
Bob Fernandes
Uma imagem vale por mil palavras. Esse é um antiqüíssimo clichê. Lancemos um outro na praça: uma imagem vale por mil teses. A imagem, no caso, não é uma, são várias, superpostas em camadas. Só se vê uma, a primeira, fundamental; as demais se empilham no imaginário. No imaginário do homem, e não há por que não dizer da mulher, brasileiros.A imagem que se vê, que se viu no portal Terra, foi a de Juliana Paes, longo vestido esvoaçante, mas sem calcinha, como flagrou o talentoso e solerte Marcelo Pereira, fotógrafo do portal (leia entrevista). A foto, na home do Terra ao longo de toda a quarta-feira (6), provocou furor visual (veja aqui). Primeiríssimo lugar em espetacular audiência. Audiência de milhões. De muitos e muitos milhões. Terra Magazine, na pista dos caminhos de uma notícia, de como ela se constrói, e de como uma audiência se torna tão espetacular, buscou ouvir a própria: a Juliana Paes. Ela, como é praxe nesses tempos, falou, mandou dizer, através de terceiros, e segundos. No caso, seus assessores de imprensa. Um deles, Ike Cruz, instado sobre o momentoso e fulcral assunto, revelou:
- Ela me disse que usava um tapa-sexo.
Os que viram a foto - sem a tarja preta, como foi publicada - sabem que o tapa-sexo, se de fato existia, nada tapou. Outro assessor, Sandro Fernandes, menos incisivo, mais prudente e realista, concedeu:
- Intencional não foi. O vestido era pesado e a gente nem sabe como subiu tanto assim...
É elementar que ninguém vai querer tirar a prova dos nove nessa pontual questão. Nem é o que aqui se esmiúça. Interessa tentar entender as razões de tão frenético voyeurismo, descobrir o que se empilha debaixo da foto campeã de audiência.
Para começar, à exceção daquele, digamos, detalhe, Juliana Paes estava vestida, ao contrário das mulheres inteiramente nuas em milhares de capas de revistas, outdoors, cartazes e galhardetes amontoados em cada banca de revistas, em cada esquina do Brasil. O não intencional, o não revelado mas sim descoberto, talvez seja uma das chaves para se entender tanto frisson com tão pouco - se é que é apropriado dizer assim - em tempos de tanta escancaração.
O exercício de desfolhar a pilha de imagens por baixo desta foto seria quase infindável e, certamente, tarefa para diversas espécies de ólogos -sociólogos, antropólogos, psicólogos e por aí adiante. Assim sendo, para concluir antes de chegarmos ao depoimento do outro personagem dessa trepidante história, o fotógrafo Marcelo Pereira, vale a especulação em torno de alguns motivos.
Juliana é uma morena brejeira e cadeiruda, estereótipo esculpido e muito bem acabado de uma mulher brasileira - mesmo que Blumenau, Joinville, o interior de Santa Catarina, do Paraná e toda a serra gaúcha, por exemplo, sigam a fazer parte do território nacional.
Juliana é global. Arranca suspiros e gemidos nas novelas das oito. Aceite-se que não foi intencional, que "subiu mais" do que se esperava - palavras do assessor -, mas Juliana sem quase nada, a cada ano, desfila, requebra, mexe e remexe, sapeca, na Sapucaí. E a televisão, em horário nobre ou não, mostra e remostra, em slow motion enquanto rapazes, não mais rapazes, crianças e quem mais deseje babam no sofá da sala.
Juliana é morena. Como morena é, ao menos era, aquela Lílian, a Ramos, que engabelou o Itamar e deixou o país boquiaberto, olhos escancarados, no carnaval de 94, na mesma Sapucaí onde Juliana é sapeca.
Nessa história de agora tudo começou às cinco e meia da tarde da terça-feira, 5.
Marcelo Pereira, 35 anos, o bem-aventurado, fazia a cobertura de uma Feira da Beleza no ExpoCenter Norte, em São Paulo. Estava ali para fotografar justamente a Juliana.
Vestido quase carmim, alegre, sorridente, a atriz subiu no palco, disse um "oi gente" e, saltitante, iniciou seu rodopio. Cem pessoas no salão. Marcelo, a clicar a máquina:
- Tirei várias fotos, rapidamente, para pegar ela rodopiando.
Marcelo nada percebeu naquele instante. Nem ele nem os outros quatro fotógrafos e dois câmeras de televisão, testemunhas profissionais da cena do aceleradíssimo rodopiar. Nada que fosse visível a, perdão pela expressão, olho nu. Seguiram todos para o camarim. Lotado. Tempo para as televisões, Marcelo retorna ao palco, para aguardar Juliana e uma nova sessão de fotos, posadas.
Para ganhar tempo o fotógrafo começou a editar as fotos na própria máquina digital. Deu-se nesse instante o espanto:
-De repente, tomei até um susto, estava lá. Eu não havia percebido enquanto fotografava, foi muito rápido.
Diante do extraordinário achado, Marcelo acercou-se dos colegas e indagou: ninguém havia notado, fotografado, filmado, nada de diferente, de incomum? Não, ninguém mais tinha clicado naquele exato e decisivo instante. Ninguém mais tinha a imagem.
Marcelo voltou à redação. Foto editada, ampliada, clara como um dia de sol. Foto na home, da manhã à noite da quarta-feira, véspera da independência da Pátria. Explosão de audiência ante o sugerido pelo conjunto da obra, percebido em todos os detalhes quando não tapado pela tarja negra. Nada que a humanidade não conheça, não tenha visto, desde o primeiro homem, a primeira mulher sobre a Terra. Nada que não remeta ao impulso vital.
Terra Magazine