Terra Magazine

 

Terça, 29 de agosto de 2006, 08h01

Instinto de Repórter

Murilo César Ramos

Esta não é mais uma resenha sobre o livro de memórias jornalísticas de Ricardo Kotscho; Do Golpe ao Planalto (São Paulo, SP: Companhia das Letras, 2006). Vou escrever sobre um outro livro de jornalista, no caso de uma repórter, da mesma estirpe jornalística de Kotscho - Elvira Lobato. Livro que ela chamou muito apropriadamente Instinto de Repórter (São Paulo, SP: PubliFolha, 2005). E que, embora construído a partir de uma proposta editorial diferente, merece tanta atenção quanto a que tem sido recebido pelo trabalho do ex-secretário de Imprensa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Há três anos, pouco mais talvez, recebi um telefonema de Elvira, que me consultava, por ser eu professor universitário com origem no jornalismo, sobre uma idéia que tinha para um livro. Não somos amigos próximos, mas nos conhecemos por conta da importância que têm as políticas de comunicação no trabalho jornalístico de Elvira Lobato. Fui uma de suas fontes algumas vezes, tentando responder suas muitas e agudas perguntas sobre o controverso e, em geral lamentável, porque largamente promíscuo, mundo das relações entre meios de comunicação e os poderes executivo e legislativo brasileiros.

A idéia de Elvira era excelente, e surpreendente para ambientes jornalísticos e universitários tão distantes quanto costumam ser os nossos, no Brasil. Ela não pretendia fazer um livro de suas memórias de repórter, como, por exemplo, Kotscho fez, e outros tantos antes dele. Elvira Lobato queria aproveitar um período sabático que lhe concederia a Folha de S.Paulo para pesquisar e escrever um livro que fosse tão útil para o ensino de jornalismo quanto para a sua prática. Sua idéia era tão simples quanto academicamente relevante: reunir uma coleção daquelas que considerasse suas melhores reportagens em duas décadas de carreira, e publicá-las acompanhadas de um texto em que relatasse e analisasse os processos de apuração que as tornaram possíveis.

A repórter Elvira Lobato não queria apenas rever e exibir parte de sua carreira jornalística; queria ir além e fazer dessa revisão e exibição um exercício didático-pedagógico para docentes e estudantes de jornalismo.

Infelizmente não consegui viabilizar, na Faculdade de Comunicação da UnB, por dificuldades nossas e da própria Elvira, aquele que imaginei ser o esquema ideal para o desenvolvimento do trabalho a que ela se propunha: recebê-la como pesquisadora visitante por, digamos, um semestre letivo; dar-lhe uma sala de trabalho em condições de receber estudantes e de escrever; e propiciar-lhe a oportunidade de oferecer um seminário para graduação e pós-graduação sobre a reportagem como gênero jornalístico. E ela escreveria, então, seu livro, ao abrigo do ambiente universitário que desejou prestigiar.

Passou-se algo como dois anos, e Elvira novamente me ligou. Tivera seu período sabático, e o livro idealizado estava pronto. Honrou-me com o envio das provas, antes da edição final.

São onze capítulos, em que a repórter Elvira Lobato fez com maestria aquilo a que se propusera: anteceder as reportagens escolhidas com o relato e a análise do processo de apuração dos fatos que seu instinto de repórter transformam, no espaço de dez anos, em alguns dos mais importantes trabalhos jornalísticos já feitos país.

O Programa Nuclear da Serra do Cachimbo, A República dos Usineiros, O Uso de Funcionários Públicos na Eleição de Collor, O Caso Banespa, O Golpe das Concessões de Rádio, A TV Virou Cassino, A Igreja Universal e os Paraísos Fiscais, Os Evangélicos Que Queriam Comprar a Vasp, O Dia Seguinte de uma Chacina, Políticos Ganham TV na Gestão Tucana, Uma TV para Gugu Liberato.

Aí está o roteiro para quem quiser, nesta ou em qualquer ordem, conhecer em detalhes o trabalho pioneiro de Elvira Lobato, que ela própria assim sintetiza com a simplicidade e o despojamento que são suas marcas mais distintivas como jornalista e como pessoa:

"O primeiro caso descreve a construção, pelas Forças Armadas, de um poço para testes nucleares, na serra do Cachimbo, em plena Amazônia. A reportagem foi publicada em agosto de 1986, quando o governo civil de José Sarney, que sucedeu o regime militar, mal completara um ano de vigência. Ela foi selecionada por envolver a apuração de um segredo militar, e por ter sido baseada apenas em informações off the records, quer dizer, sem identificação das fontes. A escolha dos demais textos levou em consideração os caminho para a obtenção de provas: busca de documentos em cartórios e juntas comerciais, gravação de conversas telefônicas, pesquisas em bibliotecas e bancos de dados, uso da internet, etc. Que seja a proveitosa a leitura".

Se assim quisesse, com todo esse arsenal jornalístico acima descrito, Elvira Lobato poderia ter feito um livro quase de aventuras; bastava que cedesse ao apelo fácil do glamour de que não é difícil revestir, mesmo quando não existe, a investigação jornalística. Mas, até na apuração mais rocambolesca - e o adjetivo vai aí por minha conta -; a do golpe das concessões de rádio, que levou Elvira e Josias de Sousa, então secretário de redação da sucursal de São Paulo, a se passarem, em certo momento da apuração, respectivamente, por advogada e pastor evangélico, o relato e a análise são sóbrios e objetivos, sem qualquer recurso à mitologia oportunista do repórter-herói.

Essa sinceridade profissional de Elvira não poderia estar mais evidente do que no capítulo sobre como interesses subalternos, de espertos empresários, transformaram uma bem intencionada portaria do ministério da Justiça destinada a beneficiar entidades filantrópicas em um lucrativo cassino pela televisão:

"Os textos ficaram prontos na quarta-feira, mas meu chefe, o secretário de redação Josias de Souza, achou que não estavam à altura do material que eu havia colhido: 'Você transformou ouro em prata', disse-me Josias. Passei a quinta-feira reconstruindo os textos até que se aproximassem do ideal."

Instinto de Repórter é ouro, sem resquícios da prata, o que, aliás, como acredito que pretendeu dizer Josias, não seria sequer desdouro.

Nele, Elvira Lobato chegou a um ideal: o de aproximar sua experiência profissional da universidade e, assim, emprestar uma valiosa colaboração a um ensino de jornalismo tão carente de bibliografia específica, que não sejam, em geral, traduções de manuais estado-unidenses.

Instinto de Repórter é livro indispensável ao ensino, à pesquisa e à crítica contemporânea do jornalismo brasileiro.

Murilo César Ramos é jornalista e professor da Faculdade de Comunicação da Universidade de Brasília. Coordena na UnB o Laboratório de Políticas de Comunicação e o Grupo Interdisciplinar de Políticas, Direito, Economia e Tecnologias das Comunicações. É sócio da Ecco / Consultoria em Comunicações.
 

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