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Segunda, 25 de setembro de 2006, 07h42

De Paris: Happy slapping

Fernando Eichenberg

A delinqüência em geral, segundo as estatísticas oficiais, têm diminuído na França. Mas os atos de "violência voluntária contra a integridade física" estão em alta.

A violência contra os indivíduos aumentou em 2,1% de 2002 para 2003, em 0,7% de 2003 para 2004 e em 5% de 2004 para 2005. O recente caso de dois policiais massacrados por 20 delinqüentes num subúrbio de Paris, e a polêmica provocada pelas declarações do ministro do Interior, Nicolas Sarkozy, que acusou a Justiça de laxismo, mostram que o tema da segurança será, mais uma vez, um dos preferidos da campanha eleitoral presidencial que se anuncia.

Neste contexto, um fenômeno passou a receber maior atenção dos franceses. Jovens têm se aperfeiçoado numa ludomania bem diversa da moda do PlaySation, X-box ou Game Boy. O jogo da vez é o happy slapping (tapa feliz).

As regras são simples: agredir alguém ao acaso, filmar a cena com a minicâmera do telefone celular e depois difundir as imagens na Internet. Embora a ausência de estatísticas oficiais, foi constatado desde o início do ano um aumento de casos desta "brincadeira" na França, a ponto de preocupar pais, professores, a polícia, magistrados e o governo.

O governo decretou "circunstância agravante" para casos de happy slapping, considerados por ele como "intoleráveis" por acrescentar a humilhação à violência. Com a nova legislação, um estudante de 19 anos foi condenado pelo tribunal correcional de Orléans a 80 horas de trabalho comunitário por ter participado da agressão a um menor, praticada nos moldes do happy slapping.

Os exemplos proliferam. Ao descer do ônibus escolar na cidade francesa de Gigean, na região de Héraut, um jovem de 13 anos, escolhido ao acaso, foi agredido por um bando de adolescentes. Os agressores não visavam o roubo ou algum tipo de acerto de contas, mas filmar a cena, com o uso de seus telefones celulares, e depois exibir as imagens na Internet.

Em Yvelines, próximo a Paris, fato semelhante ocorreu com uma professora da escola de Porcheville, agredida por um jovem de 18 anos, numa cena filmada por um cúmplice com o celular. As cenas da violência, difundidas depois pela Internet, fizeram sucesso entre os jovens da cité de Val-Fourré, onde moram os agressores-videastas.

O happy slapping surgiu em 2004, na Grã-Bretanha, numa reação às novas regras de comportamento público dos jovens incluídas no ato governamental conhecido por Anti-Social Behaviour Act (derivado do Crime and Disorder Act, de 1998). As medidas disciplinam com maior rigor desde casos de desordem pública, ofensas verbais e racistas, vandalismo, prática de grafitti em muros, distúrbios em bandos até o uso de bicicletas nas calçadas e de consumo de drogas e de bebidas alcóolicas por menores de idade.

Segundo o sociólogo Christian Papilloud, professor de Sociologia da Cultura na universidade alemã de Lüneburg e um dos raros estudiosos do tema (sobre o qual prepara um livro a ser lançado na França no ano que vem), o happy slapping começou na forma de manifestações de incivilidade e de provocação, sem abuso de violência, contra a série de leis implementadas pelo governo britânico.

No entanto, aos poucos a prática migrou para outros países (Alemanha, Suíça e Estados Unidos) e, em 2006, derivou para atos mais violentos, principalmente na França. Foram registrados casos de happy burning (queima de carros com o único objetivo de filmar e depois exibir as imagens via Internet), de vídeos de estupros coletivos ou de assaltos.

"O que menos conta é o ato da violência física em si, mas sua encenação. A violência será satisfatória ou não em função da cena, das reações da vítima, de seu medo e de seu pânico, o que será depois avaliado na difusão pela Internet, em fóruns de discussão ou mesmo por meio de concurso de melhores clipes", disse Christian Papilloud, em entrevista para a matéria sobre o tema que escrevi recentemente para a revista Época.

