
Osvaldo Coggiola
Em 9 de agosto p.p., foi convocado um ato público "contra o massacre no Líbano e na Palestina", a ser realizado no Anfiteatro Camargo Guarnieri da Cidade Universitária (USP), Campus do Butantã. A autorização para o uso do Anfiteatro tinha sido previamente solicitada e concedida pelas autoridades responsáveis. Na véspera da data marcada, no entanto, a autorização foi retirada por autoridades da USP, o que equivalia à suspensão do ato, por não existirem possibilidades de obter em tão curto prazo um local alternativo. Os órgãos de informação da USP, por outro lado, passaram a (des)informar ao público que o ato tinha sido cancelado, e também, segundo diversos testemunhos, foram arrancados os cartazes de divulgação, pelo serviço de segurança da USP.
Assim mesmo, o ato foi realizado no dia e na hora previstos, do lado de fora, em frente ao Anfiteatro, com equipamento de som, mesa e cadeiras improvisadas (obtidas nos bares do entorno). Isso porque as autoridades da USP ordenaram que sequer fossem facilitadas cadeiras para que os oradores pudessem sentar, apesar da idade avançada de alguns deles. Não obstante a desinformação reinante, o comparecimento ao evento foi importante (várias centenas de pessoas).
Os organizadores entenderam que, devido à gravidade da situação no Oriente Médio, em especial no Líbano, o ato deveria ser realizado de qualquer modo. Era uma questão de honra. Fizeram uso da palavra, oito professores (entre os quais um Professor Emérito da USP, e quatro Professores Titulares), representantes das entidades da USP (Adusp, Sintusp, DCE-Livre), um deputado federal em exercício de mandato, e um sindicalista bancário em representação do Comitê de Solidariedade aos Povos Árabes, formado por dezenas de entidades representantes da comunidade e da sociedade civil brasileira. Essa entidade emitiu, no dia seguinte, um comunicando em que "solidariza-se com os manifestantes e lamenta que, em pleno século XXI, ainda haja tentativas de cercear a liberdade de expressão. E que se tente calar as vozes que clamam pelo fim do massacre dos povos libanês e palestino, lutam pela paz na região e o cessar-fogo imediato e incondicional".
Depois, dois professores da USP decidiram se desfiliar da Adusp, alegando o apoio da entidade ao ato. Um deles o fez nos termos que seguem: "Há bastante tempo que acompanho com crescente indignação, e cada vez menos senso de humor, aos (sic) pronunciamentos disparatados feitos pela associação a respeito dos mais diversos assuntos. A gota d'água foi o boletim número 62 do Sintusp, datado de 11 de agosto, disponível na rede, que relata evento promovido em conjunto com a ADUSP clamando pela destruição do Estado de Israel". Se trata, como veremos, de uma deturpação total, usada apenas como pretexto para uma decisão que, segundo os próprios dizeres do ex-filiado, tem motivos outros, anteriores e bem diversos aos do ato de 9 de agosto.
A Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) pediu, por sua vez, à Procuradoria-Geral de Justiça do Estado, a instauração de inquérito policial contra o Sindicato dos Trabalhadores da USP, o Sintusp, "para apuração de atos discriminatórios e preconceituosos contra a comunidade judaica", que a entidade representa. Impõe-se, por tanto, restabelecer os fatos e os conceitos.
O ato não foi convocado por nenhuma entidade, mas por um grupo de professores e funcionários, por minha iniciativa. As entidades foram convidadas a enviar oradores para se manifestarem, o que fizeram. O ato tinha um sentido humanitário (protestar contra o massacre da população civil do Líbano e da Palestina, especialmente crianças e idosos), mas também político: o de condenar o ataque injustificado a um Estado soberano, reconhecido pela comunidade internacional, pelo exército israelense - infinitamente mais poderoso que seus adversários - apoiado pelos Estados Unidos da América.
O lado humanitário era também político, pois como manifestou o Ministro de Defesa de Israel, Amir Peretz, no início dos ataques, o cerco à população civil (ataques aéreos a cidades sem defesa antiaérea, destruição da infra-estrutura do Líbano, etc.) obedecia ao objetivo de levar essa mesma população, pela extrema violência, a deixar de apoiar o Hamas (na Palestina) e o Hezbollah (no Líbano), e a pressionar seus respectivos governos. Ou seja, tratou-se de uma guerra conscientemente criminosa, contra uma população civil indefesa.
O massacre mencionado, por outro lado, foi denunciado como "crime de guerra" por Amnesty Internacional, e como "crime de lesa humanidade" pelo presidente da República do Líbano, Fuad Siniora. Não se pode, no entanto, denunciar um crime sem denunciar o culpado. A resolução da ONU que impôs o cessar-fogo, como é sabido, não condenou os crimes de guerra de Israel.
Na USP, chamou profundamente a atenção quando um conjunto de membros da comunidade universitária, incluindo professores da mais alta qualificação, se mobilizou para condenar um acontecimento que despertou a repulsa da opinião pública democrática mundial. Como chamou a atenção o fato das autoridades da USP tentarem calar essas vozes, que longe de prejudicarem a imagem ou as atividades-fim da universidade pública honraram a ambas no mais alto nível do compromisso humano. O Professor Emérito que compareceu ao ato não conseguiu conter as lágrimas ao se referir à situação no Líbano, a terra de origem da sua família.
Segundo informações fornecidas pelo jornal O Estado de S. Paulo, a Reitoria da USP "cancelou a permissão de uso do auditório, por constatar que se tratava de ato contra a existência de Israel". Trata-se de uma fabulação: nenhum material de divulgação do ato colocava semelhante propósito. Mais ainda, esse objetivo sequer foi colocado, no conflito do Oriente Médio, pela principal força libanesa combatente, o Hezbollah, organização de profissão islâmica - que não é considerada uma organização terrorista pelo Brasil. Esta declarou, explicitamente, que o objetivo de sua resistência contra a agressão e invasão do Tsahal era a retirada do exército israelense do território libanês e a libertação dos presos árabes - libaneses e palestinos, em especial - das prisões de Israel. No mesmo sentido foram os pronunciamentos de outras forças participantes da resistência armada à agressão do exército israelense (o Partido Comunista Libanês e a FPLP da Palestina).
Foram os porta-vozes de Israel e dos EUA os que pretenderam deturpar o sentido das ações da resistência libanesa, atribuindo-lhes a intenção imediata de destruir o Estado de Israel. No ato de 9 de agosto, por outro lado, foram expressos pontos de vista divergentes, e até contraditórios, acerca da guerra no Médio Oriente. Todos foram ouvidos com respeito e ninguém ameaçou a ninguém de retirar-se, por causa de algum ponto de vista oposto.
Foi só posteriormente (POSTERIORMENTE!) ao ato de 9 de agosto que uma das entidades participantes, o Sintusp, publicou um panfleto em que, a par de denunciar o cancelamento antidemocrático do ato pelas autoridades da USP, defendeu "o fim do Estado de Israel". Ora, atribuir ao ato de 9 de agosto uma intenção expressa POSTERIORMENTE por UM dos seus TREZE participantes é, obviamente, uma manifestação de profunda má-fé. Como escreveu uma das participantes do ato "embora os protestos tenham sido feitos em tons e graus de emoção variados, não havia clima nem atitude de anti-semitismo naquele evento". No entanto, segundo o "Informe Paz Agora/BR - 20/08/2006", (leia aqui o editorial do Informe Amigos Brasileiros do Paz Agora: Neo-nazismo na "esquerda") o evento e seus organizadores poderiam ser acusados de "neonazismo de 'esquerda'". Como estas e outras acusações no mesmo tom não são leves, e foram feitas contra pessoas de reconhecida militância democrática e antifascista, caberá eventualmente analisar os processos legais que devam ser movidos contra as entidades ou pessoas que as lançaram.
Isto posto, cabe perguntar se o Sintusp tem o direito de se manifestar no sentido aludido e se essa manifestação constitui um exemplo de "ódio anti-judaico e sectarismo político", conforme comunicado da A.S.A., (leia aqui), para a qual "a destruição do Estado de Israel é palavra-de-ordem moralmente indefensável". Segundo a colorida linguagem de um dos agora ex-filiados da Adusp, já citado, "a linguagem hitlerista (do Sintusp) tem ao menos o mérito de explicitar as posições de nossa esquerda universitária, declarando claramente que sua motivação é o ódio ao Estado de Israel e aos judeus em geral" O fato é que Israel usa e continuará a usar a força contra seus inimigos declarados justamente porque eles propõe (re-sic) a destruição violenta do estado judeu. Não haverá paz no Oriente Médio enquanto o povo israelense ouvir constantemente a ameaça de extermínio repetida nesse boletim (do Sintusp). O projeto de destruição do estado judeu é exatamente a causa das guerras em que Israel foi envolvido pelos países vizinhos e por organizações paramilitares árabes". A mesma pessoa afirma que "a destruição do Estado de Israel (equivale a) o extermínio do meu povo, e um segundo holocausto judeu".
