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Sexta, 13 de outubro de 2006, 07h42

As cartas do domador - Capítulo 3

folhetim de Tabajara Ruas

Onde se conta de como o Negrinho ganhou uma carreira que teria sido muito melhor perder, como veremos mais adiante.

1

O Sargento se aproxima de índio Torres, acorrentado ao palanque, acompanhado pelo Cabo. O Sargento traz um papel na mão.
- Índio, tu é mesmo um renegado de sorte.
- Concordo, Sargento.
- Olha o que eu achei pendurado numa árvore. Um panfleto contra o imperador!

Abre uma folha de papel diante do rosto de Índio.
- A favor da república. Escuta isto: "Cidadãos rio-grandenses! Sopram ventos de revolução! Se aproxima a hora sagrada da República. O Império escravista tem os dias contados". Bonito, não é, Índio? Índio, eu tenho um negócio pra te propor.
- Faço qualquer negócio, Sargento.
- Tu me ajuda a achar quem fez o panfleto, eu mando te soltar.
- Justo. Gostei.
- Então?
- Só que estou amarrado neste palanque há quatro dias.
- Não te faz de leitão vesgo pra mamar em duas tetas, Índio.

O Sargento bate de leve com o papel no rosto de Índio.
- Eu sei que tu está aqui há quatro dias, eu sei que penduraram isto depois que te trouxeram, mas eu sei... e tu sabe que eu sei... que tu conhece essa gente. E tu sabe muito bem que eles são um bando de vagabundos que não querem trabalhar. Eles querem derrubar o Imperador. Tu lutou pelo Imperador, Índio, não lutou? Me dá um nome. Um só. Me dá o nome de um e eu te deixo ir, Índio. Uma mão lava a outra, Índio.

Índio Torres olhando para o lado.
- A sina de uma pessoa é algo muito forte... eu não quero te entregar pra o Cabo. O Cabo é um borracho perverso... mas parece que é essa mesmo a tua sina, sargento Jesus.

Um sorriso aparece nos lábios do Índio. O Sargento bate com a folha dobrada levemente no rosto dele.
- Sem risadinhas, Índio, não sou uma das tuas chinas.
- Deixa ele rir, Sargento.

Dá um pontapé violento no Índio.
- Deixa ele rir, deixa ele rir! Quando eu te enrolar no couro da vaca, tu não vai querer dar risadinha.
- Vou perguntar só mais esta vez: quem?

Índio baixa a cabeça. O Sargento olha demoradamente para ele, bate de leve mais uma vez com o papel no rosto do Índio e se levanta.
- Muito bem, foi tu que escolheu. Cabo!
- Às ordens, Sargento.
- Esse renegado precisa falar. É um caso de segurança do Império.

2

Um grupo descontraído se encaminha para o local da carreira: André e o Negrinho, Capincho e Jaguar, o Delegado e o Secretário. O Barão e Netto são os dois últimos. Caminham, lado a lado.
- Vosmecê deve estar estranhando porque eu deixo meu filho competir com um escravo...
- Na verdade, não pensei nisso.
- Este é um evento esportivo. Meu baio contra o zaino do André. Dei toda liberdade para que vença o melhor.
- Em quem vosmecê aposta?
- Ah, essa é uma questão difícil!

Chegam ao poço. Bonifácia está enchendo dois baldes com água.
- Bebe um gole de água?
- Não, eu vou em frente. Espero o senhor lá.

O Barão segue em frente. Netto apanha a concha. Bonifácia estende um balde para ele. Netto tira água do balde com a concha e bebe.
- O Índio Torres está no posto militar. Preso.
- Vosmecê é amiga dele?
- Por que pergunta?
- Preciso encontrar alguém amigo dele. Bonifácia e Netto.
- Vão colocar o Índio no couro de vaca.

Bonifácia pensa um instante e se afasta carregando os dois baldes.

3

Recabarren está na porta do bolicho com Laura. Observam a agitação em torno ao partidor. O Delegado está cercado pelo Barão, Secretário, André, Negrinho, Capincho e Cara Cortada.
- O Barão só tem olhos para o Negrinho e o Minuano.
- E daí?
- Gosta mais deles do que da família.
- Vai buscar um serviço pra fazer, mulher.

Recabarren e Laura continuam conversando.
- O Negrinho tem um dom.
- Dom? De que dom me hablas?
- Sei lá. Todos gostam dele porque ele é especial.
- Todos gostam dele porque todos ganham dinheiro com ele.

4

O Delegado assume uma posição pomposa no centro do grupo.
- O vencedor representará o Barão contra o Raio do Jarau do Doutor Fagundes, amanhã, aqui mesmo, nesta cancha. Estamos? O vedor de chegada sou eu, o de partida é o Secretário. Como estão os preparativos, Secretário?
- Tiro, peso, lado, partidor, chegada e vedores. Tudo acertado.
- Muito bem. Vocês dois conhecem as regras.
- Qualquer falta, desclassifico. O segundo vedor de chegada é nosso visitante, seu Antônio, que aceitou generosamente o meu convite. Cadê o homem?
- Estou pronto.

5

André e o Negrinho montados em pêlo, prontos para partir. Estão descalços e sem camisa. Tensos, concentrados. André encara o Negrinho. O Delegado e Netto, cada um postado num lado da raia de chegada.
- Senhor Antônio, vamos dar início a este poético evento.
- Estou pronto.
- Secretário... agora!

