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Sexta, 29 de setembro de 2006, 07h51

As cartas do domador - Capítulo 1

Folhetim de Tabajara Ruas

O cavalo era um reino, o arnez rutilante de pratas, um trono... (Alfredo Varela)

Onde se conta os primeiros movimentos da tumultuosa aventura do general Netto para fundar um país.

No sul, há muito tempo...

1

Netto vai atravessando a cavalo os campos do Taim, perto da fronteira do Brasil com o Uruguai, uma região conhecida como os Campos Neutrais.

Vai montado num cavalo preto e puxando mais dois, um tordilho branco e um malhado.

É o quente verão de 1835.

Nesse verão, Karl Marx tinha 19 anos de idade. Netto, ao que parece, 32. Marx ainda era estudante. Netto ainda era coronel.

Por todo lado, dunas e vento. Netto cantarola:
- Eu não sou filho daqui,
Sou filho de lá de fora;
Ando cumprindo o meu fado;
Acabando, vou-me embora.

Marx ainda não tinha escrito "O Capital". Netto ainda não tinha fundado um país.

2

Não muito longe dali...

O soldado Henrique raspa a barba com uma navalha, enquanto se olha num caco de espelho. Está na torre de vigia do Posto Militar.

Henrique tem um binóculo pendurado no peito nu. Henrique é loiro e bonito. O vento agita seus cabelos.

Uma velha bandeira do Império tremula e estala espetada num pau.

Dentro da paliçada de troncos há apenas uma construção: o Alojamento, um casebre de madeira e teto de palha, baixo, de onde vem acordes de violão e uma voz adocicada:
- Tenho um cavalo escuro
Para andar de madrugada;
Marcha, meu cavalo,
Vamos ver a namorada.

Em um pequeno curral, oito cavalos. Dois cães vagabundeiam no pátio.

Bem no centro, um moirão, ao qual está Índio Torres acorrentado pelos pulsos, sentado no chão com as pernas cruzadas.

Índio Torres é magro e musculoso. Veste apenas um chiripá vermelho, sujo e em farrapos. Os longos cabelos negros estão presos com uma banda de pano, a pele é queimada de sol e tem o olhar perigoso.

O corpulento soldado Amâncio, sujo de sangue, está carneando uma vaca, pendurada de um poste. Um balde está se enchendo com o sangue que pinga da carcaça da vaca.

O elegante Sargento joga tava com o Cabo. O Cabo é alto e desajeitado.

O jogo de tava é simples: um osso é o instrumento. A cancha é de quatro ou cinco metros. Um risco no chão - a raia - é o ponto de referência para quem atira o osso. O jogo requer boa pontaria e concentração.

É a vez do Cabo jogar. Ele tem o osso na mão. Faz um cálculo e atira.

O osso gira no ar dando voltas em torno de si mesmo. O osso cai quase sobre a raia. O Cabo vibra com seu lançamento. O Cabo avança gingando em direção ao Índio. A voz que vem do Alojamento continua, mais doce:
-Tenho um cavalo escuro
do andar de saracura,
Chinoca, vamos embora
Que a noite está mui escura.

É a vez do Sargento jogar. Concentrado, imóvel: vai lançar o osso quando o soldado Henrique se corta com a navalha, um pequeno corte no rosto.

O caco de espelho cai lá da altura da torre até o chão de areia fofa e se estilhaça.

O ruído atrapalha o Sargento, que olha irritado para Henrique. Henrique pega com o dedo a gota de sangue que escorre no rosto e lambe.

Amâncio comenta com surda maldade:
- Sete anos de azar.

O Sargento se concentra novamente para jogar o osso.

O Cabo aparece por trás de Índio Torres. O Cabo abre a calça e começa a urinar sobre o Índio, que dá um pulo para o lado e fica em alerta, com ar de fúria. Gargalhada de Amâncio.

O Sargento perde outra vez a concentração e se irrita. O Cabo se afasta, com exagerado ar galhofeiro, zombando do ódio no olhar do Índio.

A bandeira estala, veemente.

O Sargento, novamente concentrado, se prepara para fazer o lançamento do osso.

Henrique pega o binóculo e olha. Vê um cavaleiro aparecer ao longe, puxando dois cavalos.
- Sargento, Sargento! Vem gente.
- O próximo merda que der um pio vai ser estaqueado e enfiado no couro de vaca durante o resto do dia.

Silêncio de todos. Expectativa.

O Sargento joga o osso, que sai rodopiando.