Na verdade, a não-existência de Israel foi defendida, muito antes da sua criação, pelos setores mais amplos e militantes do movimento dos trabalhadores judeus que lutavam, não de forma literária mas realmente, contra o anti-semitismo e os pogroms na Rússia czarista e na Europa Oriental, no século XIX e na primeira metade do século XX. O sionismo (inclusive de esquerda) era minoritário entre os judeus da Europa, quando do seu nascimento no último quartel do século XIX, e pelo menos até meio século depois. A maioria dos trabalhadores judeus rejeitava o objetivo do sionismo (a construção de Eretz Israel, na Palestina, na Uganda ou no litoral da Argentina, os lugares que eram cogitados - o fundador do sionismo, o austríaco Theodor Herzl preferia... a Argentina). É o que fazia, entre outros, o grande partido socialista judeu, o Bund (União), que queria lutar pelo socialismo na Rússia e na Europa (e pela autonomia nacional-cultural judia dentro de uma Europa socialista).
Mas o Bund foi espatifado entre duas forças contraditórias: a Revolução Russa, que lhe tirou boa parte de sua base, e a transformação do sionismo em uma força política (e econômica) superior, quando o sionismo virou um aliado explícito das potências imperialistas (no caso, a Inglaterra) a partir da "declaração Balfour", em 1917 - já morto seu fundador Herzl e sob a condução de Chaim Weiszman. A "declaração" do ministro inglês era, na verdade, uma resposta a uma carta do dirigente sionista. Propunha ele que o futuro Estado de Israel fosse uma cabeça de praia da Inglaterra, contra os impérios coloniais rivais, nos territórios do antigo Império Otomano, já em vias de decomposição (esta agravada pela I Guerra Mundial).
O nazismo alemão viria, em poucos anos, acrescentar ao drama judeu um componente decisivo (o Holocausto de seis milhões de judeus na Europa, ou seja, a tentativa nazista de destruir o judaísmo europeu), que foi usada como base histórica e motivação moral para a criação do Estado sionista, em 1948. Este foi imediatamente reconhecido pela URSS totalitária de Stalin (que tinha criado sua própria república judaica, o Birobidjã, em uma inóspita região da Sibéria), que lhe forneceu (junto com os EUA) boa parte do armamento e a logística usados para, primeiro, expulsar os habitantes não judeus da região, e, depois, para fazer a guerra contra os Estados vizinhos. Se os pogroms czaristas foram usados pela Inglaterra para tentar criar uma plataforma própria no ex-Império Otomano, o holocausto nazista foi usado pelos EUA (que o ignoraram durante a II Guerra, como já foi fartamente documentado) para criar uma máquina militar permanente no Oriente Médio, contra as nações árabes. O imperialismo sempre se baseou na divisão dos povos oprimidos, e fazendo da desgraça alheia a felicidade própria.
Desde então, as fronteiras desse Estado - dito democrático mas na verdade confessional, e atualmente dirigido por uma casta religiosa e militar reacionária; dotado de um exército e de um poder de fogo (incluídas centenas de ogivas nucleares) totalmente desproporcionais ao seu tamanho geográfico, demográfico ou econômico, isto devido ao apoio institucional e multifacetado dos EUA - essas fronteiras se expandiram constantemente, em relação àquelas da resolução original da ONU, que legitimou a sua criação.
O balanço histórico é que o Estado sionista, em todas as suas versões políticas (de direita, de esquerda, de centro ou, como hoje, de coalizão esquerda-direita-centro) só sobreviveu e sobrevive com base no massacre permanente dos povos da região ou, como disse Michel Warchawski, dirigente de esquerda em Israel, com base na "guerra permanente" contra esses povos. É demasiadamente hipócrita e cínico afirmar que questionar a existência do Estado sionista equivale a propor o extermínio de um povo, ao mesmo tempo em que se nega, ao longo de 60 anos, a mais elementar existência nacional ao povo palestino.
