
Atualizada às 20h12 Bob Fernandes e Fernanda Verissimo
Pouco difundida no Brasil, a literatura africana de língua portuguesa ganha nova chance de ser conhecida com a publicação do romance "Bom Dia Camaradas", do escritor angolano Ondjaki (leia trecho).Aos 29 anos, nascido em Luanda e já reconhecido como poeta, contista e artista plástico, Ondjaki toma em "Bom Dia Camaradas" um tema universal, a infância, e faz dele uma lente para observar a Angola dos anos 80, da independência já estabelecida no universo muito peculiar do socialismo local. Delicado, lírico e ao mesmo tempo muito divertido, o livro recria uma Luanda que rapidamente se torna familiar mesmo para quem não a conhece ou conheceu naqueles dias, e partilha generosamente as memórias afetivas do narrador. É uma ficção, mas "quase tudo ali é verdade", admite o autor. Uma "autobiografia ficcionalizada", ele mesmo sugere.
Uma criança conta seu dia-a-dia, seu convívio com os amigos, com os professores cubanos que ensinavam na escola, fala de sua casa e de sua cidade, e pouco a pouco ganha a cumplicidade de quem a lê. O escritor Luiz Ruffato, em introdução ao livro de Ondjaki, lembra o clássico "Os Meninos da Rua Paulo", de Férenc Molnar, que faz do leitor um daqueles meninos que vivem na Budapeste do final do século XIX. O menino-narrador de Ondjaki nos transporta da mesma maneira por esta Luanda do final do século XX.
Defensor entusiasmado de um maior contato entre as culturas de língua portuguesa, Ondjaki acredita que esse diálogo deve ser estimulado não apenas com a publicação de livros, mas também com encontros de escritores e artistas. E ele vem fazendo a sua parte: já esteve várias vezes no Brasil e este ano, ao voltar para o lançamento de "Bom Dia Camaradas", participou de encontros e debates em livrarias e universidades. Esteve na Festa Literaria de Parati, no Rio de Janeiro, em São Paulo, Jundiaí, Petrópolis, Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, Salvador e Belo Horizonte.
Entre uma viagem e outra, Ondjaki conversou com Terra Magazine sobre a emoção que sentiu ao escrever "Bom Dia Camaradas", sobre o contato entre as literaturas de língua portuguesa e sobre sua relação com o Brasil. A entrevista foi feita por e-mail, e Terra Magazine preserva o português angolano escrito pelo autor.
Terra Magazine - Você já era conhecido como artista plástico, contista e, principalmente, como poeta. Escrever um romance era um projeto que você já tinha, uma decorrência natural e inevitável do seu trabalho, do seu caminho, nos parece. Mas houve também uma sugestão, um estímulo da sua editora?
Ondjaki - Sim, no que toca ao meu primeiro romance ("Bom Dia Camaradas"), acabou por ser um editor, angolano, que me sugeriu a idéia. Ele estava a começar uma colecção chamada "independência", e disse-me que seria interessante obter a minha visão, pois eu nasci dois anos depois da independência. Eu vi, nessa conversa, uma grande oportunidade para publicar o meu primeiro romance, e disse que sim, que tinha essa estória já pensada e muito adiantada. Que faltava apenas escrevê-la. Ele deu-me alguns meses e eu aceitei o desafio. Foi assim que nasceu, formalmente, o "Bom Dia Camaradas". Mas claro que, sendo um livro sobre a infância, e cheio desse lugar repleto de recordações, o livro vinha mais de dentro...
A Luanda do menino narrador de "Bom Dia Camaradas" é descrita com graça, leveza e, acima de tudo, com um ar de nostalgia bem-humorada (e até emocionada). São sentimentos que dizem mais respeito às suas memórias "interiores", "pessoais", chamemos assim apesar da óbvia redundância, ou é uma ficção que diz respeito à sua percepção, seu olhar "para fora", para o pós-independência, o socialismo em Angola? Ou, ainda, desculpe-nos mais uma vez a obviedade - que acreditamos necessária no caso dos que desconhecem aquela realidade e a você e seus livros - seria uma simbiose dessas "percepções"?
