Terra Magazine

 

Terça, 19 de setembro de 2006, 07h49

A revolta dos astrônomos e a queda de Plutão

Antonio Luiz Monteiro Coelho da Costa

A idéia apresentada pela comissão de planetólogos (leia o artigo anterior) não foi bem recebida no congresso da UAI, mas o debate trouxe uma emenda pior que o soneto. Pela resolução final, os corpos do Sistema Solar se dividem em a) "planetas", b) "planetas anões" e c) "pequenos corpos". Os primeiros são definidos como corpos celestes em órbita "em torno do Sol", redondos e "que tenham limpado a vizinhança em torno de sua órbita".

Plutão, por essa definição, perde o título de planeta, pois há em sua região muitos outros objetos e assim não "limpou a vizinhança". Assim, o Sistema Solar foi reduzido a oito planetas e as tradicionais frases mnemônicas terão de ser revisadas. Quem sabe, "Minha Vó Tem Muitas Jóias, Só Usa Nua"?

Todos os corpos que cumprem os dois primeiros quesitos, mas são promíscuos demais para o terceiro, ou seja, compartilham sua região com muitos outros corpos (como Ceres, parte do cinturão dos asteróides, ou Plutão e "Xena", que pertencem ao cinturão de Kuiper) caíram na "segunda divisão".

O resto (asteróides, cometas etc.) continuou a ser o resto. Astros similares que giram em torno de outras estrelas que não esta estrelinha amarela de classe G2V e magnitude +4,83 que nos alumia foram deixados de lado, bem como aqueles que vagam à solta no espaço interestelar.

Segundo Owen Grigerich, presidente da comissão que criou a proposta original, o resultado se deveu a uma "revolta" dos dinamicistas - astrônomos que estudam o movimento e os efeitos gravitacionais dos corpos celestes. Para estes, a estrutura do corpo em si é menos importante do que a maneira como ele, supostamente, se formou.

Conforme acredita hoje a maioria dos astrônomos, os planetas formaram-se pela agregação gradual de corpos pequenos, chamados planetesimais, em órbita de uma estrela, semelhantes aos asteróides e cometas de hoje. Estes seriam, portanto, "abortos" que não chegaram a completar o processo de formação planetária. Planeta seria apenas o corpo formado por planetesimais que chegou a absorver ou expulsar os demais de sua região, dominando-a gravitacionalmente.

Uma dificuldade em usar esse conceito, já escrevera Gibor Basri, é que essa é uma teoria que a observação direta ainda não pode confirmar. Não se sabe com certeza se esse é de fato o único mecanismo de formação de planetas.

O fato de existirem estrelas - objetos puramente gasosos - em órbita em torno de outras estrelas sugere que objetos grandes podem se formar sem a necessidade de planetesimais. Não se sabe com certeza se o próprio Júpiter tem sob seu manto gasoso um núcleo rochoso formado por planetesimais. Com o conhecimento de hoje, a observação não basta para garantir como um corpo se formou.

- Em nossa proposta inicial - disse Gingerich à BBC -, tomamos a definição de planeta que os geólogos planetários queriam. Os dinamicistas se sentiram terrivelmente insultados por não terem sido consultados. Por alguma razão, havia um número suficiente deles para criar um grande protesto e destruir a integridade científica da proposta anterior. Havia 2,7 mil astrônomos em Praga (onde ocorreu a reunião da IAU) durante o período de dez dias. Aqueles que discordaram e estavam determinados a bloquear a outra resolução apareceram em maior número do que os que acharam "bem, esta é apenas uma das muitas coisas em que a IAU está trabalhando" e não lhe deram importância.

O próprio Gingerich estava nos Estados Unidos e perdeu a votação, disse que gostaria da introdução, no futuro, de votos eletrônicos. Alan Stern, responsável pela missão New Horizons da NASA, uma sonda enviada a Plutão, concordou:

- Eu não pude votar porque eu não estava no plenário, em Praga, na quinta-feira 24. De 10 mil astrônomos (no mundo), só 4% estavam naquele recinto. Não se pode alegar consenso.

