
Amanda Rossi, especial para Terra Magazine
Segunda batalha da Guerra do Oriente Médio que se derrama para dentro dos portões da Universidade de São Paulo. O Sintusp (Sindicato dos Trabalhadores da USP) convocou um debate público, que deveria servir à restauração do diálogo em torno de posições radicalmente conflitantes em relação à guerra entre Israel e as forças do Hezbolá. Debate antecedido por grande polêmica, cercado de expectativa e marcado para a última sexta-feira, dia 25 de agosto, 13 horas, nas instalações do sindicato na USP.
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Pelo cartaz do evento, tinha-se a impressão de que estariam presentes não apenas adversários, mas também manifestantes favoráveis à postura de Israel no Líbano. Explicitava-se na convocação a presença da Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) e de um orador de sobrenome judaico.
A primeira batalha havia sido travada a 11 de agosto quando, após um ato público pelo fim do "massacre no Líbano" realizado no dia 9 do mesmo mês, o Sintusp divulgou boletim em que afirmava sua posição pelo "fim do Estado de Israel" e condenava os "genocidas judeus". A Federação Israelita reagiu contra esse boletim e entrou com pedido na procuradoria-geral do Estado para instauração de inquérito contra o Sintusp, por discriminação e preconceito (leia mais) .
Como esclarece o professor Osvaldo Coggiola, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, um dos organizadores da manifestação do dia 9, o boletim do Sintusp não expressa a opinião de todos os participantes daquele evento:
- Foi só posteriormente (POSTERIORMENTE!) ao ato de 9 de agosto que uma das entidades participantes, o Sintusp, publicou um panfleto em que, a par de denunciar o cancelamento antidemocrático do ato pelas autoridades da USP, defendeu "o fim do Estado de Israel" (leia o documento na íntegra)
10:30 da manhã da sexta-feira, 25 de agosto. As cadeiras estão alinhadas, espera-se um público de quase 200 pessoas. Sobre os assentos, o panfleto do "debate" recoloca as posições do sindicato:
- Pelo Fim do Estado de Israel; Pela construção de um Estado Palestino Laico, onde caibam todos os palestinos, árabes e judeus.
Cada uma das paredes do salão tem uma função específica no evento.
A da frente traz a mesa dos "debatedores".
A do fundo contém fotos de atrocidades cometidas por Israel - uma das mais chocantes mostra um homem que ergue pelos pés o corpo de uma garotinha libanesa que acaba de ser retirada dos escombros. Abaixo delas, cópias impressas das matérias publicadas neste Terra Magazine em 22 de agosto sobre o momentoso embate (vide "Conflito no Oriente Médio acirra os ânimos na USP").
Na parede à esquerda, e-mails recebidos pelo sindicato.
- São cartas que recebemos manifestando apoio ao Sintusp - diz uma mulher, integrante do sindicato.
E as de repúdio?
- Essas, nós preferimos não colocar.
Uma da tarde. A parede à direita é ocupada pela lojinha da União da Juventude Árabe para a América Latina (Ujaal), que vende a camiseta com o símbolo do Hezbolá por R$20 - a de manga cavada; a convencional sai por R$25.
- É para financiar o Hezbolá? - pergunta um provável consumidor.
- Quase isso, é para financiar a gente aqui no Brasil - responde o vendedor.
Participariam do "debate": a Fisesp, Valdo Mermelstein e Marília M. Hess, ambos de origem judaica, Emir Mourad, da Confederação Árabe Palestina do Brasil e Ali Nakhalawe, da Unjaal.
Participariam é o tempo verbal adequado. A Federação Israelita de São Paulo (Fisesp) não mandou representante oficial. A direção do Sintusp fez questão de frisar que fez o convite.
No sábado (26), Octávio Aronis, diretor-jurídico da Fisesp, explicou por telefone por que a Federação não compareceu ao debate com o Sintusp:
- Nós entendemos que jamais poderíamos participar. Primeiro porque (o convite) foi feito em cima da hora, segundo porque não seria um "debate", e terceiro porque não poderíamos participar de algo que, de antemão, já se propõe a pedir o fim do Estado de Israel.
