
João Carlos Salles
A filosofia é escrita. E o filósofo, esse ser da palavra, nunca escreve apenas para si mesmo. A imagem do pensamento como um diálogo que, travado consigo mesmo, pudesse dispensar a linguagem, é talvez pouco mais que uma fantasia absurda. Por isso mesmo, porém, não bastasse o esforço por resolver suas aporias, por vencer sua própria indigência conceitual ou seus preconceitos, o filósofo precisa ainda enfrentar, ao fim e ao cabo, o olhar enviesado de seus leitores, sem os quais, todavia,
sua obra teria pouco sentido.
Na recepção de sua obra, o filósofo encontra um seu necessário complemento, embora, amiúde, também uma sua negação. E, devemos convir, é sempre pior a negação que simula deferência, a leitura torta que advoga a mais estrita ortodoxia ou a melhor tradução do pensamento, muitas vezes com objetivos didáticos. É o caso do marxismo em mãos de epígonos que pretenderam expressar sua verdadeira essência e, com isso, o traduziram e simplificaram. E, em geral, é o caso, lamentável e perigoso, dos "manuais de filosofia" - expressão que parece comportar uma contradição em termos. Por comparação, é bem melhor a sorte de um Kant, uma vez que, em lhe sendo negada a obra, não deixou de favorecer o florescimento de filosofias sabidamente outras e, com efeito, grandiosas. Na medida mesma em que afirmavam sua identidade e diferença, pensadores como Fichte, Schelling, Hegel ou Schopenhauer terminaram por lhe preservar um lugar específico, a ser visitado por quantos com ela desejem enriquecer-se.
Por bastante tempo, separando a notável exceção de excelentes leitores, foi bem mais desastroso o destino da obra de um Wittgenstein, que, grosso modo, padeceu recepções díspares e parciais, de sorte que o Tractatus, sua primeira grande obra, foi mal lido pela tradição tributária do Círculo de Viena, enquanto as Investigações Filosóficas sofreram com a filosofia de linguagem ordinária ou com o pragmatismo. Na ordem das perversões (que certamente nunca são unilaterais e também valorizam o que, em parte, negam), associam-se a tais leituras, a abordagem analítica do argumento da linguagem privada e a redução behaviorista de sua filosofia da psicologia. Todas elas, pretensamente, as melhores herdeiras do espólio.
O problema, porém, já começa mesmo nesse ponto, o de saber de que espólio afinal se trata e qual o corpo de textos que autoriza ou desautoriza nossas leituras. Afinal, no caso da obra de Wittgenstein, somado a todos os dissabores naturais ou previsíveis, um componente adicional foi comprometedor para sua recepção: os curadores do espólio, sendo também comentadores, condicionaram-lhe o acesso com seus maus bofes e sua má ecdótica. Não tendo Wittgenstein publicado quase nada em vida, seu vasto espólio de mais de 22 mil páginas foi então se tornando público e sendo lido com mutilações e na ordem das preferências dos editores, que assim parecem ter procurado poupar um pouco os leitores do trabalho de pensar.
É verdade que, a partir de 2000, a situação se modificou muito e rapidamente, tendo se tornado acessível aos comentadores o conjunto do espólio, cujo acesso anterior era bastante difícil ou simplesmente prejudicado pelas edições existentes. Tomemos apenas um exemplo de edição desastrosa, que nos interessa sobremaneira.
Em 1977, a Profa. G. E. M. Anscombe publicou a edição bilíngüe, em três partes, de um conjunto de manuscritos de Wittgenstein, sob o nome Bemerkungen über die Farben/ Remarks on Colours. Desde então, a obra foi também vertida em francês, italiano, espanhol e mesmo em português (Anotações sobre as Cores, Lisboa, Edições 70, 1987). Entretanto, mesmo quando não prejudicadas pelo desconhecimento do tema ou do pensamento de Wittgenstein (uma vez que o exclusivo conhecimento da língua original não é condição suficiente para a correta tradução de uma obra de filosofia), todas as traduções disponíveis estão comprometidas por um mesmo vício de origem, pois dependem desse texto primordial, muito mal estabelecido pela Profa. Anscombe.
O exemplo nos interessa por nos termos dedicado a restabelecer e a traduzir o texto original - material que hoje figura como segundo volume da tese de doutorado A Gramática das Cores em Wittgenstein, estando no prelo da Editora da Unicamp desde 1999, em virtude de não terem sido negociados os direitos autorais. E tal restabelecimento importou no acréscimo de 81 parágrafos e centenas de variantes omitidos pela editora. Importou ainda, com significativo ganho para a inteligibilidade da obra, na correta ordenação dos parágrafos da segunda parte, em uma datação bastante mais verossímil e mesmo na descoberta de um conjunto de parágrafos que merece, a justo título, ser incluído na obra como sua quarta parte. Apenas assim foi possível seguir fielmente as hesitações do original, exibindo, nessa importante obra, o percurso do pensamento de um dos maiores filósofos de todos os tempos.
