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Sábado, 7 de outubro de 2006, 07h41

Entre os melhores

Roberto de Sousa Causo

As glórias internacionais da nossa FC e fantasia são tão poucas, que ainda comemoramos a publicação da noveleta de André Carneiro, "A Escuridão" - como "Darkness" na antologia Best SF of the Year, de 1972, organizada por Harry Harrison & Brian Aldiss, dois grandes nomes da FC. "A Escuridão" foi primeiro publicado em livro na coletânea do autor, Diário da Nave Perdida, em 1963. Mais recentemente, voltou a estar acessível na antologia de Braulio Tavares, Páginas de Sombra: Contos Fantásticos Brasileiros (2003).

Sua inclusão num livro de contos fantásticos é compreensível - ela pode ser lida tanto como realismo mágico, quanto como FC: um fenômeno físico indefinido leva paulatinamente ao planeta uma escuridão absoluta (embora não afete a produção de calor). Um homem solitário, Wladas, se prepara para enfrentar o fenômeno, e acaba oferecendo sua solidariedade a uma família que não se preparara tão bem. Na tentativa de obter-lhes comida, ele sai na escuridão e se perde, sendo assistido por um cego. Em companhia da família e de outros cegos que sabem se virar melhor do que os não-deficientes de outrora, chegam a uma granja dos cegos, onde tentam sobreviver até que o fenômeno termine.

Apesar de Carneiro buscar uma aura internacional - o nome "Wladas" soa como alguém do leste europeu, e a cidade descrita pode ser qualquer grande metrópole -, Harry Harrison, que publicou a história na antologia Nova 2 (1974), aponta nela a tendência sul-americana de questionar a realidade - obviamente na inversão da idéia da "deficiência" física, no plano social. Destaca-se em "A Escuridão" a cadência narrativa suave, que só faz tornar mais íntima a experiência do leitor, ao vivenciar os dramas de Wladas.

Em 2001, uma brasileira repetiu o feito de Carneiro, mas aparecendo na The Year's Best Fantasy and Horror: Fourteenth Annual Collection.

As antologias dos melhores do ano são uma tradição do mercado norte-americano, na FC em particular, desde a década de 1950. São uma honraria a parte - em relação a prêmios, por exemplo. Aquelas dedicadas à fantasia são mais raras: Lin Carter criou The Year's Best Fantasy Stories em 1975. Mas a partir da década de 1980 a dupla Ellen Datlow e Terri Windling conseguiu estabelecer a The Year's Best Fantasy and Horror como uma presença constante e obrigatória.

O conto "Maria de Jesus", de Cláudia Barbosa Nogueira, foi encontrado em uma das chamadas "little magazines" (revistas de pequena circulação, destinadas a círculos intelectuais e acadêmicos), The Colorado Review. Explica-se pelo contato que a autora teria com esses círculos a partir da University of Maryland, onde fazia parte do programa de doutorado, quando a história foi publicada. A introdução ao conto, por Windling, informa que outros escritos de Cláudia Nogueira apareceram também no The Southern Quarterly e no The Berkeley Poetry Review. As little magazines, apesar de qualquer sugestão pejorativa que o termo possa lhes dar, são importantes para o ambiente literário norte-americano. Alguns exemplos do passado, como o famoso The Partisan Review, foram veículos de grande relevância intelectual, e autores de peso como Raymond Carver primeiro chamaram atenção crítica nas páginas de little magazines.

Windling também informa que "Muito do trabalho da autora explora questões de imigração, desajuste, e identificação nacional e regional". Isso coloca Cláudia Nogueira dentro do foco de atenção da crítica norte-americana, ao dar aos seus textos um caráter pós-colonial e investigativo de identidades étnicas e nacionais. A leitura do conto logo mostra que há outros elementos que o transformam numa leitura interessante para o público norte-americano bem-informado.

É uma história de realismo mágico, em que os elementos estranhos ou mágicos se encadeiam com desconcertante casualidade. Abre tratando do touro Quilombo, curioso com respeito à vida humana na fazenda em que vive. A personagem-título é capaz de se comunicar com ele e responder às suas perguntas.

A trajetória de Maria de Jesus começa com a sua aparente mudez. Quando adolescente, aprende a falar com um padre, que logo a ensina a ficar calada. Casa-se com um homem de temperamento forte e amor à bebida, e a história informa o leitor de que ela casou grávida - de palavras represadas, primeiro pelo padre, depois pelo marido que a calava com surras. Há um teor feminista na relação entre a fala e o silêncio imposto à mulher. É a questão da submissão feminina no contexto social e familiar, expresso pela incapacidade de falar e ser ouvida. O elemento feminista é reforçado pelo abuso que a personagem sofre por seu marido, pela subseqüente deserção dele, que parte sem deixar paradeiro, e enfim, pela revelação de que, após o abandono, ela passa a amá-lo e desejar o seu retorno, porque "Maria de Jesus desenvolveu uma condição cardíaca que a faria sofrer pelo resto dos seus dias - ela começou a amar apenas aquilo que havia passado".

