Terra Magazine

 

Sexta, 15 de setembro de 2006, 07h59

Betty Mindlin lança "Diários da Floresta"

Fernanda Verissimo

Betty Mindlin, economista e antropóloga, tem uma longa história de trabalhos sobre e com os povos indígenas brasileiros. De seus projetos de pesquisa nasceram uma tese de doutorado ("Nós, Paiter", publicado em 1985 pela editora Vozes) e seis livros sobre mitos, escritos em parceria com narradores indígenas. Entre eles, "Moqueca de Maridos" (Rosa dos Tempos/Record, 1997), publicado em vários países, uma maravilhosa antologia de mitos indígenas sobre o amor.

» Leia trecho do livro "Diários da Floresta", de Betty Mindlin

Betty lança agora "Diários da Floresta", pela editora Terceira Nome, construído a partir das anotações de campo que fez ao longo de sua convivência com o povo Suruí Paiter, de Rondônia, entre 1978 e 1983. Esta convivência começou alguns anos depois do primeiro contato dos Suruí com os indigenistas, acontecido em 1969, quando ainda não se estabelecera uma relação permanente com a FUNAI.

Nas várias viagens e temporadas que passou entre eles, Betty escrevia sem parar, e estes escritos foram a base de sua tese de doutorado. Revisitadas pela própria autora mais de 20 anos depois, no entanto, as anotações feitas no calor dos acontecimentos serviram como ponto de partida para uma narrativa mais complexa, onde a autora alterna a realidade descrita em suas observações - do cotidiano, da estrutura social e econômica do índios - a uma "ficção não inventada", como ela própria sugere, que inclui narrativas de mitos, fantasias, comentários da época e considerações atuais, usando com maestria o conhecimento que tem da tradição oral indígena. Ao reler suas anotações, Betty diz ter percebido "que havia personalidades centrais, cuja vida e caráter eu gostaria de ressaltar, com mais enredo", e assim criou, de fato, personagens fascinantes, numa fronteira quase imperceptível entre o real e o inventado.

Pode ser lido como um livro de aventuras, surpreendente não só na narrativa mas igualmente no uso dos efeitos gráficos. "Os tipos em itálico, negrito e outros correspondem a tempos ou vozes diferentes. Ou a narrativas curtas, inventadas, mas plausíveis, baseadas no que me relatavam, em mitos, ou nos meus desejos, nas minhas fantasias de pertencer ao universo nunca plenamente descortinado, apenas adivinhado", explica Betty. O projeto gráfico é de Diana Mindlin, irmã da autora.

Estes diários, que poderiam ter-se limitado a uma função acadêmica pela clareza e rigor das observações, que ainda mantém, ganham uma outra dimensão e se transformam numa viagem pelo imaginário indígena e, em especial, pelo caminho muito particular das descobertas, angústias e encantamentos da autora, personagem tão presente e participante quanto os Suruí que a acolheram.

"Diários da Floresta" ganha festa de lançamento, no âmbito do festival "Primavera dos Livros", no dia 17 se setembro, as 11h, no Jockey Club do Rio de Janeiro. Em São Paulo, o lançamento acontece no dia 24 de outubro, às 19h, no Restaurante Buttina.

Betty Mindlin respondeu por e-mail as perguntas de Terra Magazine. Leia a entrevista:

Terra Magazine - Você conheceu os Suruí em 78, e diz que eles ainda conservavam inalterados seus costumes tradicionais e fala de uma qualidade misteriosa na rotina indígena. O quanto daquele mistério e daquelas tradições ainda existem?
Talvez fosse necessário chegar agora pela primeira vez ao mundo suruí para responder a essa pergunta, comparando a visão atual com o que senti há vinte e oito anos. As mudanças enganam muito, pois no nosso desejo de reencontrar o imutável, deixamos de nos encantar com o mais profundo da vida indígena. Durante dez anos deixei de ir às aldeias suruí, e só os via nos cursos de formação de professores ou em São Paulo. Passei uns dias com eles em fevereiro de 2006, volta da filha pródiga, e fui tomada por sua vitalidade, pelo sentido conjunto e não individual que dão à existência, com o entrelaçamento de histórias, destinos, o apoio de uns aos outros, claro que também com conflitos e rivalidades. Creio que são um dos povos indígenas brasileiros que têm mais energia, tanto que são um dos que têm a maior taxa de crescimento populacional, entre 4 e 5%.
Poucas horas depois de chegar, agora em fevereiro, deixei de perceber o que no primeiro instante me chocou: a arquitetura das casas construídas como vilas urbanas, algumas igrejinhas fundamentalistas, as ruas, a ausência dos pátios e ocas. Deixei-me arrastar pelo seu afeto, pelas novas gerações que vi nascer e conheci pequeninas, agora com histórias e interesses vibrantes, alertas para novidades, lembrando de mim quando eram crianças, e de visitas à minha casa em São Paulo, muitos deles. São numerosos, agora em 2006 são mil, fervilham, pulsam, inventam. Se eu não os tivesse conhecido antes, talvez fosse outra vez atrás dos pajés, das confidências das mulheres, do sistema de parentesco, e os descobriria muito semelhantes aos de então. Se eu puder ficar com eles por períodos um pouco mais longos, espero mostrar as novas capas do encanto - feitas de outro material.

Ao reler, abreviar e recriar os diários para a publicação, você se surpreendeu com alguma coisa da qual não lembrava? Talvez com algumas das suas próprias reações ao que lhe cercava?
Surpreendo-me de ter sido capaz de ficar longe dos meus filhos pequenos, e morro de saudade deles daquele tamanho, agora que são adultos e têm suas vidas. Como era forte a atração da floresta e de uma outra vida e pertinência, para me arrastar para longe deles. Surpreendo-me com meu entusiasmo radical, ligada afetivamente a quatrocentas pessoas, que passaram a fazer parte de uma família muito especial. Ao mesmo tempo, as minhas reações me parecem óbvias, naturais, as únicas possíveis para alguém com uma curiosidade voraz por desvendar formas alheias de pensar. Viver a morte, dobrar-me às ordens de desenterrar e enterrar uma criança, atravessar uma guerra e o medo, comer com gula sempre que me ofereciam, descobrindo os alimentos, a caça, as regras e proibições, o mel farto; inserir-me na teia de parentesco, como se fosse viver entre os índios para sempre; viajar com os pajés para regiões ignotas, imaginar as aparições, os espíritos, os casamentos com os seres imateriais, e mil outras dádivas que me foram concedidas, sem intenção deliberada da minha parte, pois eu apenas me abria para o que surgia, era levada. Tudo isso é surpreendente, e único - nunca mais me aconteceu com tal intensidade.

As relações amorosas, os namoros, os flertes, permeiam o dia a dia dos Suruí e tornam-se também uma preocupação muito presente na sua vida entre eles. Num determinado momento você chega a imaginar como seria viver um amor indígena. Falando sobre o índio Naraxar, que lhe pediu em casamento, você reflete sobre a responsabilidade de estabelecer uma relação de igual para igual com alguém com referências tão diversas, e sobre o risco de pular fronteiras culturais e talvez frustrar expectativas de outra pessoa. Essa era uma preocupação constante?
Fui para os Suruí para conhecer o que pensavam, investigar sua organização social, sua economia, seus mitos, com uma curiosidade insaciável, voltada para a pesquisa e para uma ação social, para a defesa dos índios, de seus direitos, do seu modo de ser, da sobrevivência com igualdade inexistente na sociedade industrial, com as trocas sem moeda, a arte feita por todos, a ausência de patrões e dos destituídos de terra e instrumentos de produção. Eram um modelo, um contraponto às relações mercantis, ao desenvolvimento econômico desordenado e predatório, nesses anos de ditadura militar. Deveria ser possível os índios continuarem com suas formas próprias e ao mesmo tempo alcançarem a plena cidadania brasileira - essa era minha visão, imaginava-os num sistema de auto-gestão, com relações com o mercado, mas autônomos, não assalariados, sem as mesmas necessidades de consumo e renda monetária que os da cidade. Eu não estava sozinha na tarefa de observação e análise; tinha como parceira, nos índios Cinta Larga, Carmen Junqueira, minha orientadora da tese de doutoramento em antropologia na PUC. Eu a seguia em tudo, com enorme admiração pelo seu trabalho e um desejo imenso que ela ficasse satisfeita com o meu. O respeito aos índios, a cerimônia ao compartilhar sua vida diária, a não-interferência em seus assuntos, como uma visita que não ultrapassa os limites da intimidade, eram princípios implícitos nossos. As relações amorosas têm um equilíbrio baseado no parentesco, que queríamos apoiar como um sistema social - não gostaríamos que os índios admitissem casamentos com os estrangeiros (que hoje são bastante freqüentes), que poderiam ser influências nocivas para a sua defesa (em especial dos recursos do solo e subsolo), alterar o sistema político e do poder. Carmen, ainda hoje, é firme com seus alunos e alunas - nada de namoro, é a regra. Mas nem lhe ocorreu formular ou me passar essa ordem, pois nossas cabeças estavam em manter a terra, impedir invasões, apoiar o movimento indígena local e nacional contra intrusos, entender o tecido social.