Não haveria, portanto, entendem Aronis e a Fisesp, o que ser debatido.
Os outros debatedores são apresentados. Cada um deles tem 15 minutos para falar e, em seguida, haverá uma plenária, aberta a qualquer um dos presentes.
O primeiro é Emir Mourad, da Confederação Árabe Palestina do Brasil:
- Israel, com sua arrogância, está acabando com a moral dos judeus no mundo (...) ... regime israelense seja derrotado, a política israelense seja derrotada.
A seqüência lógica estabelecida para o debate é interrompida pela voz do professor Moacyr Aizenstein, do ICB (Instituto de Ciências Biológicas da USP):
- Eles (a Fisesp) não vieram porque já existe um pré-julgamento! Este é um debate viciado na sua origem, na medida em que o Sintusp (para divulgá-lo) distribuiu panfletos pedindo o fim do Estado de Israel. Isso aqui não é um debate! Existe um pré-julgamento! Isso contraria os princípios da nossa diversidade!
Respeitando a lei da física, a ação do professor gera reação da platéia.
- Fique quieto!
- Você está atrapalhando!
- Se inscreva para falar depois dos debatedores!
O professor é aplaudido por parte dos presentes, mas reclama para a mesa que alguém mandou ele "se retirar".
Depois da voz de Moacyr, praticamente só se ouvirão opiniões opostas às do Sintusp em pouco mais de 2 horas depois.
O evento, que parecia ter se descarrilhado, retorna aos trilhos na ordem de fala pré-estabelecida. Toma a palavra o diretor do Sintusp, Magno de Carvalho. De boina, barba cultivada ao estilo trotskista, o representante máximo dos trabalhadores da maior universidade da América Latina, fala:
- A diretoria do sindicato, ao tomar uma posição extremamente polêmica (de pedir o fim do Estado de Israel), não tomou uma decisão que saiu da cabeça da diretoria.
Magno de Carvalho e a diretoria se surpreenderam com a polêmica causada pelo boletim do Sintusp. Surpreenderam-se porque o repto "pelo fim do Estado de Israel" é antigo no sindicato. A terceira resolução de documento votado em congresso dos trabalhadores da USP já pregava:
- Lutar pela destruição do Estado de Israel.
Valdo Mermelstein, sobrenome judaico, vai falar.
Quem viu o cartaz do Sintusp, acredita ser ele uma voz dissonante às posições do sindicato. Engano. Mermelstein se declara "anti-sionista há 35 anos". Para ele o Estado de Israel "combina aphartheid e limpeza étnica". Diz:
- A luta pelo fim de Israel é uma luta dos judeus de Israel e do mundo que não queiram ser usados como bucha de canhão.
Chega a vez de Claudionor Brandão, da coordenação do sindicato. Ele se levanta. Recusa o microfone.
- Acho que dá pra todo mundo me ouvir, diz, voz de barítono.
Brandão está lá para "esclarecer para o conjunto da categoria porque o sindicato se coloca pelo fim e destruição do Estado de Israel, e no campo militar do Hezbolá".
Eis a explicação:
- Não se trata de uma luta dos palestinos e libaneses. Se trata de uma luta que é de todos os trabalhadores do mundo inteiro, (...)e nós não podemos deixar de ocupar a trincheira de combate ao imperialismo.
Em resumo, o motivo que leva o Sintusp a pedir o fim do Estado de Israel parece ser a necessidade de combater o imperialismo e os mandos e desmandos do capital no mundo.
Avança Brandão, voz de barítono a ecoar por toda a sala:
- Como marxistas revolucionários, defendemos a destruição de todos os Estados (...) Enquanto houver burguesia e capitalismo, não haverá paz. Travamos a luta nacional e internacional pela destruição do Estado de Israel e o imperialismo norte-americano. (...) Não podemos nos permitir a entrar no jogo de ódio de Israel, de que quem defende o fim do Estado de Israel é anti-semita. Somos anti-sionistas...