O trabalho de ecdótica, de restituição da redação inicial do texto, não se justificou então como um mero luxo. Com ele, em verdade, passamos a ter um texto deveras diferente e, ademais, um acesso diferente ao texto, um modo de leitura que, entre outros, favorece o trabalho da clareza. Agora, podemos ver e ler, as Anotações sobre as Cores de Wittgenstein, escritas em seus últimos anos de vida, contêm um tratamento detalhado de proposições gramaticais, isto é, de proposições situadas entre a lógica e a empiria e que, por isso, sempre se constituíram em autêntico desafio filosófico.
Alguns exemplos de proposições gramaticais relativas a cores: "Não há um branco transparente"; "o cinza não pode ser luminoso"; "não há um
verde avermelhado". Wittgenstein investiga, assim, nesse texto fragmentado, a difícil lógica dos conceitos de cor, passando a situá-los em jogos de linguagem instalados em formas de vida. Com isso, o tema clássico da necessidade encontra uma nova formulação, vendo-se ameaçada, por exemplo, a definição corrente de "verdade de razão" como aquela verdadeira em todos os mundos possíveis.
O alvo imediato de Wittgenstein nessas anotações é a Doutrina das Cores de Goethe, mas o alcance de sua análise é deveras mais amplo. Contra uma bem estabelecida tradição de comentadores de Goethe, Wittgenstein enuncia uma heresia: Goethe não escreveu para pintores. Goethe, ele próprio um pintor aplicado, não podia escrever para a autoridade a que preferencialmente se dirigia. Essa situação paradoxal atestaria a falência de seu específico projeto fenomenológico. Entretanto, Goethe se encontraria na paradoxal situação de fazer má fenomenologia, apenas simplesmente por pretender fazê-la, por discorrer sobre o "caráter" da cor.
Mostrar-se-ia então sumamente paradoxal o projeto de uma qualquer fenomenologia, pois, ao tentar fixar a identidade da cor, ela deixaria necessariamente de escrever para suas autoridades preferenciais (as que mais se assenhoram de distinções no campo visual), servindo quando muito a decoradores, ou seja, a jogos conceituais limitados. A fenomenologia, condenada em seu fundamento a uma definição ostensiva da cor, seria incapaz de abandonar-se ao aprendizado da cor, no qual os pintores muito têm a ensinar. Escapam-lhe o jogo da ocorrência cromática e, sobretudo,
os jogos outros em nada exteriores ao emprego correto das palavras com que descrevemos nosso campo visual.
Com o paradoxo de Goethe, Wittgenstein enuncia o paradoxo essencial de uma fenomenologia: sua incapacidade diante de problemas fenomenológicos todavia legítimos. Ao discutir como relações internas podem ser flagradas pelo olhar e dispostas no próprio fenômeno, sua análise da lógica dos conceitos de cor nas Anotações sobre as Cores oferece-nos um exemplo bem sucedido de "terapia" de tais problemas, não mais importando
numa intolerável fixação de essências. Desse modo, o livro ocupa um posto central em sua obra, pois aprofunda temas que lhe são essenciais, servindo-se ainda dos resultados mais notáveis das Investigações Filosóficas e de suas observações sobre a filosofia da psicologia. Esses resultados, a nosso ver, são notáveis, mas não aparecem bem em um texto mal estabelecido, enquanto se nos afiguram claros no texto revivido das Anotações, com toda sua materialidade.
A linguagem deveria ser um vidro completamente cristalino, pensam alguns, sendo uma tal clareza sinal de uma boa concepção. Em um bom livro, chegam a dizer, não notaríamos sequer que se compõe de palavras, sendo verdadeiramente claro o livro que, no limite, nos tivesse abolido a linguagem. De certo modo, em muitos sentidos, não cabe à filosofia esse ideal de clareza. Muito pelo contrário. Afinal, até em conflito com ele, cabe à filosofia avivar a presença da linguagem, sopesar os conceitos, fazer sentir os compromissos advindos do uso das palavras. Sugerimos, pois, uma outra condição da clareza em filosofia, qual seja, a de sempre envolver um trabalho com textos, uma linguagem a ser compartilhada com o leitor. Mais ainda, sugerimos ser a clareza em filosofia sempre um desafio, um trabalho, que, misterioso, deve renascer no leitor e para cujo esforço, por vezes pleno de prazer, nunca há repouso.
Terra Magazine