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Quinta, 31 de agosto de 2006, 07h57 Atualizada às 20h14

Informes alertam polícia no aniversário do PCC

Bob Fernandes

Véspera da quinta-feira, 31 de agosto, data do anunciado aniversário de 13 anos do Primeiro Comando da Capital - PCC. Um experimentadíssimo cardeal da polícia paulista avalia: "As nuvens estão escuras, há raios e toda aquela calmaria que precede uma grande tempestade, mas ninguém pode ter certeza se ela virá".

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O prédio do Deic, na zona norte da capital, está cercado por barreiras móveis e viaturas. Todas as delegacias de polícia do estado já receberam dois informes com indícios de novos ataques. O primeiro, nascido de um conjunto de gravações telefônicas com um "salve" (ordem, na linguagem dos presídios) para um ataque ao Estado. O segundo indício surgiu quando, em Pedro Juan Caballero, Paraguai, um carregamento de armas foi apreendido: suspeitou-se, então, que um dos detidos tenha envolvimento com o PCC, que seria o destinatário das armas.

Estados de alerta como este acontecem de tempos em tempos há cinco anos, desde que a polícia deu-se conta do poderio da organização criminosa. Naquele 18 de fevereiro de 2001 o PCC tomou 29 presídios, em rebelião toda orquestrada por celular. A partir daí, e com maior intensidade a partir de maio último, houve ataques intermitentes. E essa história nasce muito antes daquele fevereiro de 2001.

O experimentadíssimo cardeal da polícia identifica no início dos anos 90 o primeiro grande erro que levaria à consolidação de grupos com esse tipo de organização: a união, no mesmo presídio, de criminosos comuns com os dez seqüestradores do empresário Abílio Diniz, presos no final de 1989. No grupo, havia quatro chilenos, três argentinos, dois canadenses e um brasileiro. O experiente membro da polícia lembra, por exemplo, que a chilena Maria Emília Marchi Badilla dava aulas dentro presídio feminino do Butantã, zona oeste da capital. Os demais conviviam e repassavam sua experiência como se num curso de pós-graduação.

Equívoco da mesma ordem foi o cometido recentemente, quando, em Presidente Bernardes, se colocou no mesmo presídio de segurança máxima, para uma espécie de doutorado, o comando do PCC com outro expert em técnicas de terror, o chileno Maurício Hernández Norambuena. Líder do seqüestro do publicitário Washington Olivetto em 2001, o chileno está preso em regime de segurança máxima desde 2003. (leia mais)

Ainda no capítulo de erros fundamentais, e aceitando-se a visão de quem conta a história, outro fator teria sido a política mal conduzida de flexibilização de hábitos e costumes nos presídios, que permitiu avanços do crime organizado nas cadeias. Entenda-se. Quem pensa e diz isso é alguém crítico do que se convencionou chamar de "direitos humanos", assim entre aspas. E há controvérsias quanto essa visão. Contrapõem-se desde a elementar superlotação de presídios à falta de política penitenciária e, em especial, a própria realidade da polícia civil paulista.

Perceba-se, por exemplo, a vida de um investigador iniciante. Cada um deles bota no bolso todo mês R$ 1.500, ou seja, ganha R$ 50 por dia de trabalho. No mínimo o dobro ele recebe para fazer qualquer bico como segurança. Institui-se, a partir disso, em grande parte dos 30 mil policiais civis do estado, a prática da "substituição": quem está de bico paga para quem cobre o seu turno de trabalho. Desta forma, surge uma das enormes dificuldades quando se precisa ter polícia pronta e à disposição da sociedade.

Breve relato da ascensão de um grupo criminoso
Antes do pioneiro José Márcio Felício dos Santos, o Geleião, o crime já se organizava nas cadeias, e isso é acaciano. Quem é do ramo se recorda, entre outras, da facção Serpente Negra infiltrada nos presídios desde 1984. O PCC, num país onde se diz que tudo acaba em samba, começou com uma partida de futebol. Geleião e outros presos, oriundos da capital paulista, estavam na penitenciária de Taubaté, denominada "Piranhão". Num dia qualquer, que supõe-se seja 31 de agosto de 1993, Geleião capitaneou um time dos "da capital" para jogar contra os "do interior". A equipe foi batizada de Primeiro Comando da Capital.

Tempos depois dessa partida inaugural, os grupos se desentenderam no presídio. Armou-se no pátio o que é conhecido no linguajar das cadeias como "roda de sangue", e nela tombaram três ou quatro cadáveres. Com sangue se assinou no chão do pátio, pela primeira vez, a expressão PCC.

