Terra Magazine

 

Segunda, 23 de outubro de 2006, 07h53

Dans son île

Fernando Eichenberg

"La vie c'est la vie: il faut se la vivre", canta Henri Salvador na abertura de seu novo disco, recém-lançado na França. O lugar-comum e a banalidade da afirmação de que "a vida é a vida: é preciso vivê-la" adquire, no entanto, contornos musicais e existenciais únicos pela sua voz e sua entonação. No auge de seus 89 anos, Henri Salvador está de volta. Seis anos depois de "Chambre avec vue", trabalho que o reconciliou com as influências do jazz e da bossa nova e com sua música da melhor qualidade, o crooner francês retorna à boa forma com "Révérence", um álbum com a predominância de sonoridades brasileiras. Oito dos 13 títulos foram gravados no Brasil, com arranjos de Jacques Morelenbaum e as participações dos músicos João Donato, Jorge Helder, Lula Galvão, Paulo Braga e Marcelo Costa.

O disco apresenta duos com Caetano Veloso ("Cherche la rose", que fez sucesso na voz de Marlene Dietrich) e Gilberto Gil ("Eu sei que vou te amar", também cantada uma segunda vez no cd numa versão francesa adaptada por Georges Moustaki). "Dans mon île", composta por Henri Salvador em 1957 e conhecida no Brasil pela versão de Caetano Veloso, inicialmente nem deveria entrar no repertório. Mas, por um pedido de Morelenbaum, foi incluída e, inclusive, se tornou a canção do videoclipe de promoção do disco na França. Além da etapa brasileira, Henri Salvador gravou canções inéditas na França com o arranjador Michel Coeuriot, num estilo mais jazzy e big band, e também recebeu de Nova Iorque a contribuição de Mino Cinelu para uma versão de "Hallelujah I Love Her So", de Ray Charles, transformada em francês em "Alléluia! Je l'ai dans la peau!".

Na temporada de quase um mês em que passou hospedado no Copacabana Palace, mesmo que aprecie dizer que não é muito chegado em trabalhar, cumpriu com rigor (e com prazer) as sessões de gravações em estúdio. Foi a primeira vez que reviu o Rio depois de ter deixado a cidade no início de 1945, num período em que excursionou pela América do Sul com a orquestra de Ray Ventura e permaneceu por quatro anos no Brasil. Sua experiência carioca, no entanto, foi um "desastre", como ele mesmo já definiu. Enganado no amor, roubado no contrato e chantageado por um policial, ele só experimentava algum prazer ao receber o calor e os aplausos do público quando se apresentava em cena. "Achei que nunca mais retornaria ao Rio. Como fui muito infeliz naquela viagem, não queria voltar. Mas hoje não me arrependo de ter retornado. Foi maravilhoso", disse em entrevista a Terra Magazine, acomodado num canto do bar do mítico hotel Ritz, na Place Vendôme, em Paris.

Depois de tanto tempo separados, o destino deu um jeito de encurtar ainda mais a distância entre Henri Salvador e o Brasil. Em breve, ele retornará ao país em duas ocasiões. Em dezembro, participará no Brasil das filmagens de uma produção canadense. Em fevereiro, durante o Carnaval, interpretará um personagem num filme do amigo Quincy Jones, em que salvará crianças da favela e, como bônus, cantará três canções.

"La vie ça se vie/ jusqu'à en crever", termina a canção que abre o novo disco. A vida se vive, até a morte. Com "Révérence", Henri Salvador mostra que continua bem vivo, espantando a morte com sua voz, suas sonoras risadas e suas canções.

Terra Magazine - Por que o título do disco é Révérence?
Henri Salvador -
Porque é uma despedida. Mas do palco, não de discos. Enquanto ainda tiver voz, continuarei a cantar e a fazer discos. É preciso aproveitar, não? Mas vou levar com mais vagar a cena, para, mais tarde, parar. Agora sou um velho (em português). Estou fechando a barraca (em português).

Mas o senhor fará alguns shows para o lançamento do disco.
Muito poucos. Será a última turnê, já estou muito velho, 89 anos. Mas a voz ainda está muito boa. No Brasil eles querem que eu vá fazer shows. Veremos.

Como surgiu a idéia deste disco?
Tinha assistido ao show de Caetano Veloso aqui em Paris, e quando escutei Jacques Morelenbaum, me disse: "Esse aí, tenho de fazer algo com ele". Fui vê-lo no New Morning (casa de jazz parisiense) e percebi que ele falava português e inglês. Logo me dei conta de que ele não poderia fazer um disco aqui, pois os franceses só falam uma língua, o francês. Propus fazermos um disco juntos no Brasil e ele ficou muito contente. Ainda mais, tive a chance de contar com os músicos de (Tom) Jobim e pudemos fazer um belo trabalho. E na língua dele. Havia pensado nele, também em (Ryuichi) Sakamoto e num terceiro arranjador. No final, tive ele e, em Paris, Michel Coeuriot, um ótimo arranjador francês, e ficou tudo perfeito. Havia uma orquestra, de 18 ou 19 instrumentistas, e havia inclusive uma flautista francesa, muito simpática. Conheci o baterista de Jobim, muito divertido. São todos muito talentosos no país, sabem voar musicalmente. Fiquei um mês no Brasil, no Copacabana Palace, muito bem (em português). Acho que há uma coesão no disco entre o trabalho de Morelenbaum, no Brasil, de Coeuriot, na França, e de Mino Cinelu, que trabalhou na canção de Ray Charles, em Nova Iorque.

Por que uma canção de Ray Charles?
Eu havia visto no cinema o filme sobre Ray Charles. Em Paris, havia feito um duo com ele no prêmio Victoires de la Musique. Ele foi muito gentil e simpático. Eu quis lhe fazer uma homenagem, porque era uma pessoa maravilhosa. Conheci Mino Cinelu aqui, graças a uma amiga minha, a atriz Mylène Demongeot. Ele trabalhou no arranjo em Nova Iorque, me enviou a fita, e fizemos o resto aqui em Paris.

Como se deu a escolha das demais canções?
As escolhas foram todas minhas. Eu que compus e eu que escolhi. Compus todas para o disco. Fiquei três anos preparando o material. E tenho um ótimo letrista. Mas cantei Dans mon île por causa de Morelenbaum, foi ele que pediu. Eu não pretendia cantar, mas ele disse: "Aqui é um sucesso". Então cantei para lhe dar prazer.

"Eu sei que vou te amar" tem duas versões no disco, uma em que o senhor canta sozinho, em francês, e outra em duo com Gilberto Gil, em português.
Essa fui eu que escolhi, para prestar uma homenagem a Jobim. Não conhecia essa canção, fui ouvir lá no Brasil, e me disse: "Quero cantar essa". Jacques adorou. E foi o pianista (João Donato) que pediu para tocar comigo. Parece que ele não quer tocar com ninguém, só gostava de Jobim. Outra surpresa foi que Caetano pediu para fazer um duo comigo. E quando já havia terminado de gravar com Caetano, foi Gilberto Gil que disse: "Mas eu também quero". E foi Gil que escolheu "Eu sei que vou te amar". Fiquei um pouco embaraçado, porque já tinha gravado a mesma música na França. Então eles pegaram a minha fita, gravaram com Gil e depois mixaram. Se percebe que há uma montagem, mas não tem importância, ficou um duo. Não gravamos juntos porque ele não estava lá. Como ministro da Cultura ele tem de fazer seus discursos por todo lugar (risos). Mas fiquei orgulhoso, porque foram os dois que pediram para fazer duos comigo no disco. São duas enormes personalidades do Brasil.

Como foi o encontro com João Donato?
Maravilhoso. Ele pediu a Morelenbaum: "Eu quero Salvador". Ele tocou nas oito canções que gravei no Brasil. Ele tem uma bela sonoridade, é um grande pianista. Eu não o conhecia, é um senhor imenso, tem dedos enormes. Foi muito gentil e rimos bastante juntos. Fizemos uma soirée na casa de Morelenbaum, todos estavam lá. Eu fui recebido como um príncipe lá. Fui a Brasília, porque Gilberto Gil me fez condecorar. Mas é algo formidável, porque os brasileiros não me esqueceram. E, no entanto, tinha partido em 1945. Acho que foi graças à canção "Dans mon île", pois todos me disseram que Jobim havia feito a bossa nova por causa dessa música, que ele havia escutado no filme italiano "Europa di notte" (1959). Ele teria sido muito influenciado pela música, trabalhou nisso e desde então Salvador e a bossa nova fazem um casal.

Como "Dans mon île" poderia ter inspirado a bossa nova?
Era um bolero. Mas ele disse o que tinha de ser feito: diminuir o tempo do samba e fazer belos acordes e belas melodias. E ele encontrou o ritmo diferente que deu a volta ao mundo. É algo maravilhoso o que ele fez.

O senhor considera a bossa nova ainda uma música moderna?
Certamente. Ela é mesmo de vanguarda. É um ritmo que inspira muito a melodia. Jobim tinha um talento imenso. Era um melodista de alto nível, formidável. Tenho grande admiração por ele. Para mim, a mais bela música do mundo é a brasileira. O que se pede de uma música? Uma melodia com um belo acompanhamento. A bossa nova é isso. Todas as músicas do mundo podem ser feitas em bossa nova.

O senhor gosta de jazz, música clássica, mas detesta o rock e o rap.
O jazz é aberto em relação à música clássica porque há a improvisação, pode-se voar. A música clássica deve respeitar o que foi escrito, não pode se deixar levar. É o único defeito do clássico. Mas ainda há pessoas adiante de seu tempo. Para mim, a música começa com Ravel. Depois, mais a música se complica mais eu gosto. Gosto quando a música arranha. Stravinsky e Prokofiev eu adoro. Hindemith.

O que o senhor acha da música francesa de hoje?
É difícil de achar (risos). O que me agrada no Brasil é que, quando se entra num táxi, o rádio toca música brasileira. Na França, não se respeita a música francesa. Aqui gostamos de tudo, exceto do essencial. É uma infelicidade. Isso é uma pena. Os brasileiros, ao menos, gostam de sua música.

O senhor acredita que na França os crooners estão em extinção?
Não sei. Mas, em todo caso, tudo o que ouço aqui grita, não canta. Não se sabe utilizar o microfone, e, entretanto, foi a mais bela invenção do século. O ouvido se torna mais sensível. Mas o cara vai lá e urra dentro do microfone. Não entenderam nada. Mas, azar. Eles que se virem (risos).

Para manter a boa forma, o senhor ainda dorme 11 horas por dia e pratica ioga de respiração ou algo mudou?
Não mudou. Quando a receita é boa, deve-se mantê-la (risos).

Esse retorno ao Rio apagou definitivamente as más lembranças de sua primeira viagem, nos anos 40?
Naquela vez foi horrível. Estava extremamente infeliz. E, ainda mais, estava com uma mulher que me traía. Era o inferno durante o dia e o paraíso à noite, pois havia o público. Um público maravilhoso, muito carinhoso, simpático. Acho que os brasileiros gostam muito da França.

O senhor se sente um pouco brasileiro de espírito...
Sou um pouco do Brasil, pois nasci na Guiana, é a mesma terra. A mentalidade é também a mesma, é um país do sol, onde há senso de humor e se ri muito. Sou bastante brasileiro de caráter, isso é verdade. E todo mundo sabe que os brasileiros são, por assim dizer, pessoas otimistas e felizes.

"La vie c'est la vie, il faut se la vivre, jusqu'à en crever". ("a vida é a vida, é preciso vivê-la, até a morte", versos da canção) Poderia ser o seu lema?
Não se pode fazer a ligação direta entre as letras das músicas e eu. Eu recebo as letras e componho a música em cima. Mas creio que como as interpreto com bastante sinceridade, as pessoas fazem essas relações. Mas acho que combina bem, pois para uma pessoa da minha idade é bom que eu diga para os jovens que a vida é a vida, é preciso vivê-la. E essa música combina muito com o todo o disco.


Fernando Eichenberg, jornalista, vive há nove anos em Paris, de onde colabora para diversos veículos jornalísticos brasileiros.
 

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