Penso que um livro é sempre uma transformação do real, em algo esteticamente novo, renovado. E sim, no caso de "Bom Dia Camaradas" há um diálogo entre o real, a cidade e as suas questões socio-políticas, com o meu eu interior, as minhas memórias afetivas, os meus amigos e professores, a minha pele de infância durante e depois da cidade, nos anos 80. Mas é um livro também sobre um tema que não é de ninguém por ser tão universal: o da infância.
A despedida dos professores cubanos, em especial nos capítulos finais, é muito tocante. Você também se emocionou ao escrever? O que você guardou da presença dos cubanos em Angola?
Eu pessoalmente guardei coisas boas. No livro falo concretamente dos meus professors cubanos, os que eu tive, os que eu conheci, e aqueles com quem partilhei aulas e outros momentos de ternura. Sim, foi muito emocionante ter escrito essas cenas, foram noites de uma certa solidão acompanhada, onde fui celebrando, sozinho e acompanhado de fantasmas, a dor e a alegria de quem se propõe recordar para esquecer. Falamos conosco ao escrever, mas também os outros, falamos com um afeto que é uma saudade, e com uma lembrança que é apenas uma réstia de verdade. O futuro é uma invenção constante e o que temos dentro de nós são brumas densas, cheias de amor, ternura e inocência. A infância é um terreno vasto, meio simpático, meio árido, ao qual é necessário voltar. Guardei da presença cubana em Angola a noção de que, aqueles que eu conheci, eram pessoas muito íntegras, muito dignas, com um sentido de irmandade muito forte. No caso dos meus professores eram, além do que já citei, duas pessoas muito ternurentas e que adoravam conversar conosco. A vida é sempre um labirinto de afetos - descobri também quando escrevi esse livro - e o Minotauro é senhor Tempo...
É difícil não ler "Bom Dia Camaradas" como uma autobiografia. Quão próximos a você são, de fato, o narrador e os personagens desse romance?
Quase tudo ali é verdade. Só o tempo, digamos, foi alterado. Nem todos aqueles fatos se passaram no mesmo ano letivo, mas tudo ali é verdade. Até as saudades, até os cheiros e sensações, até o abacateiro que se espreguiça. Talvez um dia digam que "Bom Dia Camaradas" é uma autobiografia ficcionalizada, isso estaria bem dito. Só não digo isso porque estão ali outras vidas além da minha, e vi, quis ver, o personagem principal como mais uma daquelas crianças. E assim foi.
O escritor Luiz Ruffato, na introdução à edição brasileira de seu livro, diz que seu romance é a oportunidade de retomada de um contato que já não existiria mais entre o Brasil e a literatura africana de língua portuguesa. A literatura brasileira ainda chega à África de língua portuguesa?
Eu penso que chega muito pouco. E não chega por vias oficiais, digamos, pela escola, pelos manuais escolares. E mesmo o que circula nas livrarias, é pouca coisa, e raramente é material atual. E tenham em atenção que Luanda é uma cidade-exceção em Angola. Nas outras províncias, e Angola tem 18 províncias no total, as livrarias são um negócio inexistente ou não rentável.
Mas penso que, no Brasil, a situação tem mudado muito nos últimos cinco anos. Além de José Eduardo Agualusa e Pepetela, também foram publicados Mia Couto e Paulina Chiziane (estes dois, de Moçambique). Também publicaram Ruy Duarte de Carvalho e Manuel Rui (de Angola). Temos que retomar e incentivar esse diálogo, não apenas pela via da publicação, mas talvez, também, com encontros internacionais de escritores e artistas, de músicos, de escultores, etc. E incluir nesses encontros os demais seis países de Língua Oficial Portuguesa.
E este contato existe entre os autores de diferentes paises africanos de língua portuguesa? Como estão hoje, ou não estão, os contatos entre os escritores dos diversos países de língua portuguesa? Como é a circulação dos livros, que tipo de entraves há, o que falta para se fazer sólido esse caminho?
