
Amilcar Bettega
Como que para fazer avançar as coisas, criar movimento, despegar-se da imagem cristalizada; como quem emerge de um mergulho profundo, e num misto de esforço e alívio solta um grito e busca desesperadamente o ar; como se o vidro quebrasse, como se as paredes do aquário se rompessem e a água jorrasse em todas as direções. Porque é preciso avançar, é preciso sair disso que imobiliza, que mantém no fundo, que cala.
E de repente tudo é de uma evidência cristalina. Agora Sophie mexe muito com as mãos mas sem fazer gestos amplos, por vezes apanha o cinzeiro ou a carteira de cigarros. Acende um cigarro. Depois outro, e mais outro. Os sons do café, a fumaça, uma certa penumbra, as mil e uma palavras que sobem acima das cabeças como bolhas em direção à superfície, tudo isso a envolve com um véu difuso.
Mas aí está: Sophie agora ergue o véu, trespassa-o, suas palavras trespassam-no. Agora suas palavras vibram entre a fumaça expirada com barulho e a pausa para recobrar o fôlego, e de novo as palavras, suas palavras vibram, ganham cor e abrem espaço em meio à fumaça cujas partículas se revolvem em redemoinhos lentos e que elevam as palavras; elas sobem como que empurradas pelo atrito de sua superfície com as partículas de fumaça, é quase visível o roçar das palavras contra as partículas de fumaça, elas sobem, como que expulsas desde o ventre da fumaça:
"Tudo é tão claro. O filme. Tenho que fazer esse filme. Foi por isso que vim aqui. Agora está muito claro. Só esse filme pode me responder. Só depois de fazer esse filme é que posso pensar em viver outra vez. Só depois é que alguma coisa vai andar de novo..."
Sophie disse isso e calou. Por enquanto é tudo o que ela me permite saber. E não sei tampouco o quanto ela sabe.
Só sei que agora ela olha para fora do café. Olha através da parede envidraçada do café e lá fora há uma rua com árvores na calçada por onde as pessoas andam sob um sol generoso. Nos galhos das árvores, na superfície das folhas, um reflexo amarelo se agita com o vento. A fileira de árvores recorta a fileira de prédios que está logo atrás, onde predomina o cinza e uma linha arquitetônica de certa imponência.
As árvores são o primeiro plano, aplicado sobre esse fundo cinza que se abre, na parte superior, num céu amplo e azul. O recorte das árvores refletindo vivamente o sol em suas folhas, contra o plano dos prédios, cinzento e depois azul, dá profundidade à imagem. Árvore, prédio, céu, coisas que se tocam e se distanciam ao mesmo tempo, criando enormes espaços entre elas.
Árvore, prédio, céu. Por enquanto é tudo o que me é permitido ver. Não vejo ainda o que ela vê.
Vejo só que ela está lá. Sophie está lá e olha para fora do café. Árvore, prédio, céu. Árvore-prédio-céu. Volumes superpostos que se afastam e logo se encontram em uma só imagem chapada. Então um ponto qualquer do céu, o ponto mais distante (ainda que seja um plano, ainda que todos os pontos estejam à mesma distância), e o olhar recua, céu-prédio-árvore, o olhar é como que sugado através da parede de vidro, e a imagem se faz outra vez cristalina sobre a parede envidraçada do café, que ganha corpo, que isola.
Já não há mais árvores nem os galhos das árvores refletindo o sol em suas folhas. Já não há mais os prédios nem o céu amplo e azul. Impossível ver além desse rosto, dessa mão que apóia o queixo. Impossível ir além desse rosto que olha, esse rosto sobre o qual se superpõem, sob a forma de um arco e numa escrita invertida, as letras brancas que formam o nome do café.
Terra Magazine