Mas havia esta preocupação de não "pular fronteiras"?
Meu jeito de fazer pesquisa era e é ainda, em larga medida, relacionar-me com todas as pessoas. Procurei ficar amiga de todos - por curiosidade, porque sempre, em cada viagem, descobrem-se pessoas fascinantes, que antes nem apareciam. Eu não privilegiava chefes, grupos familiares, mas procurava ir à roça e acompanhar a atividade de todos. Os Suruí eram ciumentos, todos me chamavam. Mais tarde, no Guaporé, vários índios me elogiaram, dizendo que eu ia à casa de todos, não favorecia apenas alguns - e de fato, nas terras deles há minorias dentro de minorias, que me fascinam, como os Ajuru, os Kanoé, os Arikapu. Só me sinto segura quando consigo não deixar ninguém de fora - o que nem sempre dá para fazer, é claro, mas vale o esforço. A posição da pesquisadora é única - pode relacionar-se com todo mundo, sem se identificar com conflitos, com supostas feitiçarias, ou guerras iminentes. Fica-se sabendo de segredos, ouvem-se confidências que devem ser bem guardadas. É como estar no meio da Comédia Humana, ver desfilar os destinos, os amores, as paixões e dramas. Eu era, a um só tempo, um homem e uma mulher, tinha todos os papéis.
É provável que um namoro, um casamento, dêem a sensação de adotar um povo, de pertencer a um grupo, com uma inserção carnal - mas perde-se a autonomia que combina com meu caráter selvagem, livre para enxergar o todo.
Assim, se você me pergunta se eu tinha a preocupação constante de pular fronteiras, desapontar outra pessoa que se encantasse comigo, não tinha, pois não havia um risco real, apesar da ternura e dos sedutores que me cercavam.
Por outro lado, os amores inter-culturais me intrigam, gostaria de estudá-los. (É verdade que todos os amores são um pouco inter-culturais, mas a medida importa). As formas do amor entre os índios e ao redor do mundo são um dos meus assuntos preferidos, assim como os mitos do amor.
Creio que é perfeitamente possível saber muito sobre o amor indígena sem experimentá-lo, talvez mais que quem o viveu. E se trata de um assunto dos mais atraentes, uma porta para entender os índios.

Você escreve que "estar entre os índios, experimentar, foi completamente diferente de ler", e que nenhuma das suas leituras antropológicas "fariam prever a magnitude e o sabor do que me coube". As leituras antropológicas perderam para você, de algum modo, um pouco da importância, ou ganharam outra dimensão de leitura depois de sua experiência pessoal?
As leituras ganharam nova dimensão. Cada vez admiro mais os grandes antropólogos e tudo que eles descobriram, a seriedade com que mergulhavam nos rituais, como faziam levantamentos meticulosos de religião, magia, alimentação, amores, arquitetura, trabalho, artefatos, técnicas, botânica, lingüística, enfim, tudo que nos recomendam investigar e fazer. Eu queria estar junto deles, viver com cada povo como vivi com os Suruí. Fico imaginando como eu gostaria de morar nas Ilhas Trobriand, espiando e seguindo os passos de Malinowski, como queria falar a língua dos Nuer e viver seu quotidiano, como seria fascinante seguir a magia dos Azande, com Evans-Pritchard, ou como Lydia Cabrera poderia me apresentar aos babalaôs e mães de santo cubanos, com suas histórias extraordinárias e suas receitas para o bom viver. Cada livro é uma outra vida minha, que eu gostaria de experimentar e conhecer, são mundos muito completos. Entre os mais modernos, há tantos antropólogos densos. Gosto demais de Maurice Godelier, por exemplo. Mas são tantos, que nem dá para ficar falando de cada um. Aqui no Brasil e na América do Sul há livros e pesquisas admiráveis.
Mas tenho a sensação de que os antropólogos do fim do século XIX e primeira metade do século XX dedicavam-se com uma garra invejável à busca do conhecimento. Nós também, mas estamos sempre tão tomados pelo envolvimento com a situação social, com a luta pelas terras, pelo desenvolvimento sustentável, pela floresta e ambiente, passamos a maior parte do tempo - e acho que é preciso - estudando com os índios soluções para a saúde indígena, para a afirmação da cidadania dos povos, para a invenção de um sistema educacional apropriado, que lá se vai o nosso tempo, e a pesquisa sistemática anda mais devagar. Hoje, os próprios índios estão se expressando e a nossa forma de investigar metamorfoseia-se: fazemos parte de sua equipe. Quando eles desenham e fazem quadros de cada sistema de parentesco, ficamos boquiabertos. O que antropólogos e mesmo Lévi-Strauss levam anos para decifrar, eles fazem em dois dias, para as escolas utilizarem como material de leitura.

