Murilo César Ramos
A intensidade da interferência das instituições de comunicação social - imprensa, rádio e televisão - nos processos político-eleitorais é diretamente proporcional à intensidade da ameaça que os resultados daqueles processos possam representar ao êxito continuado dos seus negócios.
O relativo equilíbrio eleitoral que o jornalismo da TV Globo ostenta nas eleições desde 2002, por exemplo, não é obra individual de jornalistas conscientes e objetivos como, por exemplo, Carlos Augusto Schroder e William Bonner, e sim decorrência do movimento geral da política brasileira em direção ao centro do espectro ideológico, que começou a se consolidar desde o primeiro mandato de Fernando Henrique Cardoso.
Quanto mais ao centro e à direita a ideologia, mais estabilidade para o mercado, menos ameaças para os negócios. Quanto mais ao centro e à direita a ideologia, mais rotineiras as disputas eleitorais, que passam a se remeter quase só a opções por pessoas do que por partidos e programas de governo que estejam em pontos divergentes do espectro ideológico.
Tomemos para cenário desta breve análise as duas últimas eleições presidenciais.
Desde a constituição do chamado campo majoritário, em meados dos 1990, o Partido dos Trabalhadores fez clara opção pelo centro ideológico, processo que culminou em 2002 na aliança estratégica à direita com o Partido Liberal, ao qual tinha se filiado o empresário José Alencar para ser candidato a vice-presidente na chapa de Luiz Inácio Lula da Silva.
Naquele momento, o PT promoveu uma ruptura com sua ideologia de esquerda original, nascida operária e sindical, e ecleticamente constituída no tempo por diferentes correntes marxistas e cristãs-sociais.
Durante a campanha eleitoral, pressionada pelas pressões especulativas do mercado financeiro globalizado, a candidatura de Lula avançou mais um passo, este inesperado, na direção da centro-direita, ao firmar a Carta aos Brasileiros, pela qual comprometia-se com o ideário macroeconômico neoliberal, monetarista e fiscalista.
Eleito Lula, o PT aprofundou sua caminhada à direita, ao montar maioria parlamentar com o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) e com o Partido Progressista (PP), que somaram-se aos aliados tradicionais do PT, de centro-esquerda, o Partido Socialista Brasileiro (PSB), o Partido Comunista do Brasil (PC do B) e o Partido Democrático Trabalhista (PDT).
Agora em 2006, em sua recandidatura à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva, premido pelo desgaste sofrido por seu partido ao longo do chamado escândalo do mensalão (desgaste agravado nessa reta final de campanha pela tentativa de compra, por quadros petistas, de dossiê que incriminaria José Serra e Geraldo Alckmin na compra superfaturada de ambulâncias, conhecido como o escândalo das sanguessugas), descolou do PT e apresentou-se ao eleitorado de modo claramente suprapartidário.
Ao agir assim, ele confirma a tendência de a política centrista fixar-se mais em nomes do que em partidos e programas, o que é verdadeiro também para seu adversário principal, Geraldo Alckmin, do PSDB coligado com o PFL. É Lula contra Alckmin, e não PT contra PSDB, visto que programaticamente aqueles dois partidos, nas suas recentes práticas de poder, assemelharam-se muito, inclusive no que diz respeito ao que antes, aparentemente, os diferenciava: o apego à ética na política como o valor republicano mais essencial; o valor que separa os que chegam ao poder com o desejo sincero de promover o bem comum, e não apenas o seu próprio bem.
Seja locupletando-se pecuniariamente, pela rendição à corrupção, seja, e ainda acredito que residiu aí o problema principal do PT, colocando mandatos, carreiras políticas e projetos paroquiais de poder à frente da coisa pública.
Com a política assim desideologizada, assentada sobre o centro mas claramente inclinada à direita, as instituições de comunicações podem despreocupar-se com seus destinos empresariais e dedicar-se a cobrir a política e os processos eleitorais de forma atomizada, centrada em supostas qualidades e supostos defeitos dos candidatos individualmente. A objetividade jornalística é tão mais possível quando não se sintam as empresas jornalísticas ameaçadas em seus interesses vitais.
Objetividade à parte, as instituições de comunicação permanecem sempre coerentes com tais interesses, e não poderia ser de outra forma. Os movimentos e Lula e do PT para o dentro e à direita continuam a ser vistos por elas como táticos, ou seja, circunstanciais, ao invés de estratégicos, ou seja, estruturais. Dentre essas instituições, algumas são mais transparentes no que toca a essa visão.
Destaco, no segmento impresso, Veja que, no seu anti-esquerdismo, chega a ser panfletária, o que aprecio mais como qualidade do que como defeito, visto que ela não tenta enganar ninguém, e O Estado de S.Paulo, jamais panfletário, sempre muito consistente com seu conservadorismo, e por isso razoavelmente transparente na sua suposta objetividade.
