
Márcio Alemão
Estou muito deprimido. Nutria algumas esperanças de que o peso dos anos não havia me abalado. Julgava-me "antenado", informado, apto ao encontro e, quem sabe, até ao confronto com os jovens, com o moderno, com o novo. Qual o quê. Não passo de um velho mal humorado, totalmente despreparado para sorrir aos herdeiros do novo milênio.Assisti ao VMB 2006. Tentei manter a boca ligeiramente aberta, pronta ao sorriso ou até a sonoras gargalhadas. Ainda que tivesse andado distraído com outras coisas menos novas, aquele momento seria o grande momento para entender, sacar e aplaudir as variadas expressões da vanguarda, da modernidade. Ali naquele palco o novo estaria presente.
A boca foi se fechando e fui ficando, a cada fala, a cada textinho, a cada jogral entre Marcos Mion e Cazé, absolutamente constrangido. Senti, é sério, que em determinado momento fui tomado pelo espírito de Flávio Cavalcanti e minha vontade era chamar aqueles geniais e modernos apresentadores de embusteiros, farsas insignificantes, sub-produtos de uma matriz sem futuro falsamente moderna.
E nessa hora comecei a me sentir deprimido. Aqueles textos constrangedores não me faziam rir, enquanto a platéia e o país, claro, se esbaldavam. Eu estava errado. Aquilo é moderno. Para que se tenha uma real dimensão de minha senilidade, cheguei a afirmar, baixinho, só para mim, que a MTV, como um todo, era algo absolutamente dispensável. Caso de internação, não tenho dúvida. Como é que alguém pode imaginar o mundo sem a sua maior e melhor referência de modernidade?
Meu inconformismo chegou a tal ponto que tentei mudar completamente meu ponto de vista e passei a imaginar a MTV como uma ilha. Aquelas ilhas que a ficção literária e cinematográfica representaram tão bem ao longo dos séculos e que criam criaturas muito especiais. Tão especiais que não sobrevivem fora daquele habitat. Assim pensei levando em consideração os muitos seres especiais que de lá tentaram sair para brilhar em outras paragens. Thunderbird, Babi, além dos âncoras do VMB, Marcos Mion e Cazé.
O mundo real e velho não está preparado para eles. Mas ainda bem que a sempre jovem ilha os recebe de volta. Deve ter sido hilariante e muito bem sacada a entrada final de Cicarelli vestida de pata de pelúcia. Os jovens e modernos devem ter rolado no chão de tanto rir.
Eu mudei de canal. Fui ver o todo meu Ronnie Von vendendo roupas de cama, fraldões geriátricos e genéricos da Ultrafarma e espumante Salton. Bem mais divertido.
Terra Magazine