
Amilcar Bettega
Bruno caminha sozinho pelas ruas de sua Drohobycz natal. Ele está deprimido por tudo o que vem acontecendo, o cerco se fecha, as perspectivas não são as melhores. Bruno não se sente com forças para trabalhar, há várias semanas não escreve uma só linha e até a monotonia das aulas de desenho que dava no colégio a alunos desinteressados e sem talento, mesmo essas aulas, que tanto o cansavam e desviavam do seu verdadeiro trabalho, até isso agora lhe faz falta. As condições de vida são inumanas. A maior parte do tempo ele passa trancado em um porão úmido e insalubre que divide com tantos outros judeus do gueto. Há fome e doença. Seu estado físico declina na mesma proporção que o moral. É com certo repúdio que faz os trabalhos de pintura mural para decorar os prédios requisitados pelos alemães. Mas isto ao menos lhe permite gozar de alguma proteção de Felix Landau, o oficial da Gestapo que se interessou por aquele obscuro professor de desenho, sem o que as coisas seriam certamente muito piores.
Bruno caminha sozinho pelas ruas de Drohobycz, ele tem 50 anos e vai morrer daqui a poucos minutos.
Estamos em 1942, um ano antes Hitler quebrou o pacto de não-agressão com a União Soviética e Drohobycz pena agora sob domínio alemão. Antes disso, já prevendo o pior, Bruno dispersara quase todo o seu arquivo nas mãos de alguns conhecidos que julgara menos ameaçados e expostos do que ele. Desenhos, gravuras, cartas, e provavelmente os primeiros capítulos de O Messias, tudo é distribuído entre vários depositários.
E tudo será para sempre perdido.
Trinta anos depois de passado o furacão e seguindo pistas mais ou menos improváveis, Jerzy Ficowski vai escavar o pátio inteiro da casa de Maria Chasin, uma pianista talentosa e correspondente de Bruno, na tentativa de encontrar as cartas que ela teria enterrado antes de abandonar às pressas e para sempre a sua casa em Lodz, na Polônia central. Este fato é uma boa metáfora do trabalho incansável do principal biógrafo de Bruno. Graças a ele o futuro não deitará apenas sombras sobre o retrato de Bruno. (Alguns auto-retratos em bico de pena vão se tornar bastante conhecidos, além de meia dúzia de fotos que permitirão fixar para sempre a aparência física de Bruno; uma delas tenho diante dos olhos, e mostra um homem relativamente jovem sentado em uma escada, as pernas cruzadas, um livro aberto no colo e uma expressão que pode ser de extrema ironia, perversidade, demência ou debilidade mental - afinal quem é Bruno?). Graças a Ficowski salvam-se cento e trinta e duas cartas da maciça correspondência do inveterado missivista que é Bruno, cartas que permitirão recompor alguns traços da sua história pessoal, ainda que, é verdade, muitas delas sem nenhuma importância para a apreensão da sua obra - solicitações protocolares, assuntos de cunho prático e cotidiano -, e todas pertencentes a uma fase em que a missiva deixara de ser propriamente um trabalho literário. "Antes as cartas que eu escrevia eram a minha razão de viver, minha única produção literária. Pena não podermos retroceder nossa correspondência àquele tempo. Agora já não sei mais escrever", escreve Bruno ao crítico literário Andrzej Plesniewicz em 1936, quando já é um escritor cultuado no pequeno círculo de críticos, escritores e intelectuais ligados à vanguarda na Polônia de então.
Lojas de canela, seu livro de estréia, publicado dois anos antes, nasce das cartas que Bruno "era capaz" de escrever. E ali está, inteira e dilatada, a sua Drohobycz, suas ruas, suas casas de fachadas cegas, seu tédio incomensurável, seu provincianismo, mas jamais essa realidade é um retrato fiel, jamais ela é refletida de forma direta pelas palavras. Para Bruno "a realidade não é um reflexo mas uma sombra da palavra", aquilo que a palavra deforma para encontrar a sua verdadeira forma, uma sombra que libera, que dilata, que reenvia ao tempo mítico, à "época genial" da sua infância, ou mesmo antes: de todas as infâncias, encravadas no início dos tempos. É dessa época que Bruno fala naquelas cartas que diz serem "tocadas por certa beleza", e é dessa época que ele vai continuar falando nos relatos que compõem Sanatório, seu segundo e último livro publicado, que data de 1937.
Por uma espécie de auto-censura ligada ao rigor com que encara a criação artística, talvez ainda por medo de desapontar seus admiradores, esse ser naturalmente retraído retrai-se ainda mais. Trabalha com obstinação no Messias, mesmo sentindo que seus temas são cada vez mais difíceis de exprimir. E logo depois vem a sombra espessa da guerra. Bruno se sente invadido, levado de roldão pelos acontecimentos externos.
Mesmo assim, de alguma forma ele resiste, e isso será comprovado sessenta anos depois, quando em 2001, sob uma camada de pintura rosa e esmaecida, o cineasta alemão Benjamim Greissler vai descobrir fragmentos dos afrescos que Bruno pintara nas paredes do quarto do filho de Felix Landau, onde então poderemos reconhecer cenas dissimuladas do massacre em Drohobycz. A floresta de Bronica, por exemplo, local escolhido por Landau para executar 15.000 judeus, lá estará representada, juntamente com um cavaleiro imponente que pode ser o próprio carrasco Landau.
E Bruno resiste também quando aceita a proposta de alguns amigos de Varsóvia que querem lhe preparar documentos falsos e uma estratégia de fuga do gueto.
Assim é feito.
Mas alguns dias antes de o plano ser posto em prática, Bruno será essa figura triste que caminha só pelas ruas de Drohobycz.
Felix Landau é um homem de personalidade forte, tem poder e o exerce com convicção e fervor; é natural que desperte antipatias mesmo entre companheiros - é também por isso que Bruno vai morrer em poucos minutos.
O fim é mais ou menos conhecido e já faz parte da lenda: um pouco por provocação, um pouco por rivalidade ou para vingar alguma suposta humilhação avalizada pela hierarquia, um desafeto de Landau, também oficial da SS cujo nome a história não reterá, aponta agora sua carabina para a figura cabisbaixa de Bruno que caminha sozinho na rua.
Duas balas atingem-no na cabeça, o dia é 19 de novembro de 1942.
Bruno morre a poucos metros da casa onde nasceu. É um dos maiores escritores do século XX, uma personalidade artística fora do comum. Uma produção literária bastante significativa, tudo leva a crer, também desaparece na esteira da Shoah.
Mas os leitores de Bruno no mundo inteiro seguem seus passos pelas ruas de sua Drohobycz. De suas Drohobycz. Da Drohobycz natal que cada um de nós não cessa de palmilhar.
Terra Magazine