Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Roberto Souza Causo

Sábado, 7 de outubro de 2006, 07h39

Ficção científica brasileira no exterior

Roberto de Sousa Causo

Temos insistindo neste espaço na idéia de que a ficção científica e a fantasia brasileiras existem já há algum tempo (150 anos ou mais). E não apenas no Brasil - leitores de outras partes do mundo também estão tendo a chance de descobrir mais sobre a nossa ficção científica e fantasia.

E não é de hoje. Esfinge (1906), fantasia contemporânea de Coelho Netto sobre a cabeça de uma mulher implantada após um acidente no corpo de um homem - seu irmão -, já aparecia publicado em Portugal no início do século 20. A República 3000 ou A Filha do Inca (1930), de Menotti Del Picchia, foi publicado na França em 1950 pela editora Albin Michel.

André Carneiro, um dos grandes nomes da "Geração GRD" (grupo que o editor Gumercindo Rocha Dorea promoveu nos anos 60), publica no exterior desde o início da década de 1970, sendo de longe o autor brasileiro de FC mais publicado lá fora. Para ele, tudo começou quando Leo Barrow, um acadêmico americano, o conheceu num evento literário: Barrow traduziu para o inglês a sua noveleta clássica, "A Escuridão" (1963). Como "Darkness", essa história foi publicada em várias antologias nos States e na Inglaterra, incluindo The Year's Best Science Fiction 1973, editado por Harry Harrison & Brian Aldiss (veja o artigo "Entre os Melhores", clicando aqui). Carneiro já apareceu na Alemanha, Argentina, Espanha, Japão, Suécia, e outros países tão ou mais distantes.

Também foi publicado em Antarès, uma das poucas revistas internacionais de FC, desde o seu primeiro número - o editor Jean-Pierre Moumon viu o livro de Carneiro, Introdução ao Estudo da "Science Fiction", na Biblioteca do Congresso Americano, e fez um contato. O único outro nome da Geração GRD a ser publicado na revista foi Walter Martins, com o conto "Tuj".

Diz Moumon: "A primeiras histórias de FC brasileira que publiquei na Antarès foram de André Carneiro, que é típico da FC brasileira da renascença dos anos sessenta: uma FC baseada num conteúdo poético e intimista. Essa tendência ainda pode se encontrada na segunda renascença dos anos oitenta e noventa... Jorge Luiz Calife (de quem eu traduzi quatro histórias) mistura eficientemente poesia e ciência hard. Mas um autor como Gerson Lodi-Ribeiro foi uma completa surpresa para mim, quando eu li o seu "Xenopsicólogos na Fase Crítica". Eu o contactei e pedi permissão para traduzí-la. Ele me disse que outros editores o reprovaram por colocar ciência demais em suas histórias, que não eram populares no Brasil. Eu lhe disse que eles estavam errados, e sugeri que ele escrevesse histórias ainda mais hard." Em 2006 Gerson foi publicado também na Alemanha, na revista Internova.

"Antarès é dedicada a FC e fantasia de todos os países", diz Moumon, que lamenta traduzir apenas treze línguas: "Só publico histórias de linguagens que eu possa ler, o que infelizmente refreia minhas ambições." Infelizmente a revista parou de circular em meados da década de 1990.

Mas é a portuguesa Editorial Caminho que representou o maior mercado para a FC brasileira no exterior, desde que, em 1989, a coletânea de Braulio Tavares A Espinha Dorsal da Memória venceu o Prêmio Caminho Ficção Científica. O editor António Belmiro Guimarães nos disse: "O Prêmio Caminho de FC soube criar uma boa expectativa com a descoberta constante de autores novos. Com Braulio Tavares, o fato dele ser um escritor brasileiro aumentou, naturalmente, a curiosidade e o interesse." Tavares foi publicado em Portugal mais duas vezes em 1997, com a colectânea Mundo Fantasmo e o romance A Máquina Voadora.

A Caminho publicou em 1993 a primeira antologia luso-brasileira, O Atlântico Tem Duas Margens, editada por José Manuel Morais, com os brasileiros Calife, Lodi-Ribeiro, Ivanir Calado, José Carlos Neves, Finisia Fideli e Causo. "A antologia teve boa repercussão de público, mas, na crítica, houve uma reacção violenta e excessivamente negativa (na revista Ler), o que não deixa de ser desconcertante mas também curioso", diz Guimarães.

Em 1997 Lodi-Ribeiro também encontrou um lar na coleção Caminho Ficção Científica, que publicou sua primeira colectânea, Outras Histórias. O livro recebeu resenhas positivas. Belmiro Guimarães informa que "os livros de Braulio e de Gerson tiveram um número de leitores semelhante a qualquer outro autor de qualidade". (Este livro será lançado em breve no Brasil pela Unicórnio Azul - veja os drops desta semana, para mais informações). É pena que a coleção portuguesa tenha sido encerrada nos primeiros meses do século 21.

Um efeito interessante de ser publicado lá fora é chamar a atenção de editores aqui dentro. "O Prêmio Caminho me forneceu um cartão de visita junto à imprensa e às editoras", diz Braulio Tavares. "Ele me possibilitou publicar pela Editora Rocco e dirigir uma coleção na Editora 34. Se eu não tivesse ganho o prêmio, talvez tivesse menos entusiasmo para produzir o que produzi depois." Tavares também publicou contos no Canadá, Rússia e Estados Unidos (na antologia Cosmos Latinos, de 2004, editada por Andrea L. Bell & Yolanda Molina-Gavilán, que também publicaram Jerônymo Monteiro pela primeira vez no exterior). Mais recentemente, Márcia Guimarães, com A Conspiração dos Imortais, se tornou a primeira brasileira - e a primeira autora de língua portuguesa - publicada na lendária coleção Argonauta, também de Portugal.