Será crime constatar que o Estado sionista só conseguiu e consegue se viabilizar como um ghetto militarizado, odiado por todos os povos da região? Será crime defender o direito de todos os palestinos retornarem às suas terras e lares, das quais foram violentamente expropriados de 1948 em diante? Será crime, será anti-semitismo, pensar e defender a opinião de que, nessas condições, somente um Estado único, laico e democrático, em que coexistam populações árabes e judaicas, em todo o território da Palestina histórica, ofereceria uma saída de fundo ao drama histórico desses povos?
Isso, ou a guerra reacionária permanente, que pode terminar em um Holocausto multi-direcional, ou no primeiro Leviatã do "choque das civilizações" (que, em parte, já existe na Palestina). Defender essa opinião, como o fazem diversas forças de esquerda e democráticas no mundo todo, não é crime, e muito menos uma forma de anti-semitismo, como pretendem os ideólogos do establishment dos EUA. É, ao contrário, defender um destino democrático para o povo judeu, junto ao restante dos povos do Oriente Médio e do mundo, e para que pare de ser bucha-de-canhão dos EUA para seus projetos de dominação imperial mundial da região e do planeta todo.
Pode-se estar de acordo ou não com essa opinião. O que é inadmissível é qualificá-la de racista, anti-semita ou, pior ainda, de constituir um chamado ao extermínio do povo judeu. Isso, mais que uma mentira, é uma calúnia pura e simples, a serviço dos piores interesses, os da manutenção da opressão dos povos árabes, os da manutenção da opressão do povo judeu por um estamento clerical-militar aliado aos piores interesses imperiais dos senhores do mundo. Seria uma piada, se não tivesse um conteúdo trágico. Afirmar que "Israel usa e continuará a usar a força contra seus inimigos declarados", significa propor um futuro de banhos de sangue e opressão permanentes contra os povos do Oriente Médio.
Foi uma Assembléia Geral da ONU, com presença de mais de 150 Estados soberanos, que condenou o sionismo (não o judaísmo, claro) como "uma forma de racismo". Teria sido, nessa ocasião, a ONU tomada pelo anti-semitismo? E cabe mencionar aqui que uma minoria da esquerda judia lutou e luta bravamente em Israel contra a guerra: organizou manifestações importantes em Tel Aviv e até em Haifa, no próprio decorrer das hostilidades.
Diversas entidades, conclamadas pelo CONLUTAS, entidade sindical, "manifesta(ram) total solidariedade aos trabalhadores da USP e ao seu sindicato - o Sintusp - que vem sofrendo ataques, ofensas e até ameaças por parte de setores da Federação Israelita, por denunciar os constantes massacres contra os povos árabes levadas a cabo pelo exercito israelense, bem como por defender o fim do Estado de Israel e a formação de um Estado Palestino, Laico e Democrático naquela região. Repudiamos também a atitude do presidente da Federação Israelita de São Paulo, Sr. Jaime Blay, que deu entrada com pedido de abertura de inquérito policial contra o Sintusp junto à Procuradoria Geral de Justiça de São Paulo".
Como afirmou um manifesto de "cidadãos de origem judaica residentes no Brasil", "nos somamos a todos aqueles que protestam contra estes massacres, contra essa guerra hedionda, exigindo o fim dos ataques e a retirada de Israel do Líbano e dos territórios ocupados, independentemente das resoluções dúbias ou omissas da ONU. Bombardear vilas de civis no Sul do Líbano é um crime contra a humanidade como foi o bombardeio do Gueto de Varsóvia. Atirar em crianças palestinas é um crime contra a humanidade como foram os "pogroms" da Rússia Czarista. Estigmatizar os povos árabes como inimigos é odioso assim como a estigmatização sofrida pelos judeus ao longo de séculos".
Não é preciso acrescentar uma palavra sequer. Aos caluniadores e defensores do massacre permanente dos povos caberá assumir suas responsabilidades, em todos os âmbitos. Só haverá paz se houver justiça e respeito aos direitos de todos os povos, no Médio Oriente e no mundo todo.
Terra Magazine
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