Nasce o menino Tobias, que descobre possuir a habilidade de fazer objetos desaparecerem, se jogados em determinados ângulos. A mãe o informa que difícil mesmo é fazer coisas desaparecidas aparecerem. O garoto tenta então fazer coisas aparecerem, radicalizando os ângulos em que atira as coisas. Espera que elas reapareçam, e de fato ele encontra traços aqui e ali. Percebe que aquilo que sua mãe mais deseja que reapareça é o marido, e então ele atira a si próprio, esperando encontrá-lo em uma dimensão diversa da nossa, em que estão as coisas que sumiram. Desaparece para sempre, e a autora resgata no último parágrafo e sua evocação lírica, o potencial de existência do filho de Maria de Jesus.

As glórias internacionais da nossa FC e fantasia são tão poucas, que ainda comemoramos a publicação da noveleta de André Carneiro, "A Escuridão" - como "Darkness" na antologia Best SF of the Year, de 1972, organizada por Harry Harrison & Brian Aldiss, dois grandes nomes da FC. "A Escuridão" foi primeiro publicado em livro na coletânea do autor, Diário da Nave Perdida, em 1963. Mais recentemente, voltou a estar acessível na antologia de Braulio Tavares, Páginas de Sombra: Contos Fantásticos Brasileiros (2003).

Sua inclusão num livro de contos fantásticos é compreensível - ela pode ser lida tanto como realismo mágico, quanto como FC: um fenômeno físico indefinido leva paulatinamente ao planeta uma escuridão absoluta (embora não afete a produção de calor). Um homem solitário, Wladas, se prepara para enfrentar o fenômeno, e acaba oferecendo sua solidariedade a uma família que não se preparara tão bem. Na tentativa de obter-lhes comida, ele sai na escuridão e se perde, sendo assistido por um cego. Em companhia da família e de outros cegos que sabem se virar melhor do que os não-deficientes de outrora, chegam a uma granja dos cegos, onde tentam sobreviver até que o fenômeno termine.

Apesar de Carneiro buscar uma aura internacional - o nome "Wladas" soa como alguém do leste europeu, e a cidade descrita pode ser qualquer grande metrópole -, Harry Harrison, que publicou a história na antologia Nova 2 (1974), aponta nela a tendência sul-americana de questionar a realidade - obviamente na inversão da idéia da "deficiência" física, no plano social. Destaca-se em "A Escuridão" a cadência narrativa suave, que só faz tornar mais íntima a experiência do leitor, ao vivenciar os dramas de Wladas.

Em 2001, uma brasileira repetiu o feito de Carneiro, mas aparecendo na The Year's Best Fantasy and Horror: Fourteenth Annual Collection.

As antologias dos melhores do ano são uma tradição do mercado norte-americano, na FC em particular, desde a década de 1950. São uma honraria a parte - em relação a prêmios, por exemplo. Aquelas dedicadas à fantasia são mais raras: Lin Carter criou The Year's Best Fantasy Stories em 1975. Mas a partir da década de 1980 a dupla Ellen Datlow e Terri Windling conseguiu estabelecer a The Year's Best Fantasy and Horror como uma presença constante e obrigatória.

O conto "Maria de Jesus", de Cláudia Barbosa Nogueira, foi encontrado em uma das chamadas "little magazines" (revistas de pequena circulação, destinadas a círculos intelectuais e acadêmicos), The Colorado Review. Explica-se pelo contato que a autora teria com esses círculos a partir da University of Maryland, onde fazia parte do programa de doutorado, quando a história foi publicada. A introdução ao conto, por Windling, informa que outros escritos de Cláudia Nogueira apareceram também no The Southern Quarterly e no The Berkeley Poetry Review. As little magazines, apesar de qualquer sugestão pejorativa que o termo possa lhes dar, são importantes para o ambiente literário norte-americano. Alguns exemplos do passado, como o famoso The Partisan Review, foram veículos de grande relevância intelectual, e autores de peso como Raymond Carver primeiro chamaram atenção crítica nas páginas de little magazines.

Windling também informa que "Muito do trabalho da autora explora questões de imigração, desajuste, e identificação nacional e regional". Isso coloca Cláudia Nogueira dentro do foco de atenção da crítica norte-americana, ao dar aos seus textos um caráter pós-colonial e investigativo de identidades étnicas e nacionais. A leitura do conto logo mostra que há outros elementos que o transformam numa leitura interessante para o público norte-americano bem-informado.

É uma história de realismo mágico, em que os elementos estranhos ou mágicos se encadeiam com desconcertante casualidade. Abre tratando do touro Quilombo, curioso com respeito à vida humana na fazenda em que vive. A personagem-título é capaz de se comunicar com ele e responder às suas perguntas.

A trajetória de Maria de Jesus começa com a sua aparente mudez. Quando adolescente, aprende a falar com um padre, que logo a ensina a ficar calada. Casa-se com um homem de temperamento forte e amor à bebida, e a história informa o leitor de que ela casou grávida - de palavras represadas, primeiro pelo padre, depois pelo marido que a calava com surras. Há um teor feminista na relação entre a fala e o silêncio imposto à mulher. É a questão da submissão feminina no contexto social e familiar, expresso pela incapacidade de falar e ser ouvida. O elemento feminista é reforçado pelo abuso que a personagem sofre por seu marido, pela subseqüente deserção dele, que parte sem deixar paradeiro, e enfim, pela revelação de que, após o abandono, ela passa a amá-lo e desejar o seu retorno, porque "Maria de Jesus desenvolveu uma condição cardíaca que a faria sofrer pelo resto dos seus dias - ela começou a amar apenas aquilo que havia passado".

Nasce o menino Tobias, que descobre possuir a habilidade de fazer objetos desaparecerem, se jogados em determinados ângulos. A mãe o informa que difícil mesmo é fazer coisas desaparecidas aparecerem. O garoto tenta então fazer coisas aparecerem, radicalizando os ângulos em que atira as coisas. Espera que elas reapareçam, e de fato ele encontra traços aqui e ali. Percebe que aquilo que sua mãe mais deseja que reapareça é o marido, e então ele atira a si próprio, esperando encontrá-lo em uma dimensão diversa da nossa, em que estão as coisas que sumiram. Desaparece para sempre, e a autora resgata no último parágrafo e sua evocação lírica, o potencial de existência do filho de Maria de Jesus.

Apesar do formato enigmático, emerge da curta narrativa uma evocação de imagens de um Brasil rural, da condição da mulher, marcada pela imposição do silêncio, por um desejo de crescimento espiritual simbolizado pela ingestão e gestação de palavras, pela oscilação aparentemente arbitrária de seus desejos, e coroada pelo final que sugere que, pela opressão ou pelo amor, a solidão dos entes queridos é o que espera a mulher. O lirismo tranqüilo da história ampara tais representações e dá à história um ar de saudade e tristeza. Em tudo a autora encontrou não só um invejável equilíbrio entre o dizer e o narrar, mas a evocação de uma realidade sul-americana num formato perfeito para a leitura por um público norte-americano. São poucas páginas, cheias de significados.

"O Dragão", de Murilo Rubião, aparece como "The Dragons" na antologia editada por David G. Hartwell & Kathryn Crammer, Masterpieces of Fantasy and Wonder (1989). Não é um volume dedicado aos melhores do ano, mas a presença de "Obras-Primas" o título sugere uma honraria. Hartwell é um antologista e pesquisador importante nos EUA.

Trata-se de outro conto de realismo mágico: Dragões aparecem em uma localidade cujo padre recusa-se a permitir que o narrador, um professor, os ensine. Após uma conversa, ele cede e o narrador inicia um processo de ajuste desses "dragões" à sociedade. A educação que o narrador pretende lhes dar é quase um processo de aculturação, enfatizando o papel alegórico das criaturas mágicas - eles são como índios ou ciganos que foram parar na cidade. Hartwell nota que a "história é sobre nossa inabilidade de apreciar aquilo que é verdadeiramente maravilhoso, quando o encontramos". Assim, tentamos moldar o "Outro" à nossa imagem, "catequizando-o". Mas a ingenuidade ou o apego desse Outro pelo sensual parece denunciá-lo como mentalmente imaturo ou infantil, sem um caráter próprio que emane da sua alteridade (embora os dragões do conto sejam filhotes). Por outro lado, Rubião pode estar na verdade denunciando a incapacidade do nosso sistema social de incorporar essa alteridade. O tom do narrador, levemente paternalista e hipócrita, reforça essa leitura.

"O Dragão" apareceu originalmente em O Ex-Mágico e Outras Histórias, de 1947. A tradução usada na antologia de Hartwell é do editor e agente literário Thomas Colchie.


Leia também:
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Escritor e crítico, Roberto de Sousa Causo é autor do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil.

Fale com Roberto Causo: roberto.causo@terra.com.br

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