Para dar prosseguimento ao encontro são criadas novas regras. Antes que se realize a plenária, as entidades presentes têm 5 minutos cada pra darem sua opinião.
Falam o PSTU, Mara do Hip-Hop (candidata a deputada estadual pelo PSOL), a Liga Bolchevique Internacionalista (LBI), entre outros. Falam e repisam os discursos dos integrantes da mesa, com especial atenção à retórica inflamada e paixão flamejante pela causa do Hezbolá e líbano-palestina. Falam a arrancam aplausos da platéia.
Destaque para a fala da Liga Bolchevique Internacionalista:
- Estamos ombro a ombro, lado a lado pela vitória do Hezbolá, porque isso vai alavancar a luta contra o imperialismo. Uma derrota do imperialismo, uma derrota sobre o sionismo vai alavancar a luta do proletariado latino-americano, dos companheiros da Volks que estão sendo atacados agora,(...) vai levantar a luta contra a reforma trabalhista e sindical que Lula quer implementar em nosso País.(...) Até a vitória, até a destruição dessa máquina assassina!
Então, eis que surge Neli Wada, cintilante personagem do Sintusp, conhecida em todos os cantos da Cidade Universitária e da Assembléia Legislativa de São Paulo por comandar o carro de som e arregimentar as massas uspianas.
A vestir camiseta com o símbolo da facção xiita e, desta vez, despida do carro de som, Neli Wada tenta arrancar da platéia o grito de guerra: "E viva o Hezbolá! E viva o Hezbolá!"...
No último brado, "E Viva o Hezbola!", bate no peito, emocionada. Porém, sem o carro de som, o efeito Neli Wada não é o mesmo. A performance, visivelmente, provoca mais espanto do que adesões vocais à causa.
15:20. Um senhor protesta:
- Tenho que fundar uma entidade para poder falar? Vou fundar uma entidade.
Chega o momento da plenária. Para cada manifestante, 3 minutos. Henri Schipper, que se anuncia "voluntário da Federação Israelita", é um dos primeiros a falar.
- Três minutos para responder a duas horas e trinta minutos de agressão, isso não é justo!
Schipper convida para a realização de um debate "de verdade", em que os dois lados tenham tempos iguais e número paritário de representantes na mesa.
Brandão pede aos companheiros para levantar uma questão de ordem:
- Aceitamos fazer o debate nas condições deles se eles retirarem os processos contra a gente.
Ouvem-se protestos, oriundos dos fundos, de partidários da Fisesp:
- Quem não deve não teme!
Mais alguns integrantes da comunidade judaica falam. Um garoto, com seus aproximadamente 18 anos, usa seus 3 minutos para dar algumas informações. Diz que Israel dá direitos iguais aos árabes, inclusive os de origem palestina, que vivem no país. Acrescenta que pedir que Israel dê direitos aos palestinos de fora de suas fronteiras seria a mesma coisa que pedir que o Brasil dê direitos de brasileiros aos argentinos.
Explica ainda o jovem:
- ...morrem mais libaneses que israelenses no conflito porque a legislação de Israel exige que toda construção tenha um abrigo subterrâneo.
Da mesma forma, morreriam mais pessoas em um terremoto na Índia que em um terremoto no Japão, compara.
Algumas dessas informações são recebidas com risos contidos da platéia que, é evidente, não acredita no que enuncia o jovem auto-representante do outro lado do conflito.
15:45. Esvazia-se o evento do Sintusp. O debate, pela predominância absoluta na sala e na mesa de uma das posições em conflito, não aconteceu.
As imagens do vídeo foram cedidas gentilmente pela TV Comunitária de São Paulo. Terra Magazine agradece especialmente a Marcel, Luciano e Wesdras.
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