3

No horizonte da lagoa Mirim, o Posto Militar é uma paliçada de troncos pontudos no alto duma duna, um lugar desolado e infinito.

Netto pára na elevação e olha a solidão em volta. Murmura para o cavalo negro:
- Fascínio, chegamos no fim do mundo.

4

O osso jogado pelo Sargento cai exatamente sobre a raia!

O Sargento se rejubila com o lançamento, procura o olhar do Cabo para se vangloriar, o Cabo está olhando pela grande porteira aberta: três pontos se movem no horizonte, vindo na direção do Posto.

O Sargento muda de expressão, se concentra e fica observando o estranho se aproximar. O Cabo se coloca a seu lado.

Henrique dobra e guarda a navalha. Empunha o mosquetão. Engatilha. Amâncio pára de carnear a vaca e fica atento.

Gritos de quero-queros anunciam a chegada. No grande silêncio se ouve o som das patas dos cavalos chegando.

O soldado Catarino sai do Alojamento, empunhando a guitarra. Deixa-a encostada na parede. Empunha o mosquetão e o engatilha com um estalo seco.

5

Netto entra imponente pelo portão da paliçada. Está em roupas civis, com um pala leve esvoaçando. Monta o cavalo negro, e puxa o tordilho e o malhado.

Netto vê Índio Torres, preso ao poste pelas correntes, sentado no chão, de pernas cruzadas.

O Cabo e Catarino tomam uma distância prudente e deixam Netto cercado.

Netto pára em frente ao Sargento.
- Buenas, Sargento.
- Buenas...
- Ando a serviço, olhando cavalhada.
- Sim?
- E um assunto que eu tinha era achar um tratador de cavalo, um certo Índio Torres.
- Sim?
- Tem um índio ali...
- E daí?
- A verdade é que me disseram que ele estava aqui.
- E quem disse?
- Um passante.
- O índio é aquele mesmo. Mas dali não sai.
- E posso saber o que ele fez?
- O passante não lhe contou?
- Não me contou nada.
- E vosmecê, inda que mal pergunte, anda por estas bandas só atrás desse índio?
- Vou no Rincão das Carreiras. Me disseram que o Índio aparece por lá quando tem carreira. O que ele fez?
- Matou um soldado.
- Matou um soldado?
- Matou.
- Então não interessa. É pena. Dizem que ele é um baita tratador de cavalos.
- E é mesmo, mas agora tá pagando pelos pecados.
O Cabo sorrateiramente levanta a bota e a apóia na cabeça de Índio Torres.
- Tô pedindo pro sargento pra colocar esse índio no couro de vaca...
- Vosmecê sabe o que é o couro de vaca? - pergunta o Sargento.
- Se quiser esperar mais um pouquinho vai aprender - diz o Cabo.
- É só esperar ele terminar de carnear aquela vaca.
- Não, obrigado.
- Não vai demorar nada!- grita Amâncio.
- A gente enrola o vivente no couro recém carneado, e deixa ao sol secando, como se fosse charque... - explica o Cabo, com prazer no rosto - Não é, Índio? Ele conhece bem essas coisas. Isso é coisa de índio... O couro vai encolhendo, encolhendo... e os ossos vão estalando, estalando...

Catarino dá um riso nervoso. Netto toca na aba do chapéu e vai saindo a trote.

Catarino torna a mexer no mosquetão que faz outro estalo. Netto se paralisa. O Sargento e o Cabo dão risadinhas. Netto segue em frente sem olhar para trás.

O Sargento se aproxima de Índio Torres.
- Quem é o paisano?
- E eu sei?
- Estava te procurando.
- Muita gente me procura pra amansar cavalo.

O Sargento olha pensativo para Netto, que desce a lomba da coxilha e desaparece.

No próximo capítulo:
De como o General Netto, para espanto de todos, desafiou o cavalo do delegado.


» Veja trechos do filme
» Sobre as Cartas do domador

Leia os outros capítulos do folhetim:
» Capítulo 2
» Capítulo 3
» Capítulo 4
» Capítulo 5
» Capítulo 6
» Capítulo 7
» Capítulo 8
» Capítulo 9
» Capítulo 10
» Capítulo 11
» Capítulo 12
» Capítulo 13
» Capítulo final


Tabajara Ruas, escritor e cineasta, está concluindo seu segundo longa-metragem, O General e o Negrinho.

Fale com Tabajara Ruas: taba.ruas@terra.com.br
 

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