O Secretário levanta o lenço. Expectativa de todos. Lenço erguido.
- Um... dois... três!

O Secretário baixa o lenço. Os cavalos arrancam. A carreira é de 400 metros, em linha reta. A disputa é parelha, cabeça com cabeça. Os poucos espectadores são o Barão, Jaguar, Capincho, Recabarren, Laura, Bonifácia, Secretário, Delegado e Netto, atentos ou torcendo.

No meio do trajeto André bate com o rebenque no Negrinho, que mal se defende com o braço. Aproximam-se da chegada sempre juntos. Passam como um corisco diante de Netto e do Delegado. O Negrinho tem um corte no rosto.
- Ganhou o Minuano. Que le parece?
- Ganhou o Minuano. Ganhou por orelha, mas ganhou.

O Negrinho dá uma volta vitoriosa e retorna. Quando passa pelo humilhado André, este desfere um rebencaço nas suas costas. O Negrinho não reage. André salta do cavalo e se aproxima. Encara o Delegado e Netto.
- Eu cheguei na frente. A vitória foi minha.

O Barão abraça André e dá um beijo na sua face.
- A decisão dos juízes será aceita por nós. André se solta do pai, monta no cavalo e sai em disparada para o campo.
- Não somos deuses...
- E nem anjos.

6

O Cabo parece enlouquecido, babando de ódio.
- Respeito, respeito, respeito, índio sujo!

Tem o rosto contorcido e está dando uma surra de rebenque em Índio Torres, no chão, enrolado sobre si mesmo, suportando as pancadas. O Índio não se mexe, as mãos na cabeça. As pancadas caem nas suas costas. O Cabo já perdeu o fôlego. Catarino toca no ombro dele.
- Acho que ele está desmaiado, Cabo.
- É mentira. Essa é mais antiga que manivela de poço. Joga água na cara dele.

Amâncio apanha um balde com água, aproxima-se e arremessa a água sobre o rosto de Índio.

7

Laura, na janela, observa o grupo do Barão sumir na curva da coxilha. Netto se aproxima do Delegado, instalado na charrete, com o Secretário e Muçum.
- Então?
- Atado.

Apertam as mãos.
- Dez patacões.
- Para gastar com as chinas.
- Bem pensado. Anota aí, Secretário.

O Secretário vê Laura na janela, tira o chapéu e faz uma vênia.
- Quem vê, Senhora, claro e manifesto

O lindo ser de vossos olhos belos,
Se não perder a vista só em vê-los,
Já não paga o que deve a vosso gesto.

Muçum chicoteia os cavalos e a charrete arranca. A voz recitando o Soneto 16, de Camões, vai se perdendo. Netto fica olhando o grupo se afastar. Depois, olha para os lados do galpão. Lá está Bonifácia, pendurando no varal atrás do galpão roupas e lençóis que vai tirando de uma grande cesta. Bonifácia canta. O vento agita as roupas.

8

O vento agita roupas num varal. São roupas íntimas femininas. Uma mulher negra está pendurando roupas no varal. Cinco crianças, negras e brancas, cantam canções infantis no pátio do elegante casarão colonial, sede da estância e residência da família do Barão.

Na sala, uma jovem brinca com uma ave numa gaiola. É Clara, a filha do Barão.

Junto com ela mais cinco mulheres.

A bela Baronesa, mãe de Clara; a imponente e sombria Avó, toda de negro, mãe do Barão; Rejane, a viúva do irmão do Barão; a jovem escrava Maria, namorada do Negrinho; e a empregada Verônica, ex-escrava, mulher de Capincho. Formam um conjunto delicado e harmonioso na sala iluminada pelos raios de sol que entram através da grande janela.

Clara brinca com a ave engaiolada, Maria alisa com uma escova o cabelo de Clara, a Avó está enrolando um cigarro de palha. A Baronesa lê. Um menino negro, em pé ao lado da porta, escuta com infinita tristeza a música infantil que vem do lado de fora, onde brincam as cinco crianças.

Maria, escutando.
- Estão chegando.

Clara, excitada.
- Quem será que ganhou a carreira?
- Aposto que o André ganhou.

As quatro mulheres se dirigem alvoroçadas até a porta. Há uma certa tensão entre elas, na expectativa de saber quem ganhou a carreira.
- Meninas, se controlem.

A Avó fica na sala. Acende o palheiro.
- Aposto que o Diabo ganhou.

9

Clara, Maria, Rejane e Verônica avançam pelo corredor, dando risadas e gritinhos.
- A última é mulher do padre!

A Baronesa vem atrás. Verônica e Maria abrem a porta da entrada e saem para a varanda. A turma do Barão está diante da casa. Maria observa o Negrinho com inquietação. Trocam um olhar demorado quando ele passa diante dela, montado em Minuano, na direção do galpão. O Barão desmonta.
- E o André?

O Barão encolhe os ombros.

No próximo capítulo:
Onde se inicia o cruel suplício de índio Torres nas mãos do Sargento

» Veja trechos do filme
» Sobre as Cartas do domador


Leia os outros capítulos do folhetim:
» Capítulo 1
» Capítulo 2
» Capítulo 4


Tabajara Ruas, escritor e cineasta, está concluindo seu segundo longa-metragem, As Cartas do Domador.

Fale com Tabajara Ruas: taba.ruas@terra.com.br
 

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