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Quarta, 6 de setembro de 2006, 07h54

Guerra deixou rastro de destruição dos dois lados

Moisés Storch

Terra Magazine tem publicado, semanalmente, duas visões sobre o conflito no Oriente Médio. Leia abaixo, depois da apresentação de Moisés Storch, coordenador do movimento Amigos Brasileiros do Paz Agora (www.pazagora.org), um artigo do professor Saliba Sarsar. O tema e a abordagem são de livre escolha dos autores.

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Felizmente houve uma trégua, mas as principais causas do conflito permanecem. Por um lado, o crescimento global de um movimento fundamentalista islâmico, que rejeita os valores ocidentais e vê o Estado de Israel como um corpo estranho a ser extirpado do Oriente Médio. E, paralelamente, a questão nacional israelense-palestina.

O professor palestino Saliba Sarsar, da ONG pacifista American Task Force on Palestine acha que "o futuro das relações árabe-israelenses não é o da violência ou o de continuamente guerrear. É ganhar uma paz justa e duradoura".

A qual passa pelo reconhecimento recíproco dos direitos nacionais de israelenses e palestinos.

Moisés Storch, coordenador dos Amigos Brasileiros do Paz Agora (www.pazagora.org)

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A Questão Palestina é a Chave

por Saliba Sarsar (*)


O teórico militar Karl Von Clausewitz insistia, há cerca de 170 anos, que "guerra é uma mera continuação da política por outros meios". O que assistimos na guerra entre Israel e Hezbolá é não apenas uma confirmação disto, mas também uma flagrante negação de direitos humanos básicos, independentemente de quem está certo e quem está errado.

Embora o direito à autodefesa e o direito à liberdade da ocupação possam dar alguma justificativa para guerra e resistência nacional, esta guerra ultrapassou esses direitos ao cruzar várias linhas vermelhas.

Cada lado, com seus respectivos aliados, pune o outro e alardeia "vitórias" militares e vantagens políticas, sem considerar os ônus humanos e sociais. Cada lado foi além do combate ao terrorismo ou à ocupação, para matar inocentes. Como Mahatma Gandhi declarou uma vez, "olho por olho, todo o mundo ficará cego".

Historicamente, líderes árabes e israelenses conduziram seus respectivos cidadãos à desconfiança e ao temor pelo outro. Através de reivindicações e contra-reivindicações e por adiamentos sem fim, eles postergaram a discussão séria das diferenças entre eles.

Mesmo quando foram assinados acordos nos mais altos níveis, como em Camp David (1978) e Oslo (1993), o povo das ruas não foi convencido. Não é surpresa que o fanatismo e a agressão tenham se sucedido, invariavelmente resultando em perdas humanas, empobrecimento, aprisionamento e desesperança.

No lado israelense, a enorme ênfase em segurança e o recurso extremado à força geraram a necessidade de expansão territorial, de forma a garantir a "sobrevivência numa região hostil". No lado árabe, a excessiva obsessão de desfazer a História, através da derrota de Israel e da recaptura do domínio sobre a Palestina tem cegado gerações de árabes e alimentado movimentos sociais extremistas.

Neste ambiente carregado, os adversários acabam sendo vistos como corpos monolíticos, e transformados em inimigos terríveis a serem neutralizados. Combatentes e não-combatentes são misturados no mesmo saco e submetidos a punições coletivas, sem considerar as diferenças entre eles. Mesmo quando tomadas precauções, ocorrem danos colaterais, que são explicados como erros lamentáveis e trágicos.

Ao contrário de guerras anteriores entre árabes e israelenses, a guerra Israel-Hezbolá é o resultado de um grave equívoco cometido por líderes nacionais no último quarto de século, que permitiram ao Hezbolá crescer com o apoio do Irã e a Síria, com a aquiescência de sucessivos governos libaneses fracos, e alimentado pela aversão a uma ocupação do sul do Líbano por Israel que durou 22 anos. Dentro do contexto da guerra conta o terrorismo, é uma guerra de Israel por conta dos Estados Unidos, para tentar bloquear os desígnios iranianos e sírios no Líbano e no resto do Oriente Médio.

Mas como nas guerras árabe-israelenses anteriores, esta guerra é produto da falta de diplomacia, e também uma conseqüência ou resíduo da questão da Palestina.

A não ser que esta questão central seja resolvida, seus efeitos continuarão minando as relações regionais e internacionais, particularmente quando os extremistas e outros o usam como munição para seus objetivos e interesses exclusivistas.

É evidente que se a segurança é essencial para a sobrevivência, mas apenas ela por si não garantirá a paz. A segurança deve ser equilibrada pela segurança do outro, e só pode ser assegurada através de estabilidade, justiça e paz. Isto se materializa quando adversários respeitam o caráter humano do outro, quando promovem uma cultura de moderação, tolerância e confiança.

O futuro das relações árabe-israelenses não é o da violência ou o de continuamente guerrear. É ganhar uma paz justa e duradoura.

O grupo American Task Force on Palestine (www.americantaskforce.org) apresenta cinco passos nesta direção, baseados em seus princípios:

Um primeiro passo é que líderes israelenses e árabes preparem suas sociedades para a paz. Isto inclui educar para a paz. E tornar inaceitável e condenar categórica e inequivocamente toda a violência dirigida contra civis, seja quem forem seus perpetradores ou vítimas.

Um segundo passo é conseguir um compromisso histórico ancorado numa solução de dois Estados, pela criação de um Estado da Palestina democrático, pluralista e não-militarizado, vivendo em paz e segurança ao lado de Israel, nos territórios ocupados em junho de 1967, em conformidade com a lei internacional e resoluções da ONU.

Um terceiro passo é ter uma Jerusalém aberta para todas as crenças, servindo como capital para Israel e Palestina, e satisfazendo as aspirações políticas de israelenses e palestinos.

Um quarto passo é que Israel e os países árabes aceitem-se mutuamente e criem relações e parcerias diplomáticas, econômicas, financeiras, educacionais e culturais.

Um quinto passo é que os Estados ricos em petróleo, os países industrializados do Ocidente e outros ofereçam um pacote de assistência e investimento como o "Plano Marshall", para a Palestina, Líbano, Iraque, Israel e o novo Oriente Médio.

A nova resolução 1701 do Conselho de Segurança da ONU é crucial para acabar com a guerra Israel-Hezbolá. O que talvez seja ainda mais importante é que a ONU vote uma nova resolução que cuide da questão chave da Palestina, de uma vez por todas. E que os Estados Unidos se engajem ativamente na defesa de uma paz justa e duradoura. Os cinco passos acima podem ajudar nessa direção.

* Saliba Sarsar é professor de Ciências Políticas na Universidade de Monmouth nos EUA, e um dos diretores do American Task Force on Palestine, ONG pacifista formada por norte-americanos de origem palestina. Este artigo foi publicado originalmente em inglês no The Jordan Times, distribuído pela www.commongroundnews.org e traduzido por Moisés Storch.
 

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