Com o tempo, Geleião perderia o posto. Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, como boa parte do novo comando, seria ungido na esteira dos assaltos a bancos. Homem frio, intelectualmente bem dotado, bem articulado e com hábitos de novo rico. Quando em Araraquara, usava tênis de R$ 500 e fazia refeições de R$ 150. Com o produto de um de seus assaltos nos anos 90, andou a viajar pela América Latina. Havia adquirido hábitos de um pequeno-burguês.

Nessa década, quando boa parte do comando foi detida, as mulheres dos presos assumiram o controle das operações administrativas do lado de fora e, numa das investigações, a atual mulher de Marcola foi presa. O autor da ação, delegado de roubo a bancos Ruy Ferraz Fontes, está jurado desde então. Fontes é o homem que deu início a um processo de desmantelamento da organização, e foi quem montou o quebra-cabeça do organograma do PCC.

No organograma, o segundo na hierarquia do comando é Júlio Cesar de Moraes, o Julinho Carambola. Magro, óculos, aparência de professor. Quem o vê, não imagina estar diante de um pensador do crime e ex-assaltante de banco. Já o terceiro, Rogério Jeremias de Simone, ou Gegê do Mangue, surge da vereda mais recente do PCC: o tráfico de drogas. Os chefes perceberam que o setor de origem daquela segunda linhagem de comando, o chamado 157 - roubo (bancos e cargas, principalmente) - exige operacionalidade e administração. No tráfico de drogas, tudo é mais simples. Daí o salto na "qualidade" do crime organizado.

O PCC deve ter hoje, calcula-se, cerca de três mil homens orgânicos espalhados pelos 144 presídios de São Paulo. A isso acresça-se milhares como massa de manobra momentânea. Sinal dos tempos: no começo, o batizado era feito, pessoalmente, por dois membros do Primeiro Comando e incluía até água no instante batismal. Na sofreguidão para que cada presídio tenha pelo menos um "piloto", hoje as filiações são feitas até por celular. Na visão de membros da polícia, o sistema do PCC, com expurgos nos últimos anos, não seria mais piramidal, e sim de "torres", com grupos intercalados e sólidos em seus respectivos bastiões.

Os ramos e formas de atuação têm sido os mais diversos. Hoje a organização é investigada, na Zona Norte de São Paulo, por exemplo, por cobrar pedágio de até R$ 1.500 dos perueiros. Viagens seriam simuladas e as cotas seriam cobradas da prefeitura. Esse valor seria destinado ao PCC.

Assim como o crime, o combate ao crime tem sua lógica. Na Colômbia, para enfrentar e derrotar o poderoso Pablo Escobar (1949-1993), o "rei da cocaína" do Cartel de Medelín, a agência norte-americana DEA aliou-se ao igualmente poderoso Cartel de Cali.

Escobar foi o responsável pelo ataque à Suprema Corte colombiana, em 1985, que resultou na morte de 12 ministros da suprema corte de Justiça, dois ministros da Justiça e o procurador-geral, chefe do Ministério Público colombiano. Ele ordenou também, em 17 de agosto de 1989, o assassinato do candidato à presidência Luis Carlos Galán, do Partido Liberal, além de ter mandado matar o ministro da Justiça Lara Bonilla. O traficante atacou o Estado colombiano porque este ensaiava, como acabou acontecendo, aceitar a imposição do governo americano de extradição para os traficantes. No Brasil, entendem os integrantes do PCC, a "pena" correspondente à extradição dos colombianos é o encaminhamento para o RDD - Regime Disciplinar Diferenciado.

Atentos a essa lógica colombiana, especulam pragmáticos do combate ao crime organizado que tirar do jogo o traficante Naldinho foi um fator de "desequilíbrio", pois permitiu a expansão do PCC. Em especial na baixada santista, onde hoje o comando é poderosíssimo. Naldinho, aliás, está envolvido no caso que culminou na prisão de Edinho. O filho de Pelé está preso em Presidente Bernardes por tráfico de drogas.

Em 12 de maio, dia do primeiro ataque do PCC, o próprio Marcola avisou o que estava a caminho. Ele, como é do ramo, sabe que talvez tenha chegado o momento de mudar de ares. Não aguardar pelo inevitável, o conhecido desde de que Darwin teceu sua teoria sobre a evolução das espécies: sempre algo, ou alguém, será engolido para alimentar outro.

Nesta quinta-feita, 31 de agosto, com a polícia alerta e de sobreaviso há dois dias, resta a certeza de que ao longo de 13 anos o Estado falhou ao não perceber a tempo o que inicialmente era apenas um amontoado de homens e mulheres jogados numa prisão por terem cometido crimes heterogêneos. Agora o Estado se vê diante de uma organização que, cada vez mais, opera no tráfico de drogas.

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