Já O Globo, se não descamba para o panfletarismo ostensivo de Veja, também não assume o conservadorismo transparente do Estadão. Veste uma roupagem de objetividade mais difícil de ser deslindada. Objetividade que, reconheça-se, é mais consistente do que a da deliberadamente errática Folha de S.Paulo.
A Folha é uma espécie de Chacrinha do jornalismo impresso brasileiro. Desde a implantação do discutido Projeto Folha, ela mais confunde do que explica, tamanho o seu ziguezaguear ideológico. Nenhuma instituição de imprensa brasileira leva mais a sério o bordão de que jornalismo é bater, nos governos principalmente. Mas, só bater por vício, como aparenta ser o caso daquele periódico, não necessariamente conduz à virtude.
Sobre a IstoÉ não vale a pena muito falar, exceto para dizer que Domingo Alzugaray talvez jamais devesse ter abandonado a carreira de galã de fotonovela, iniciada nos anos 50, mas cujo ponto alto, para mim, pelo menos, foi seu desempenho cinematográfico em Meus Amores no Rio, filme de 1959 em que disputou o amor da adorável turista argentina Suzana Freyre com Jardel Filho e Fábio Cardoso.
Resta Carta Capital, a diferente, mas competente revista de Mino Carta. Diferente porque, me parece, mistura em doses equilibradas socialismo com liberalismo. Não conheço Mino pessoalmente, mas ele às vezes me parece herdeiro de Piero Gobetti, de Guido Calogero, de Palmiro Togliatti, de Norberto Bobbio, e mesmo um pouco de Antonio Gramsci - os fascinantes italianos que, cada um a seu modo, fizeram história no século XX com o que, nos anos 1970, tomou, na política, a forma de um instigante eurocomunismo.
Mas é na radiodifusão, na televisão principalmente, porque a mais conspícua e influente força política do campo da comunicação, que a lealdade das instituições de comunicação aos seus interesses vitais se manifesta com mais vigor.
Trata-se afinal do maior mercado setorial. Mercado em que pontifica comercialmente a Rede Globo de Televisão. Rede Globo que, na política, só enfrenta alguma competição da Rede Bandeirantes, visto que Record e SBT estão mais preocupadas, respectivamente, com seus evangelismos religioso e consumista. Tomemos, pois, a Globo como paradigma.
Ela é paradigmática porque poucas instituições de comunicação no capitalismo estiveram sempre tão envolvidas com a política e, em especial, com a política eleitoral. A Globo não quis eleições diretas nos estertores da ditadura, como quis evitar, por meio da fraude, a eleição de Leonel Brizola para governador do Rio de Janeiro em 1982.
A Globo não queria Lula em 1989, por isso optou por Fernando Collor de Mello. Antes, porém, da opção clara pelo instável alagoano, a Globo quis Mário Covas e até Guilherme Afif Domingos. De Mário Covas a Globo arrancou um hoje célebre discurso, em que o estatizante tucano assumia nova fé no livre-cambismo, apregoando a necessidade para o Brasil de um choque de capitalismo (um pouco meio assim como Geraldo Alckmin apregoa hoje um certo choque de gestão). A Globo amou Fernando Henrique Cardoso, que correu pouco perigo contra Lula, e a Globo acolheu com ressalvas, em 2002, o inarredável favoritismo de Luiz Inácio Lula da Silva.
Mas, nem dezenas de Cartas aos Brasileiros, nem um ministério só de Henriques Meirelles; nem mesmo a adesão do PFL à base de sustentação de um segundo governo Lula, arredariam o fato de que para a Globo, a Band, o SBT, a Record, a Folha, a Veja, o Estadão, e o Globo, um Geraldo Alckmin será sempre um candidato mais seguro, porque mais liberista, mais elitizado, elitizante e elitista. Este é o limite último da sempre mítica objetividade jornalística.
Comunicação é poder. Volto ao truísmo clássico, para concluir esta análise sobre a relação entre comunicação e política no atual momento político-partidário brasileiro. A política, por sua vez, é o exercício do poder em seu estado mais puro. Comunicação é, portanto, política. Mas, tanto quanto a política pode estar distante da lealdade essencial à coisa pública, podem igualmente estar as instituições de comunicação.
O dinheiro é a razão de ser mais vital dos negócios, inclusive dos negócios da comunicação. O dinheiro não deveria ser a razão vital da política. Mas o dinheiro costuma ser também a razão vital da política. O dinheiro poderá domingo derrotar Lula, porque Lula e muitos de seus mais fiéis companheiros, não souberam, ou não quiseram, isolar a política do dinheiro.
Democracia não se faz sem dinheiro.
Mas só com dinheiro não se faz democracia.
Comunicação não se faz dinheiro.
Mas só com dinheiro não se fazem na comunicação instituições democráticas.