Como o mercado brasileiro para FC é muito pequeno, alguns autores vêem com esperança o mercado internacional, e ninguém vai mais longe na ambição de ser publicado em inglês do que o Ataide Tartari. "Além do mercado de FC nos EUA ser notoriamente um mercado milionário, os Estados Unidos são o Império Romano da actualidade. A verdadeira Fama & Fortuna só existe em Roma, só pode ser conquistada em Roma", afirma Tartari, que tem um romance, Amazon, publicado nos States por uma editora de print-on-demand (veja o livro na Amazon.com em http://www.amazon.com/Amazon-Ataide-Tartari/dp/0595173241/ref=sr_11_1/104-9567192-9563924?ie=UTF8). Tartari também já foi publicado no Brasil em antologias como Outras Copas, Outros Mundos, editada por Marcello Branco para a Editora Ano-Luz/Grupo Pecas.

Há quem discorde da postura de Tartari. Jorge Luiz Calife, que publicou quatro histórias na Antarès e uma em Portugal, explica que não tem no mercado internacional o alvo de suas ansiedades: "Lá o espaço já está muito ocupado. Aqui é mais fácil chamar a atenção para o meu trabalho. A minha praia é aqui - lá eu seria mais um entre trezentos ou quatrocentos autores."

André Carneiro, veterano do mercado americano, o maior do mundo para a FC, acha que há preconceito nos EUA contra o autor estrangeiro, que sofre uma "sabotagem evidente". "Precisa ser três vezes melhor que o americano para aparecer", afirma. Para Carneiro, a posição dos Estados Unidos como exportador e do resto do mundo como importador de FC faz parte de "um programa consciente de dominação cultural".

Dentro desse ponto de vista, uma séria dificuldade é o fato da FC ser considerada uma literatura comercial. Editoras com interesse literário ou cultural podem se arriscar na tradução de obras estrangeiras, como uma espécie de intercâmbio, mas editoras comerciais raramente se darão ao trabalho.

Foi assim que livros como O Sorriso do Lagarto (1989), FC de João Ubaldo Ribeiro, acabam publicados nos Estados Unidos - seu autor é um nome forte da ficção literária brasileira. O Sorriso do Lagarto apareceu pela Atheneum em 1994 como The Lizard's Smile. Antes dele, o romance de Ignácio de Loyola Brandão Não Verás País Nenhum foi publicado como And Still the Earth em 1982. Mais recentemente, Marien Calixte teve sua coletânea de contos ufológicos Alguma Coisa no Céu publicada na Itália como Sulla Pietra dai due Occhi, pela Matzneller Editions, também fora do mercado de FC. Aqui, o livro saiu na famosa coleção Ficção Científica GRD, de Gumercindo Rocha Dorea, em 1995.

Mas ser publicado no exterior é só uma questão de prestígio ou de mercado? Um aspecto interessante - e talvez até mais importante, é a possibilidade de dialogar com o paradigma vigente. Quando pensamos em ficção científica, pensamos em autores norte-americanos e ingleses. Brasileiros publicando em outros países é algo que contribui para a idéia de que a FC é um fenômeno internacional, e que ninguém detém direitos sobre ela, sobre o que ela é ou pode ser. Mas para isso é necessário que as histórias feitas aqui também tenham o carácter de demostrar que não é só uma questão de geografia - se vamos fazer uma FC para mostrar ao mundo, ela precisa ser diferente daquilo que o mundo já consome.

O que, aliás, vem de encontro ao que os próprios americanos pensam do assunto. Como o escritor Orson Scott Card disse num artigo para a Folha de São Paulo em 1991: "A ficção científica é uma literatura revigorante, a mais importante ficção que está sendo escrita hoje. E se o Brasil deve assumir seu papel de direito no mundo, ele precisa parar de navegar nas águas emprestadas pela cultura norte-americana para estimular e desenvolver sua grande arte e seus grandes artistas."

Isso vale também para a FC brasileira que é publicada apenas aqui no Brasil, enfrentando as dificuldades de um mercado pequeno e saturado por material traduzido. Uma façanha tão grande quanto a outra.

Uma versão deste artigo apareceu originalmente na revista Starlog Brasil N.º 10, em outubro de 1998, sob o pseudônimo de "Jeremias Moranu"

Rede Global Paraliterária
A ficção científica como fenômeno internacional é o assunto da Rede Global Paraliterária, lista de discussão na Internet criada por Bruce Sterling e Roberto de Sousa Causo, em 1997, com gente do mundo todo. Para participar da lista RGP basta enviar uma mensagem para RGParaliteraria@yahoogroups.com. Além da moderação de Bruce Sterling e Roberto de Sousa Causo, a lista conta com a participação de autores brasileiros como Gerson Lodi-Ribeiro, Braulio Tavares, e Ataide Tartari, e de nomes internacionais como Norman Spinrad, James Gunn, Jean-Claude Dunyach, Jean-Louis Trudel, Gwyneth Jones, Brian Stableford, entre outros.


Leia também:
» Entre os melhores
» Drops


Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

Terra Magazine


Exibir mapa ampliado

Tags

O que Roberto de Sousa Causo vê na Web

Favoritos

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol

Argentina Chile Colômbia Equador Estados Unidos México Peru Venezuela