Infelizmente, esse contato entre autores de Língua Portuguesa, é escasso, e quando acontece não é organizado nem promovido por nós. Usualmente esses encontros acontecem na Europa. O mesmo se passa, infelizmente, com os livros. Os entraves são de diversa ordem. Desde os preços dos livros ao chegarem aos nossos países, até à própria organização dessa circulação. Penso que os governos deveriam preocupar-se mais com esta questão da circulação do livro entre os Países da Língua Oficial Portuguesa.
Você já esteve no Brasil outras vezes. Como e quando começou esta relação com o país?
A primeira vez, a convite do então Adido Cultural da Embaixada Angolana, estive no Brasil para fazer uma exposição de pintura, na Casa de Angola na Bahia. Participei, nessa mesma ocasião, do 1º Festival da Água no Terceiro Milénio, um evento que misturava ecologia com outras artes, em Caxambu, MG. No ano passado, a convite do escritor e diretor Tabajara Ruas, trabalhei num filme dele, como assistente, e deu para conhecer um pouco mais o Sul do Brasil. Em Agosto de 2006, fui como convidado da Flip, e também estive em encontros com estudantes universitários, fiz palestras sobre a Língua Portuguesa e lancei o livro em diversas cidades. Foi bom para conhecer gentes e culturas.
Em que você está trabalhando neste momento?
Estou a terminar uma pequeno livro de estórias, e a preparar un novo romance.
Seu país enfrentou 30 anos de guerra civil, viveu a tragédia da perda de, ao que dizem, 1,5 milhão de vidas, e teria 100 mil mutilados de guerra. Você está no Brasil, certamente tem notícia do que se passa nos grandes centros urbanos; São Paulo, Rio, Recife, Salvador, país afora. Como você percebe, se é que é captável para quem está de passagem, essa lenta "guerra civil" à brasileira que, segundo as estatísticas, já há quase 20 anos produz uma média anual entre 35 e 40, 45 mil homicídios?
Sim, assisto a isso como a tantas outros fenômenos sociais que vão sucedendo em outras partes do mundo. Desconheço os detalhes da vossa situação, mas parece que o mundo carece cada vez mais de políticas sociais de prevenção, mais do que de políticas sociais de punição,e nenhum problema é fácil. Os políticos terão que trabalhar cada vez mais com os chamados cientistas sociais e as pequenas comunidades a fim de entenderem os problemas e de tentarem resolver alguns, e evitar outros. Não existem soluções nem países perfeitos. O planeta está a viver um momento extremamente difícil, e temos que ser pacientes, preserverantes, corajosos e dialogantes. Não me parece que as vias da repressão tenham funcionado bem.
Você se declara, se entendemos direito, "dividido" em dois. Sua porção "interna", "pessoal" - admitamos assim para facilitar - seria cética, eventualmente até pessimista ante as coisas do mundo, mas o seu "ser" público, cidadão, se impõe quase um dever de, apesar da tudo, ser um otimista. Você é gramsciano, um cético, um "pessimista" na razão enquanto é otimista na ação? Ou você, de fato, se esforça para se auto-impor essa disciplina de ser alguém que vê o mundo com olhos críticos, talvez mais pessimistas do que gostaria, mas que opta, por educativo aos olhos da multidão, em ser um "construtor", um defensor de novos caminhos, de uma nova realidade para Angola, para África(s) para o mundo? Um "otimista" ante a sociedade, como declarou na entrevista?
Desculpe, não entendo muito de definições, muito menos de auto-definições. Eu afirmei, sim, que a minha geração não tem outra saída senão ser optimista. Trabalhando. Construindo. Reconstruindo. E penso que sim, as acções terão que ser positivistas, no sentido de criar uma sociedade que debata mais os seus problemas, e que esse debate origine, se possível, algumas soluções. Também disse, sim, que às vezes devemos ignorar o nosso pessimismo interno, as nossas dúvidas, e continuar agindo de modo a descobrir o novo caminho para Angola e para o continente Africano. Através da arte como expressão da modernidade, e através da modernidade como via de manutenção da tradição.
Terra Magazine
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