Nesta banalização da violência, os agressores buscam "Laranja Mecânica na potência dez", diz ele, referindo-se ao filme de Stanley Kubrick, de 1971, baseado no romance homônimo de Anthony Burgess.

No filme, Alex (Malcom McDowell) é o líder de uma gangue de adolescentes que vagueia pelas ruas cometendo atos de brutalidade por pura diversão e sarcasmo. Detido, o delinqüente é submetido a um inovador programa de recuperação do governo, que o obriga a assistir repetidamente filmes com cenas de extrema violência, sob efeito de drogas que provocam náuseas e vômitos.

No happy slapping e suas derivações mais extremas, o ato de violência é apenas um meio de se obter divertimento, observa Papilloud: "Os autores são muito menos sensíveis ao aspecto violência e ao aspecto físico. Para tornar a cena mais interessante a vítima deve exprimir sua dor da pior maneira possível. Isso se torna algo extremamente cínico, pois não se joga mais com a fronteira do corpo do outro. O objetivo é ficar no limite, não forçar e nem relaxar, mas manter a tensão permanente. O que está em jogo é o medo da vítima e não a força do autor da violência".

O happy slapping ainda é um fenômeno marginal, mas, alerta o sociólogo, evidencia um novo comportamento violento e social, influenciado pelo uso da tecnologia. Durante as recentes manifestações dos estudantes franceses contra o Contra Primeiro Emprego (CPE), os chamados casseurs (delinqüentes responsáveis pelo quebra-quebra) passavam a encenar o vandalismo quando notavam que estavam sendo filmados, e as câmeras dos celulares estavam sempre prontas para imortalizar alguma violência maior.

"Cada vez mais são usados objetos tecnológicos para interagir com a realidade. Esta mediação tecnológica possibilita excluir a idéia de solidariedade e de reciprocidade, e relativizar enormemente o caráter humano das relações, relativizar o outro e seus atos. Não há mais respeito pelo outro", nota Papilloud. Para ele, estamos face a uma situação de mudança bastante radical: a construção uma nova ordem social que abandona progressivamente o valor de solidariedade nas relações.

Michel Redon, vice-procurador da República de Nice, região onde ocorreram casos de happy slapping, denuncia a falta de uma noção moral ou ética na disponibilidade do objeto tecnológico. "A violência não surgiu com o aparecimento dos telefones celulares que fazem fotos, ela sempre existiu, mas estes aparelhos permitiram seu agravamento. Os agressores, agora, em vez de apenas se vangloriar contando aos outros seus atos de violência, podem mostrá-los em filme. Há uma valorização da violência graças à imagem", disse, na entrevista feita para a mesma reportagem.

O magistrado é bastante amargo na análise da sociedade deste início de século, que, segundo ele, valoriza a tecnologia em detrimento de valores humanos e peca pela falta de reflexão ética. Neste contexto, o happy slapping é um produto da violência pela violência.

Quando indagados por que razão cometem estes atos, a maioria dos jovens responde com um lacônico "não sei". O ato em si não é portador de nenhuma reivindicação social ou política, trata-se de mero divertimento. "É a tradução de uma grande angústia de jovens com seu próprio nada. É um nada profundo de pessoas capazes de se valorizar somente pelo olhar dos outros, seja no vídeo do happy slapping ou com tênis de marca", diz o vice-procurador.

Além disso, aponta ele, a imagem absolve todo o sentimento de culpabilidade do agressor: "No videoclipe, o sofrimento da vítima mistura o real e o virtual. Essa confusão da realidade, do poder da imagem, faz com que se chegue a este tipo de violência". Por causa do happy slapping, escolas da Alemanha proibiram o uso de aparelhos celulares pelos alunos. A Suíça cogita da mesma interdição.

Proibir poderá amenizar, mas não solucionará o problema. Para Christian Papilloud, a origem do perigoso jogo está na relativização cada vez mais radical das referências de um cotidiano que perde todo sentido para alguns jovens: "Para eles, ir à procura de um emprego ou estuprar alguém se torna quase a mesma coisa. É isto que revela o happy slapping na sua forma mais violenta".


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há nove anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros.

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