A questão indígena no Brasil, o desenvolvimento da cidadania indígena, evoluiu da maneira que você imaginava?
Sobre os índios desabam todos os dramas da desigualdade brasileira, e aprende-se muito sobre o país e sobre o processo de apropriação indébita de recursos, terras, poder, por grupos privilegiados, que vão avançando no jogo político, são eleitos graças à acumulação primitiva desordenada que amealharam. Participei intensamente da luta pela demarcação das terras indígenas brasileiras, durante a ditadura e depois, sobretudo em Rondônia e Mato Grosso, na região do Polonoroeste, opondo-me à devastação dos recursos ambientais, à exploração ilegal e predatória de madeira e minérios. Nessa atuação, e com a perspectiva de economista, que é a minha primeira formação profissional, fui vendo concretamente como os índios têm um embate com o estado e o sistema econômico, e como conquistam seu espaço e cidadania só através de um movimento social crescente. Basta pensar na devastação da floresta em Rondônia, nos bilhões de dólares de madeira de lei extraídos ilegalmente, e que beneficiaram alguns políticos ou grupos econômicos, acentuando a desigualdade brasileira, quanto à propriedade e à renda. Numa entrevista como essa, não vou dar nomes, o que fiz muitas vezes - mas é possível saber, e víamos, quem eram os políticos ou grupos econômicos poderosos, influentes nos meios de comunicação, que invadiam as terras dos Nambiquara, dos Uruéu-au-au, dos Zoró. Como sabemos por que foi tão difícil a recente demarcação dos Macuxi em Roraima, pois para esse estado mudaram-se grupos econômicos do sul do país. Outro exemplo é a soja que ameaça os povos do Xingu. Hoje, há mais forças difusas contra os índios, é menos simples identificar os grandes nomes que os prejudicam. Mas já existem levantamentos precisos sobre invasões e seus titulares, por exemplo sobre a mineração em terras indígenas, sobre as hidrelétricas, estradas, obras em terras dos índios.

Mas houve avanços?
A cidadania indígena, nesse quadro, avançou. Há centenas de organizações indígenas, um movimento nacional, organizações de professores, agentes de saúde, há direitos firmados, como o direito às línguas, culturas, a educação diferenciada multilíngüe e multicultural. Os povos indígenas falam por si, com autonomia, embora sempre enfrentando oposição e cobiça alheia. Novidade boa, também, em muitos povos, é o desejo de manter o que lhes é próprio, as tradições antigas ou reinventadas, como através da escrita, dos livros, da arte, da música. E o desejo de viver e crescer - a população vem aumentando a taxas altas, que em alguns povos atingem 5%.

Qual o seu envolvimento atual com as populações e as causas indígenas?
Meu envolvimento com os índios toma várias formas, além do empenho contínuo em reafirmar os direitos lingüísticos, os direitos dos povos - que são anteriores aos estados e nações - e alguns princípios básicos de políticas públicas e política indigenista. A forma que me apaixona no momento é contribuir para a arte indígena - escrita, música, artes visuais, teatro, sobretudo as primeiras. Estou devolvendo aos povos indígenas os registros que venho fazendo de suas tradições e músicas há vinte e cinco anos. A tecnologia mudou, e agora é preciso digitalizar as antigas cassetes que correm o risco de deteriorar-se. Tenho centenas de horas gravadas, e estou passando para os cerca 15 povos com quem trabalhei os CDs que fiz com narrativas e músicas. Assim, as novas gerações ouvem velhos que já se foram, e podem usar o que é oral nas escolas. Tornei-me uma espécie de biblioteca vocal, um acervo, agora que os mais velhos são menos ouvidos. Acompanho os cursos de formação de professores indígenas, e sempre que possível organizo com eles o estudo de antropologia e literatura - em especial a tradição oral. Sou chamada, quando há recursos financeiros, para colaborar com os índios em seus projetos, em suas organizações. Gosto de interessá-los por livros, e vejo como gostam de escrever.
Quero finalizar dizendo que não fiz nada sozinha - sempre com equipes, com companheiros de trabalho, com Carmen, com os índios, com a militância nacional e do exterior, com indigenistas, com a nossa ong, o IAMÀ (Instituto de Antropologia e Meio Ambiente) e outras instituições, com o meu parceiro e ex-marido, Mauro Leonel, com múltiplos aliados dos índios. Na universidade, tive muito apoio da EAESP-FGV (Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getúlio Vargas) e do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo.

 

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol