folhetim de Tabajara Ruas
Onde se conta de como o Negrinho ganhou uma carreira que teria sido muito melhor perder, como veremos mais adiante.
1
O Sargento se aproxima de índio Torres, acorrentado ao palanque, acompanhado pelo Cabo. O Sargento traz um papel na mão.
- Índio, tu é mesmo um renegado de sorte.
- Concordo, Sargento.
- Olha o que eu achei pendurado numa árvore. Um panfleto contra o imperador!
Abre uma folha de papel diante do rosto de Índio.
- A favor da república. Escuta isto: "Cidadãos rio-grandenses! Sopram ventos de revolução! Se aproxima a hora sagrada da República. O Império escravista tem os dias contados". Bonito, não é, Índio? Índio, eu tenho um negócio pra te propor.
- Faço qualquer negócio, Sargento.
- Tu me ajuda a achar quem fez o panfleto, eu mando te soltar.
- Justo. Gostei.
- Então?
- Só que estou amarrado neste palanque há quatro dias.
- Não te faz de leitão vesgo pra mamar em duas tetas, Índio.
O Sargento bate de leve com o papel no rosto de Índio.
- Eu sei que tu está aqui há quatro dias, eu sei que penduraram isto depois que te trouxeram, mas eu sei... e tu sabe que eu sei... que tu conhece essa gente. E tu sabe muito bem que eles são um bando de vagabundos que não querem trabalhar. Eles querem derrubar o Imperador. Tu lutou pelo Imperador, Índio, não lutou? Me dá um nome. Um só. Me dá o nome de um e eu te deixo ir, Índio. Uma mão lava a outra, Índio.
Índio Torres olhando para o lado.
- A sina de uma pessoa é algo muito forte... eu não quero te entregar pra o Cabo. O Cabo é um borracho perverso... mas parece que é essa mesmo a tua sina, sargento Jesus.
Um sorriso aparece nos lábios do Índio. O Sargento bate com a folha dobrada levemente no rosto dele.
- Sem risadinhas, Índio, não sou uma das tuas chinas.
- Deixa ele rir, Sargento.
Dá um pontapé violento no Índio.
- Deixa ele rir, deixa ele rir! Quando eu te enrolar no couro da vaca, tu não vai querer dar risadinha.
- Vou perguntar só mais esta vez: quem?
Índio baixa a cabeça. O Sargento olha demoradamente para ele, bate de leve mais uma vez com o papel no rosto do Índio e se levanta.
- Muito bem, foi tu que escolheu. Cabo!
- Às ordens, Sargento.
- Esse renegado precisa falar. É um caso de segurança do Império.
2
Um grupo descontraído se encaminha para o local da carreira: André e o Negrinho, Capincho e Jaguar, o Delegado e o Secretário.
O Barão e Netto são os dois últimos. Caminham, lado a lado.
- Vosmecê deve estar estranhando porque eu deixo meu filho competir com um escravo...
- Na verdade, não pensei nisso.
- Este é um evento esportivo. Meu baio contra o zaino do André. Dei toda liberdade para que vença o melhor.
- Em quem vosmecê aposta?
- Ah, essa é uma questão difícil!
Chegam ao poço. Bonifácia está enchendo dois baldes com água.
- Bebe um gole de água?
- Não, eu vou em frente. Espero o senhor lá.
O Barão segue em frente. Netto apanha a concha. Bonifácia estende um balde para ele. Netto tira água do balde com a concha e bebe.
- O Índio Torres está no posto militar. Preso.
- Vosmecê é amiga dele?
- Por que pergunta?
- Preciso encontrar alguém amigo dele.
Bonifácia e Netto.
- Vão colocar o Índio no couro de vaca.
Bonifácia pensa um instante e se afasta carregando os dois baldes.
3
Recabarren está na porta do bolicho com Laura. Observam a agitação em torno ao partidor. O Delegado está cercado pelo Barão, Secretário, André, Negrinho, Capincho e Cara Cortada.
- O Barão só tem olhos para o Negrinho e o Minuano.
- E daí?
- Gosta mais deles do que da família.
- Vai buscar um serviço pra fazer, mulher.
Recabarren e Laura continuam conversando.
- O Negrinho tem um dom.
- Dom? De que dom me hablas?
- Sei lá. Todos gostam dele porque ele é especial.
- Todos gostam dele porque todos ganham dinheiro com ele.
4
O Delegado assume uma posição pomposa no centro do grupo.
- O vencedor representará o Barão contra o Raio do Jarau do Doutor Fagundes, amanhã, aqui mesmo, nesta cancha. Estamos? O vedor de chegada sou eu, o de partida é o Secretário. Como estão os preparativos, Secretário?
- Tiro, peso, lado, partidor, chegada e vedores. Tudo acertado.
- Muito bem. Vocês dois conhecem as regras.
- Qualquer falta, desclassifico. O segundo vedor de chegada é nosso visitante, seu Antônio, que aceitou generosamente o meu convite. Cadê o homem?
- Estou pronto.
5
André e o Negrinho montados em pêlo, prontos para partir. Estão descalços e sem camisa. Tensos, concentrados. André encara o Negrinho.