De fato, a resolução final pode ter facilitado a tarefa de decorar a lista dos planetas, mas deixa muito a desejar em termos de lógica. Aristóteles podia pensar que o Sol girava em torno da Terra, mas ainda tem algo a ensinar a astrônomos modernos sobre lógica. Fazer de "planeta anão" uma categoria distinta de "planeta" é logicamente tão absurdo quanto dizer que um homem anão não é um homem propriamente dito.

Ainda mais que a "anãozice" é definida não pelo tamanho, mas pelo critério não claramente definido da "limpeza" da órbita. E se fosse descoberto um corpo maior que Mercúrio na região de Plutão, ou dentro de um cinturão de múltiplos corpos em outro sistema estelar, haveria "planetas anões" maiores que um dos "planetas" propriamente ditos?

Quão "limpa" deve ser a órbita? A definição não explica. Não há "limpeza" absoluta. Como apontou Stern, Terra, Marte, Júpiter e Netuno também não "limparam" totalmente as suas zonas orbitais. Há cerca de dez mil asteróides que cruzam a órbita da Terra. Júpiter, por sua vez, é acompanhado de cem mil asteróides "troianos" (que seguem a órbita do planeta). Se Netuno tivesse "limpado" a sua zona, Plutão não estaria lá. Em outros sistemas solares, deve haver outras situações ainda mais complicadas.

E Sedna? Presume-se que não tenha "limpado" sua região e que haja outros corpos semelhantes na mesma região, mas nenhum foi, até agora, descoberto. Até prova positiva em contrário, poderia ser considerada um "planeta" propriamente dito, embora seja bem menor que Plutão.

E os planetas de outros sistemas solares? Por grandes que sejam, não há como determinar, com a tecnologia atual, se de fato "limparam" ou não suas regiões. E os planetas dispersos no espaço interestelar?

O resultado lembra o "Empório celestial de conhecimentos benévolos" no qual, contava Jorge Luis Borges, um sábio chinês dividia os animais em a) pertencentes ao Imperador, b) embalsamados, c) amestrados, d) leitões, e) sereias, f) fabulosos, g) cães vadios, h) incluídos nesta classificação, i) que se agitam como loucos, j) inumeráveis, k) desenhados com um pincel finíssimo de pêlo de camelo, l) etcétera, m) que acabam de quebrar o vaso e n) que de longe parecem moscas. Soa como a piada segundo a qual o camelo é um cavalo projetado por uma comissão - por sinal, injusta para com os camelos.

Compreensivelmente, muitos astrônomos decidiram não aceitar a definição votada no congresso da UAI de 2006. Alan Stern organizou uma petição assinada por 300 cientistas - número equivalente ao dos que votaram pela definição agora oficial (cerca de 300, com a oposição de 91).

Os abaixo-assinados denunciaram a decisão da UAI como "motivada por questões políticas e não científicas", comprometem-se a não usar a nova definição em seus artigos e livros-textos e propõem organizar uma conferência para 2007 para encontrar uma definição melhor. A última palavra sobre o assunto ainda não foi dada.

Embora pouco relevante do ponto de vista da astronomia propriamente dita, a disputa levanta questões interessantes do ponto de vista da política, da sociologia e da filosofia da ciência.

Politicamente, convém ditar definições científicas por votação? A consistência lógica e semântica não deveria prevalecer sobre a opinião da maioria? Ante a abstenção ou ausência da maioria dos especialistas e a falta de um consenso, os restantes têm o direito de impor conceitos a toda uma geração de cientistas e estudantes? Não deveria haver um quórum conveniente? Na falta de consenso razoável, não seria melhor ser paciente e deixar o tempo resolver a disputa?

Sociologicamente, até que ponto as opiniões dos cientistas são governados por vaidades e interesses pessoais? Como, por exemplo, seu envolvimento com uma determinada "panelinha" fundada em torno de uma sub-especialidade como a dinâmica planetária, ou um projeto de exploração como o New Horizons?

Filosoficamente, não é duvidoso fundar uma definição de uso geral sobre uma teoria cosmogônica - a da formação de planetas - que ainda não foi definitivamente demonstrada, em vez de recorrer a dados positivos, empiricamente verificáveis, como tamanho e forma?


Antonio Luiz M. C. Costa formou-se em engenharia de produção e filosofia, fez pós-graduação em economia e é um entusiasta das ciências sociais e naturais. Ex-analista de investimentos, atua no jornalismo desde 1996.
 

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol