folhetim de Tabajara Ruas
Onde se conta com muito pesar o cruel suplício de Índio Torres nas mãos do sargento
1
O Soldado Henrique está de costas. Vira-se de repente e joga uma faca.
A faca crava no palanque, rente à cabeça de Índio Torres, ainda pingando água. O Cabo se aproxima.
- Mandaram te esfaquear, Índio. Vai por bem ou vamos ter que te amansar?
Henrique apanha sua faca e a encosta na garganta do Índio.
- Acho que ele vai por bem, Cabo.
Amâncio solta o Índio das grossas correntes que o prendem ao palanque. O Sargento sobe lentamente a escada, observando com frieza. Catarino amarra em cada pulso do Índio uma comprida corda de couro.
Amâncio e Henrique montam a cavalo e esporeiam os animais. Índio é arrastado no chão por uns dez metros. O Sargento está apoiado ao parapeito, enrolando um palheiro contra o vento. Índio Torres começa a se debater com desespero.
- Assim que eu gosto, Índio, resiste!
Índio é mais uma vez arrastado. O Sargento tenta acender o palheiro com um isqueiro de corda, protegendo-se do vento.
2
O olho de André, enorme de luxúria e culpa, espia por um buraquinho na parede.
André está excitado, o rosto suado. Pelo buraco ele espia Clara tomar banho.
Ela está nua, em pé na tina, e Verônica está despejando na sua cabeça baldes de água morna.
Ao lado, com uma toalha na mão, a tia.
3
Maria está acendendo a vela diante do altar da Virgem Maria.
- Maria, tem escravo deixando as estâncias e se reunindo no meio do mato. Maria, Maria.
Maria se volta para o Negrinho, deitado sobre pelegos. Ele está tenso, fumando um palheiro. Maria começa a tratar a ferida no seu rosto.
- O quê?
- Vai começar uma guerra contra os senhores.
- Bobagem. Não quero saber dessas coisas. Preciso ir. Está na hora de servir o jantar.
- Estão espalhando a notícia. Uma guerra pela libertação. Eu vou fugir, Maria. Eu vou me encontrar com eles e depois venho te buscar.
- Eles quem? Me buscar? E me levar para onde?
- Qualquer lugar longe daqui.
- Vamos ser perseguidos.
- Nunca vão nos pegar.
- Não posso fugir!
- Besteira! Não pode por quê?
- Eu tenho um filho na barriga, Negrinho. Um filho nosso!
Negrinho e Maria se olham assustados, depois se abraçam.
4
Há uma pequena fogueira no galpão. Junto dela está Recabarren, tomando mate, de olho num pedaço de carne nas brasas. Netto, do lado de fora, apoiado a um tronco, fuma.
- Massacramos milhares de índios nas Missões e nos encheram de medalhas - diz Recabarren lutando com a fumaça que entra em seus olhos. - Alguém pode comer uma medalha? Sabe o que eu ganhei nessa guerra, depois de matar pelos menos duzentos guaranis com faca e garrucha?
Até eles chegam os ruídos de Laura tomando banho numa tina, atrás do tabique que divide o galpão. Bonifácia canta enquanto derrama água sobre Laura.
- Fome, meu amigo... fome... e remorso.
Netto fuma. A voz de Bonifácia é bonita e triste. Escutam um momento.
- Quantos índios matamos nas Missões? Nunca vi um banho de sangue igual... mas quem se importa?
Recabarren ergue um brinde para Netto.
- Pra aplacar o incômodo do remorso, nada como um pouco de carne gorda, um pouco de amizade, um pouco de música e, se possível, um pouco de consolo de uma mulher bonita...
Agora os ruídos são de Laura se vestindo.
- Mas isso já é pedir demais. A verdade é que cada homem tem seu remorso. Inda que mal le pergunte, senhor Antônio, qual é o seu remorso?
Sombrio, Netto olha com desprezo para Recabarren.
Recabarren suspira. Oferece um copo de pinga para Netto.
- Não quis ofender. É que, às vezes, existem remorsos públicos.
- Os meus são particulares.
5
André, humilhado e deprimido, sai da casa pelos fundos e se dirige para a casa do capataz. Começa a ouvir a voz de Capincho.
- ... o estancieiro mandou amarrar o Negrinho pelos pulsos a um palanque e dar-lhe, dar-lhe uma surra de relho. E quando já era noite fechada mandou que fosse campear os cavalos perdidos. Rengueando, chorando e gemendo o Negrinho pensou na sua madrinha Nossa Senhora...
Capincho está num recanto arborizado, cercado por cinco crianças. A menor, de três anos, está no seu colo. Duas das crianças são filhos de Capincho, as outras de empregados da estância.
- ... e foi ao oratório da casa, tomou o coto de vela aceso em frente da imagem e saiu para o campo. Por coxilhas e canhadas, na beira dos lagõoes, nos paradeiros e nas restingas, por onde o Negrinho ia passando, a vela benta ia pingando cera no chão, e de cada pingo nascia uma luz nova, e já eram tantas que clareavam tudo. Capincho vê André e percebe seu mal-estar. - Vou terminar a história depois. Deposita a criança no chão. - Agora me deixem falar com seu André.
As crianças protestam, mas Capincho as põe a correr, bem humorado. Aproxima-se de André.
- Que cara é essa? Ta mais sério do que burro atolado. Um dia a gente ganha, outro a gente perde.
- Hoje eu não perdi.
- Não?
- Meu pai perdeu.
- O quê que o Barão perdeu, André?
André fica num silêncio rancoroso.
6
O Índio Torres, em posição fetal, ainda amarrado aos cavalos de Henrique e Amâncio, tenta descobrir se tem algum osso quebrado depois do arrastão. Sente dores em todo o corpo.
Catarino, perto dele, começa a pregar estacas de madeira no chão.
- Vamos, vamos, chega de preguiça.
Henrique e Amâncio esporeiam seus cavalos e obrigam o Índio a ficar com os braços abertos, em cruz, estirado no chão.
O Sargento e o Cabo começam a amarrar os pulsos e tornozelos do Índio às estacas de madeira.
- Isso é pra tu ver como nós somos bonzinhos, Índio.
- Estamos te dando um cobertor pra que tu não sinta frio.
O Índio é obrigado a sentar, com os braços espichados por cordas. O Cabo apanha o couro de vaca, sujo de sangue, se ajoelha e começa a enrolá-lo com força no corpo de Índio Torres.
- Boa noite, sargento Jesus. Vai ser uma noite comprida.
No próximo capítulo:
De como se narra a reunião secreta de Netto com os quilombolas
» Veja trechos do filme
» Sobre as Cartas do domador
Leia os outros capítulos do folhetim:
» Capítulo 1
» Capítulo 2
» Capítulo 3
» Capítulo 5