O Delegado e Netto, cada um postado num lado da raia de chegada.
- Senhor Antônio, vamos dar início a este poético evento.
- Estou pronto.
- Secretário... agora!
O Secretário levanta o lenço. Expectativa de todos. Lenço erguido.
- Um... dois... três!
O Secretário baixa o lenço. Os cavalos arrancam. A carreira é de 400 metros, em linha reta. A disputa é parelha, cabeça com cabeça. Os poucos espectadores são o Barão, Jaguar, Capincho, Recabarren, Laura, Bonifácia, Secretário, Delegado e Netto, atentos ou torcendo.
No meio do trajeto André bate com o rebenque no Negrinho, que mal se defende com o braço. Aproximam-se da chegada sempre juntos. Passam como um corisco diante de Netto e do Delegado. O Negrinho tem um corte no rosto.
- Ganhou o Minuano. Que le parece?
- Ganhou o Minuano. Ganhou por orelha, mas ganhou.
O Negrinho dá uma volta vitoriosa e retorna. Quando passa pelo humilhado André, este desfere um rebencaço nas suas costas. O Negrinho não reage. André salta do cavalo e se aproxima. Encara o Delegado e Netto.
- Eu cheguei na frente. A vitória foi minha.
O Barão abraça André e dá um beijo na sua face.
- A decisão dos juízes será aceita por nós.
André se solta do pai, monta no cavalo e sai em disparada para o campo.
- Não somos deuses...
- E nem anjos.
6
O Cabo parece enlouquecido, babando de ódio.
- Respeito, respeito, respeito, índio sujo!
Tem o rosto contorcido e está dando uma surra de rebenque em Índio Torres, no chão, enrolado sobre si mesmo, suportando as pancadas.
O Índio não se mexe, as mãos na cabeça. As pancadas caem nas suas costas. O Cabo já perdeu o fôlego. Catarino toca no ombro dele.
- Acho que ele está desmaiado, Cabo.
- É mentira. Essa é mais antiga que manivela de poço. Joga água na cara dele.
Amâncio apanha um balde com água, aproxima-se e arremessa a água sobre o rosto de Índio.
7
Laura, na janela, observa o grupo do Barão sumir na curva da coxilha. Netto se aproxima do Delegado, instalado na charrete, com o Secretário e Muçum.
- Então?
- Atado.
Apertam as mãos.
- Dez patacões.
- Para gastar com as chinas.
- Bem pensado. Anota aí, Secretário.
O Secretário vê Laura na janela, tira o chapéu e faz uma vênia.
- Quem vê, Senhora, claro e manifesto
O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.
Muçum chicoteia os cavalos e a charrete arranca. A voz recitando o Soneto 16, de Camões, vai se perdendo. Netto fica olhando o grupo se afastar. Depois, olha para os lados do galpão. Lá está Bonifácia, pendurando no varal atrás do galpão roupas e lençóis que vai tirando de uma grande cesta. Bonifácia canta. O vento agita as roupas.
8
O vento agita roupas num varal. São roupas íntimas femininas. Uma mulher negra está pendurando roupas no varal. Cinco crianças, negras e brancas, cantam canções infantis no pátio do elegante casarão colonial, sede da estância e residência da família do Barão.
Na sala, uma jovem brinca com uma ave numa gaiola. É Clara, a filha do Barão.
Junto com ela mais cinco mulheres.
A bela Baronesa, mãe de Clara; a imponente e sombria Avó, toda de negro, mãe do Barão; Rejane, a viúva do irmão do Barão; a jovem escrava Maria, namorada do Negrinho; e a empregada Verônica, ex-escrava, mulher de Capincho. Formam um conjunto delicado e harmonioso na sala iluminada pelos raios de sol que entram através da grande janela.
Clara brinca com a ave engaiolada, Maria alisa com uma escova o cabelo de Clara, a Avó está enrolando um cigarro de palha. A Baronesa lê. Um menino negro, em pé ao lado da porta, escuta com infinita tristeza a música infantil que vem do lado de fora, onde brincam as cinco crianças.
Maria, escutando.
- Estão chegando.
Clara, excitada.
- Quem será que ganhou a carreira?
- Aposto que o André ganhou.
As quatro mulheres se dirigem alvoroçadas até a porta. Há uma certa tensão entre elas, na expectativa de saber quem ganhou a carreira.
- Meninas, se controlem.
A Avó fica na sala. Acende o palheiro.
- Aposto que o Diabo ganhou.
9
Clara, Maria, Rejane e Verônica avançam pelo corredor, dando risadas e gritinhos.
- A última é mulher do padre!
A Baronesa vem atrás. Verônica e Maria abrem a porta da entrada e saem para a varanda. A turma do Barão está diante da casa. Maria observa o Negrinho com inquietação. Trocam um olhar demorado quando ele passa diante dela, montado em Minuano, na direção do galpão. O Barão desmonta.
- E o André?
O Barão encolhe os ombros.
No próximo capítulo:
Onde se inicia o cruel suplício de índio Torres nas mãos do Sargento
» Veja trechos do filme
» Sobre as Cartas do domador
Leia os outros capítulos do folhetim:
» Capítulo 1
» Capítulo 2
» Capítulo 4