Maria Falcão
Anote aí mais uma síndrome do mundo moderno: síndrome do olho seco. Sei que em meio a tantas - síndrome do pânico, do excesso de informação e da falta de, síndrome da fadiga em excesso, etc - essa talvez não desperte o interesse necessário para ser incluída em qualquer lista-de-problemas-a-se-preocupar. Mas aconselho uma olhadinha básica nos seus principais sintomas, causas e tratamento. Vai que um dia você precise, não é mesmo?Digo isso pois já fui do tipo que esquecia que olho era órgão e sei de muita gente igualzinha a mim. Pra falar a verdade só comecei a prestar mais atenção neles quando percebi que a minha performance na "leitura a distância" já não era mais a mesma.
Hoje tomo maiores cuidados, e depois que fiquei sabendo que 20 a 30% da população acima dos 50 anos tem problema de secura ocular, e que isso pode afetar a qualidade da visão ou até propiciar o aparecimento de infecções oculares, esse também passou a ser um tópico de prevenção para mim.
Para falar mais sobre a síndrome do olho seco, Terra Magazine conversou com a oftalmologista da Escola Paulista de Medicina, Dra. Tessa Mattos. Leia a entrevista:
Terra Magazine - O que é essa síndrome?
Dra. Tessa Matos - O olho seco é uma condição anormal da superfície do olho que se manifesta quando as pessoas produzem pouca lágrima ou a mesma é deficiente em alguns de seus componentes - pouca quantidade ou má qualidade. Esse problema é mais comum em mulheres e aumenta com a idade - depois de 60 anos, o índice de lacrimejamento diminui 85% em relação a alguém com 20 anos.
Quais são os principais sintomas dessa síndrome?
Em geral, os pacientes se queixam de sensação de queimação nos olhos, fotofobia (intolerância à luz em excesso), visão de halos coloridos, sensação de peso nos olhos ao final do dia, embaçamento e, claro, sensação de olhos secos, como se estivessem com areia ou com um corpo estranho incomodando a visão.
Por que tem o nome de síndrome?
Porque, associado à sensação de secura nos olhos, é comum o paciente referir também outras queixas como intolerância à luz, turvação visual, etc. E o que caracteriza uma síndrome é exatamente um conjunto de manifestações que não têm necessariamente a mesma origem ou localização.
Qual a causa?
Essa é uma condição multifatorial. Pode ter como causa problemas do próprio paciente ou fatores externos. Dentre os primeiros, a freqüência com que o indivíduo pisca é a principal causa. Quanto menor a freqüência das piscadas, maior a probabilidade de desenvolver secura nos olhos. Essa condição é muito comum entre pessoas que trabalham muitas horas no computador ou que ficam muito tempo na frente da televisão. Também está associada a algumas doenças tais como artrite, o lupus, a sarcoidiose, a Síndrome de Sjorgren, as alergias e as doenças de pele.
Dentre os fatores externos, temos fatores ambientais como ar condicionado, ventiladores e poluição; o uso de medicamentos, entre eles os descongestionantes, anti-alérgicos, tranqüilizantes, diuréticos e anti-hipertensivos (betabloquadores); e o uso de lentes de contato.
A secura ocular pode complicar e causar algum dano maior?
Uma pequena porcentagem de indivíduos desenvolvem quadros mais graves, que podem acometer a acuidade visual e levar ao desenvolvimento de úlceras e até perfuração da córnea. Em geral, contudo, a secura ocular não causa transtornos muito além do desconforto visual ou o aparecimento de infecções oculares.
Mais freqüentes, porém, do que complicações são as queixas de pacientes com relação à estética, já que o olho seco apresenta-se constantemente avermelhado.
Qual o tratamento?
Por ser uma condição multifatorial é importante uma boa avaliação clínica para se saber a causa. Em geral, o tratamento se divide em dois tipos: clínico e cirúrgico. O primeiro consiste em orientações gerais com o objetivo de preservar a lágrima ainda produzida pelo paciente, que pode ser feita por meio do uso de colírios lubrificantes, géis e pomadas, melhorando assim sua qualidade ou recuperando a quantidade de sua produção. O tratamento cirúrgico, por sua vez, usado em situações mais graves, pode constar de oclusão cirúrgica por meio de plugs dos pontos lacrimais, enxerto de glândulas salivares e tarsorrafia (fechamento da pálpebra em pacientes com paralisia facial, por exemplo, que não conseguem piscar).
Por que é mais comum em mulheres?
Acredita-se que na menopausa, por conta das alterações hormonais, as glândulas lacrimais sejam afetadas. O processo é mais ou menos semelhante ao que ocorre com as glândulas responsáveis pela lubrificação vaginal.
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