Moisés Storch
Terra Magazine tem publicado, semanalmente, duas visões sobre o conflito no Oriente Médio. Leia abaixo um artigo de Barry Davis, apresentado por Moisés Storch, coordenador dos Amigos Brasileiros do Paz Agora. O tema e a abordagem são de livre escolha dos autores.
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Construindo a Paz por Dentro
"A música nos liga às outras pessoas. São os generais e políticos que atrapalham."
Nos artigos Soluções para a questão palestino-israelense e Guerra deixou rastro de destruição dos dois lados, apresentamos iniciativas populares que demonstram existir formas de equacionar as principais razões do conflito.
A paz é possível, e pode-se até, imaginar como será.
Mas ambos os povos carecem de lideranças corajosas que lhes mostrem haver, para chegar lá, necessidade de grandes concessões de ambas as partes.
Por outro lado, uma paz sólida não será construída apenas através de acordos políticos. A paz verdadeira se faz entre pessoas.
Décadas de violência e incitação disseminaram entre israelenses a imagem dos árabes como terroristas, enquanto palestinos tendem a enxergar os judeus como opressores e usurpadores de suas terras.
É necessário substituir esses estereótipos demonizadores por uma visão do outro como ser humano comum. Isto só se consegue pela convivência, pela proximidade, pelo olho-no-olho.
Houve bastante progresso, nesse sentido, durante os "anos de Oslo", de 1993 até a intifada. Na época, floresceram inúmeras iniciativas de ações conjuntas entre israelenses e palestinos, que começaram a perceber os benefícios da coexistência.
Felizmente, apesar de anos de conflito violento e da propaganda de guerra em ambos os lados, centenas de ONG's e programas que agregam árabes e judeus continuam proliferando e semeando o entendimento.
O "Groupeace" é só um exemplo entre muitos outros que preparam o cimento para construir uma paz sólida.
Que virá.
Construindo a Paz pela Música
Construindo a Paz pela MúsicaEmbora seja comum ver judeus e árabes tocando música juntos em Israel, a iniciativa do "Ariel Nishri's Groupeace" tem ambições maiores, globais.
"Estou querendo juntar músicos de Israel e de todos os países árabes para tocar, tanto no Oriente Médio quanto no resto do mundo", diz Nishri. "A música é a linguagem universal, uma ponte entre culturas e gente de diferentes origens étnicas. Músicos não têm dificuldade em encontrar uma língua comum".
Os esforços pacifistas de Ariel Nishri, 39, têm uma influência hereditária. Sua mãe, Drora Havkin, foi uma cantora que se criou na Cidade Velha de Jerusalém dos anos '30, onde gozava de relações harmoniosas com vizinhos árabes.
"Ela sempre sentiu o sofrimento causado pelas guerras, sem qualquer conotação política", diz Nishri, acrescentando que isso não a impediu de ajudar a manter alta a moral de soldados israelenses durante as batalhas. "Na Guerra do Yom Kipur 1973 minhas irmãs e eu não vimos nossa mãe por dois meses. Ela estava ocupada cantando para as tropas no lado egípcio do canal de Suez".
Parte dos anos de formação de Nishri se passou com sua mãe na Holanda. Havkin voltou a Israel em 1984 deixando-o aos 17 anos para completar seu curso secundário. Foi nessa época que Havkin começou a se interessar pelas sinergias musicais com os artistas árabes locais.
Havkin fez logo uma parceria com um duo de músicos árabes da Galiléia, o percussionista Salem Darwish e o violinista George Samaan, e começaram juntos a se apresentar por todo o país. "Parece-me que o trio Drora, Salem e George foi a primeira banda judia-árabe a levar a mensagem de que podemos seguir todos juntos, dando o exemplo de fazermos música juntos.
"Não havia nenhuma intenção política ali. Na medida em que 300 pessoas numa audiência passavam uma ou duas horas ouvindo árabes e judeus tocando música juntos, no mesmo palco, e guardavam uma experiência prazerosa, os músicos tinham cumprido sua tarefa. Para Drora, Salem e George era simples assim. É isso que desejo fazer com o Groupeace."
Havkin faleceu subitamente em 1995, e neste ano Nishri, seu parceiro Yifat e a irmã Shiri organizaram um show em sua memória em Tel Aviv, em que se apresentaram muitos artistas israelenses famosos, judeus e árabes, de estilos pop, rock e étnicos, incluindo naturalmente Darwish e Samaan.
"Enquando trabalhávamos no concerto, começamos a perceber a existência de mais e mais bandas e instrumentistas do tipo que Drora gostava - bandas como "Hisham & Friends". Havia muita coisa para mostrar de judeus, árabes, e gente de todas as origens, tocando música e vivendo juntos".
"Hisham & Friends" foi um dos shows recentemente exibidos às margens do Mar da Galiléia, ao lado de muitas bandas. O "Hisham" em questão é o instrumentista do úde ancestral árabe do violão Hisham Abu-Me'iteg.
Abu-Me'iteg e Guivati - principal guitarrista da banda - encontraram-se por acaso no deserto da Judéia perto do oásis de Ein Guedi. "Começamos imediatamente a tocar juntos e tudo rolou muito bem", recorda Guivati. "Não existiam barreiras entre nós e nenhuma necessidade de explicar nada".
Para Guivati, o "Hisham & Friends", que inclui três judeus, um muçulmano e um árabe cristão de Nazaré, simboliza o que é o Groupeace. "A música nos liga às outras pessoas. São os generais e políticos que ficam no caminho. Passei um mês na casa do Hisham na Jordânia, e ele ficou comigo em Israel. Não se trata apenas de nos tornarmos amigos. Mostramos que qualquer um pode conviver independentemente de suas raízes étnicas, culturais ou religiosas".
O violinista do grupo Ihab Nimer, cristão de Nazaré, endossa totalmente os comentários de Guivati: "Música é apenas música. Eu venho de uma formação em música clássica árabe, mas não tenho nenhuma dificuldade em tocar com instrumentistas - judeus, muçulmanos, cristãos, ou quaisquer outros - que venham de uma área diferente da música".
Enquanto isto, Nishri planeja levar o seu Groupeace para a estrada, e pelo mundo. Está negociando com um famoso compositor e produtor londrino um projeto para realizar gravações conjuntas de cantoras israelenses com parceiras vindas de diferentes países árabes.
"É um tipo de conceito 'Cantando pela Paz'", diz Nishri. "A idéia é que uma cantora judia convide uma árabe para gravar em dueto, e vice-versa. As gravações serão feitas em Londres, Israel e nos países árabes em questão, e terão como resultado um álbum transcultural. Espero que isso ajude a propagar a mensagem do Groupeace. Será uma co-produção judaica-árabe-cristã-muçulmana. Todos unidos em benefício de cada um".
Naturalmente, haverá alguns inevitáveis problemas logísticos e políticos. "Há músicos que possivelmente não conseguiremos trazer a Israel, como os iranianos. Mas eles poderão tocar juntos em outros lugares", explica Nishri.
"Minha mãe não tinha grandes ilusões quanto a acabar com todas as guerras ou mudar o mundo com um show ou dois, mas ela, Salem e George, e outros como eles, procuraram gerar o que chamavam de 'a paz por dentro'. É disto que precisamos".
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