vendem cocaína. A cocaína é muito barata no Rio, e olha que o Brasil não é produtor, mas é entreposto. Dali vem para a Europa, e quando chega aqui já não cai na mão da garotada, o esquema é profissional. Lá, não é. Então, envolve às vezes uma quantidade muito grande de crianças, adolescentes, acaba com a vida dessa gente, morre gente pra burro. Fora a violência toda que o próprio tráfico vai desencadeando. Então, é claro que você não pode pensar em liberar abertamente o consumo de drogas se não tiver um interesse internacional. Senão, cria-se um problema. Você pode ir a Amsterdã e fumar sua bagana e tal, mas não pode sair de lá com o negócio. Se se produzisse legalmente cigarros de maconha, se fosse vendido nas tabacarias, como, aliás, digo numa música, no Brasil, não vejo que o dano... quer dizer, haveria um problema de saúde pública, como traz o cigarro, como trazem as drogas farmacêuticas, o consumo de álcool, claro. Há pessoas que entram na viagem e podem virar maconheiros, se tornar inúteis, mas podem se tornar meros consumidores de maconha e ter uma vida completamente normal. Não há comparação com a quantidade de vítimas que o tráfico traz. E mesmo a cocaína. Cocaína é barra pesada, eu não recomendo a ninguém. Antigamente se vendia cocaína em farmácia. Descriminalizar ou comercializar de alguma forma que se tivesse assistência médica, com licença ou isto e aquilo, não sei como se chega a isso. Certamente, há alguma maneira melhor do que permitir que se trafique, porque isso é permitido, todo mundo sabe que há um conluio da polícia, e um tráfico aberto faz um número de vítimas muito maior.

Como você convive com a tietagem, o assédio de pessoas na rua, chega a te incomodar?
Não tem muito isso no Rio de Janeiro, não. Eu saio por lá, ando a pé pelo Leblon. Perto de casa é bom porque tudo ali é perto. No dentista eu vou a pé. Aliás, já escolho o médico dependendo do local. "Onde é o consultório? No Leblon? Grande médico. Grande dentista. Grande oftalmologista". Todo mundo é cansado de me ver andar por ali. E ando na praia, na calçada. Na época de férias, tem um pouco mais de gente que interrompe você para tirar foto, pedir autógrafo. Às vezes isso é chato, porque quando você está andando tem de manter um certo ritmo. Seja porque quer fazer um exercício para ficar em forma, para jogar futebol. Eu não jogo futebol para ficar em forma, eu fico em forma para jogar futebol. Então, tenho de fazer minha caminhada. E, às vezes, ando sozinho, porque aquilo é bom para o trabalho, você tem idéias. Então, alguém que te interrompa não é bom. Não é bom para o trabalho e nem para o exercício. E quando estou no pensamento e alguém me interrompe, eu digo "desculpe, não posso parar", mas não posso dizer que estou trabalhando, porque aí ninguém vai acreditar. Você entra num escritório e alguém está trabalhando, você vai respeitar. Mas um artista que anda na rua trabalhando ninguém respeita (risos). Então, digo que estou me exercitando, que meu personal trainer está vindo lá atrás e não me deixa parar.

E o assédio dos paparazzis, te irrita? O que você acha da imprensa de celebridades?
Essa coisa é uma chatice. Isso virou uma doença. Falar o quê? É que a essa altura do campeonato também já ando ali e os paparazzi já baixam a câmera, porque eles já não têm mais interesse. "Lá vem ele, e nem mudou de bermuda" (risos). Eu tenho três bermudas, uma preta, uma vermelha e uma azul. "Lá vem o Chico Buarque de novo com aquela bermuda". Nem isso tem de novo. Uma vez fui a dois acontecimentos "paparaciáveis", um foi o lançamento do filme sobre meu pai e, um outro, na semana seguinte. E, coincidentemente, fui nos dois de camisas amarelas. "De novo o Chico Buarque com aquela camisa amarela, será que ele não tem uma de outra cor?". Tem de pensar nisso também, qual a roupa que você vai usar para a estréia de um show. Dependendo do show, se for no Canecão, vai ter um fotógrafo ali, então tem de ver se sua roupa está boa, se você já usou aquela roupa uma outra vez (risos). Ou então arruma o estilista da mulher do Alckmin que me dê 400 ternos, pra me vestir e me apresentar diferente em cada acontecimento desses. Eu não tenho estilista. Eu entro numa loja e já fico aflito pra sair. Compro uma camisa e já peço logo seis do mesmo tamanho, aí não precisa experimentar tudo. E eu tenho várias camisas amarelas, mas são todas limpinhas, eu não saio com a roupa usada, não.

