folhetim de Tabajara Ruas
Onde se narra de como o general Netto desafiou o cavalo do delegado.
» Se você não acompanhou o capítulo 1 de 'As cartas do domador', leia aqui
1
Está escuro dentro do bolicho. Recabarren abre a janela e vê Netto aparecer no horizonte, puxando o tordilho e o malhado.
- Hoje estão chegando cedo - diz Recabarren.
Laura está com o rosto imerso numa bacia. Ergue o rosto pingando água. Examina o rosto num minúsculo espelho.
- Esse aí não é destas bandas. Abre a venda, mulher.
Laura move-se e abre a porta da venda. No pátio, Bonifácia, está tirando água do poço. O vira-lata Colorado está com ela.
2
Netto se aproxima do bolicho. Ele vê todo o Rincão das Carreiras, a propriedade de Recabarren. Esta consta de um bolicho - tosca construção de barro, taquara e palha - onde mora com Laura, sua segunda mulher. Ali Recabarren vende de tudo. Serve bebida e refeição, organiza corridas de cavalos e lutas de galo de rinha. Perto do bolicho fica o galpão, espécie de pousada para os viajantes e onde se realizam bailes nos fins de semana. Diante do bolicho e do galpão está a cancha de corridas. Tem 400 metros de comprimento, em linha reta.
Netto se aproxima e passa ao lado de Bonifácia, sem olhar para ela. Bonifácia sai atrás dele, carregando dois baldes cheios de água e empinando o nariz com pompa. Netto percebe. Bonifácia pára com a brincadeira na mesma hora. Netto desmonta em frente ao bolicho, amarra os três cavalos na estaca e fica encarando Bonifácia, que some nos fundos.
O vira-lata Colorado observa de longe, desconfiado.
3
Netto entra no bolicho. Recabarren está ao balcão.
- Buenas.
- Buenas. Diga nomás.
- Pode fritar umas lingüiças?
Netto percebe Laura espiando por uma fresta.
- Na hora.
- Macanudo.
- Mulher, prepara uma lingüiça! Pode ser com ovo, amigo?
- Dois ovos fritos.
- O amigo veio para as carreiras?
Netto faz que sim com a cabeça.
- Daqui a pouco tem carreira atada.
- Sim?
- Minuano, do Barão de Aceguá, contra Príncipe, do seu filho André.
- Então é pai contra filho.
- É isso aí. André vai montar o Príncipe. O Minuano vai ser montado pelo Negrinho.
- Quem é o Negrinho?
Laura, aparecendo na porta da cozinha.
- O Negrinho é o melhor ginete destas bandas.
Vosmecê bebe alguma coisa? Leite, café?
- Café, gracias.
Laura some na Cozinha.
- Mas a história é mais comprida - continua Recabarren. - O vencedor de hoje corre amanhã contra Raio do Jarau, o mouro do Doutor Fagundes. Um estancieiro muito rico.
- Então é aposta grande.
- Para a corrida de amanhã o Barão e o Doutor Fagundes fizeram uma aposta como nunca se viu por estas bandas: cem patacões de ouro!
- Barbaridade.
- Dá para comprar... mais de dez escravos. Ou uma tropilha pequena, de raça.
Laura traz a comida - lingüiça, ovos, farinha, café - e a coloca numa mesa a um canto. Netto senta-se e começa a comer. Recabarren fica apoiado no balcão, fazendo um palheiro. Laura observa Netto comer.
- Que mal pergunte, como se chama vossa graça?
- Antônio.
- Não é destas bandas, não é, seu Antônio?
- Das bandas de Rio Grande.
- Tá longe de casa.
- Ando buscando um tratador de cavalos, um certo Índio Torres.
Bonifácia espia na porta com ar de susto.
- Índio Torres? - diz Recabarren.
- Foi sargento na Cisplatina.
Recabarren faz sinal para Bonifácia, e ela se afasta.
- Morou por aqui um índio chamado Jesus Torres. Mas sumiu.
- Me disseram que ninguém conhece cavalo melhor do que ele.
- É o que diziam. Mas sumiu. - E apontando para fora - O Barão tá chegando.
4
Aparece no horizonte um grupo de cinco cavaleiros. São o Barão, seu filho André, o Negrinho e dois peões, Capincho e Jaguar. Puxam dois cavalos corredores, cobertos por vistosas capas. O Barão tem a pose de um nobre do campo. É elegante, educado e impõe autoridade. Traz ao pescoço um comprido chicote de couro trançado. O filho André é jovem e vigoroso. O capataz Capincho é gordo, bonachão, xucro e servil. O peão chamado Jaguar é silencioso e arisco.
Formam um conjunto orgulhoso. Têm o porte altivo, os rostos sérios, vêm concentrados. O grupo chega e vai desmontando. Todos olham com atenção os três cavalos de Netto.
Negrinho e Jaguar ficam cuidando dos cavalos do Barão. Recabarren sai para recebê-los.
- Barão, bom dia, sejam bem vindos todos. Bebe alguma coisa, Barão?