A crítica da imprensa já te incomodou no passado, ao ponto de afetar sua produção. Como você lida com isso hoje?
Isso teve mesmo. Nos anos 80 foi barra pesada. Você cansa, né? Tomando muita porrada, você vai perdendo a vontade de se expor a mais porrada. Eu tinha de ler o Jornal do Brasil, que na época era o jornal mais importante do Rio, com capacete. Eu vestia o capacete e lia, porque tinha porrada em tudo que era seção daquele jornal. Até a seção de gastronomia dava porrada. A Folha de São Paulo, numa época, também era uma coisa barra pesada, era difícil. A Folha de São Paulo me esculhambava e me entrevistava. Aí eu dava entrevista, e a entrevista não saía. Saía só a crítica descendo o pau. Aí me procuravam depois para outra entrevista, e eu dizia "não, não vou dar entrevista, porque não publicaram a entrevista", e aí diziam que eu não falava com a Folha porque o jornal tinha falado mal do meu disco. Não era porque não falaram mal do disco, mas porque não publicaram a entrevista! Isso durante uns dez anos foi muito chato. Principalmente com uma certa imprensa paulista muito, muito agressiva. Depois, melhorou um pouco. Hoje, não sei. Às vezes tenho esta intuição de que algo está se armando (risos), que estão ali atrás na esquina espiando, "ele vai passar agora", prontos para dar porrada. Mas as porradas também, com o tempo, vão doendo menos, você vai ficando um pouco mais calejado.

Você já se queixou do sistema de jabás na execução de músicas nas rádios brasileiras. Muito tempo depois de Construção (1971), você soube que sua gravadora, por considerar que a música era difícil, pesada e longa para a época, pagou jabá para que fosse tocada nas rádios. Tem também a questão dos direitos autorais, a inoperância da Ordem dos Músicos do Brasil. Como você vê esses problemas todos hoje?
Muita coisa melhorou. E aí, vou dizer, a minha geração trabalhou por isso, porque a gente herdou uma herança maldita dos nossos queridos antecessores. A coisa do direito autoral no Brasil começou a funcionar a partir de reuniões que tivemos. Tinha um grande compositor, grande companheiro, que foi Maurício Tapajós, e ele conduzia muito essas reuniões. Era no tempo da ditadura, era meio difícil. E nós nos juntamos, criamos a Som-Brás, que mudou muita coisa. O direito autoral ainda é um problema sério, mas quem se queixa hoje não imagina o que era antes da criação do Ecad e tudo mais. Era uma loucura. Você não recebia, simplesmente não poderia viver de direito autoral. Lembro quando compus a primeira música com o Tom Jobim, e aí o editor falou "mas você não pode compor com o Tom Jobim", porque éramos de sociedades diferentes. O Vinicius de Moraes falava: "O direito autoral é um assunto cancerígeno". Ele não tocava nesse assunto, não queria saber. E é um assunto muito chato mesmo. Ainda hoje acho chato. Não saberia levar essa luta adiante, porque é chata, mas eu assinava embaixo, ia atrás do que as pessoas que entendiam diziam que devia ser feito. E melhorou. Ainda é muito problemático, mas melhorou. E foi a minha geração nos anos 70 que conquistou muita coisa para a classe. Não foi só luta contra censura. Era briga com sociedade de direito autoral, com as gravadoras, com os meios de comunicação. Briga com todo mundo. E briga com a imprensa, porque ela tomava partido, às vezes, das gravadoras. Eu tive uma briga com a Polygram, e tomava pau. Botava o capacete para ler o Jornal do Brasil, porque eu tomava pau por estar brigando com a Polygram pelos meus direitos. Inclusive, eu ganhei a briga na Justiça.

Você pensa na velhice, sente ela chegar?
Ela vai chegando, vai se instalando aos poucos. Têm umas coisinhas que você vai percebendo, uma mazelazinha ali que não tem jeito, é mesmo assim. Mas não estou me queixando, não.

Você tem medo da morte?
Medo não, mas eu quero distância (risos). Acho que com saúde, fazendo as coisas direito, dá para viver um bocado mais. Gostaria de viver com saúde e com imaginação, com vontade de criar coisas. Noventa e tantos anos e virando a noite por causa de uma música, por causa de um livro. Formidável. Posso morrer assim.

O Tom Jobim disse "a gente só leva da vida a vida que a gente leva". O que você levará da sua vida?
Não vou levar nada. Alguma coisa vou deixar. Umas musiquinhas, uns livros, umas filhas, netos. Vou deixar umas coisas bonitas. Coisas que valeram a pena.

Leia as outras partes da entrevista:
» Abertura da entrevista
» Parte 2
» Parte 3
» Parte 4

 

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