- Não. Vou esperar o Delegado.
- Vou servir um chimarrão.
- Um chimarrão está bem.
O Barão, André e Capincho entram no salão, seguidos de Recabarren.
5
O Barão vê Netto comendo à mesa no canto.
- Bom dia a todos - para Netto - O amigo veio para as carreiras?
- Bom dia. Vim ver seus parelheiros, Barão.
- Opa!
- A fama deles vai longe. Antônio Silva, muito prazer.
Apertam as mãos.
- Ah, lá vem aquele velhaco.
Aproxima-se uma charrete puxada por dois cavalos.
- O senhor aprecia a cancha reta, seu Antônio?
- Quem não gosta de uma cancha reta?
- O senhor vai assistir um mano a mano que vale a pena - disse Capincho, ansioso por impressionar o desconhecido. - São dois puros-sangue como só o Barão sabe criar. E o Negrinho nem se fala... Ele já ganhou só este ano mais de trinta e cinco carreiras. E todas com mais de um corpo de luz.
- Capincho, chega de se gabar - diz o Barão com modéstia.
6
A charrete chega. Nela vêm o delegado e seu secretário. O condutor da charrete é o mal-encarado Muçum, segurança do delegado.
Laura, espia pela fresta da cozinha.
- Deus os fez, o Diabo os junta.
O Delegado desce com dificuldade, ajudado pelo Secretário. O Delegado é fanfarrão e divertido, mas todos têm medo dele. Usa uma bengala para se apoiar.
O Secretário é um português de pequeníssima estatura, com ares pedantes. Está sempre anotando numa caderneta tudo que o Delegado diz.
O Secretário tira o chapéu e cumprimenta Jaguar.
Avalia o tordilho de Netto. Troca um olhar astuto com Jaguar e o Negrinho.
- Negrinho pícaro... tô de olho em ti. Tu vai precisar voar pra ganhar essa carreira de hoje.
- Nossa Senhora me protege, seu Delegado.
-Vamos ver se ela te protege mesmo, Negrinho.
O Delegado entra pomposamente no bolicho, seguido pelo Secretário.
- Buenos dias pra quem tem barba. - E percebendo o olhar furioso de Laura.
- Desculpe, para a senhora também, dona Laura.
- Não preciso que me digam bom dia.
- Mesmo assim, bom dia, dona Laura - diz o Secretário, tirando o chapéu e fazendo uma vênia.
- Não vou me sentir nem melhor nem pior por causa de um bom dia.
- Sinais de rebelião, Recabarren.
O Delegado aperta a mão do Barão, de André e de Capincho. Baixo, à parte.
-A vida desse homem não deve ser fácil.
Secretário também aperta a mão de todos, com grandes vênias.
- Obrigado por ter vindo, Delegado.
- Esta eu não perdia por nada. O dia de hoje promete. Percebe Netto, cumprimenta com cabeça. - Muito prazer.
- Está preparado, André?
- Sim, senhor.
- E o Príncipe?
- Na ponta dos cascos.
- Este guri é um anjo!
- Eu que o diga.
- Mas, André, anjo ou não, eu sou o juiz dessa carreira e ninguém me suborna, tu sabe muito bem disso.
- A não ser com algo que valha a pena, é claro...
- A senhora me lisonjeia, Dona Laura.
Dirigindo-se a Netto, que recebe a cuia de chimarrão.
- Me desculpe, é seu aquele tordilho lá fora?
- Sim, senhor.
O Secretário sobe num banquinho, com o cantil estendido para Laura, que vai enchendo-o de aguardente. O Secretário busca com insistência o olhar de Laura.
- É ele o corredor?
- Bueno, eu acho que é.
- Belo animal, belo animal... mas... a pata da direita é levemente puxada para dentro.
- Acho que o senhor viu mal.
- Pode ser, pode ser. Somos todos mortais, meu amigo, não somos deuses.
- Senhor Antônio, cuidado com esse trapaceiro.
- Além de Delegado, ele é quem mais conhece cavalo nestas bandas.
- Bondade sua, Capincho. Barão, não me interprete mal. Apenas fiz uma observação a respeito da pata do tordilho desse senhor.
- O senhor acha que meu cavalo tem um defeito?
- Não disse isso.
- Se ele tem uma pata torta...
- Anatomicamente, não chega a ser um defeito.
- Claro que não, claro que não. Apenas... não é corredor.
- Não é corredor?
- Pode trotar lindo no más, mas não é corredor.
- Não é corredor mesmo. Mas... numa cancha reta...
- Sim?
- Topa qualquer parada.
Risos e aplausos.
- Pago o primeiro trago do dia! Recabarren! Garrafa e copos.
Recabarren traz copos e uma garrafa.Os copos são distribuídos.
- Um brinde ao senhor Antônio, que desafiou o cavalo do Delegado.
No próximo capítulo:
De como o negrinho ganhou uma carreira que teria sido muito melhor perder (como veremos mais adiante).
Veja também:
» Capítulo 3