folhetim de Tabajara Ruas
Onde se narra a reunião secreta de Netto com os quilombolas
1
Maria avança da cozinha em direção à sala de jantar com uma grande travessa de comida. Ouvem-se vozes.
- Se vosmecê se sente humilhado, meu filho, é porque ignorou o meu parecer contra essa carreira.
- Eu garanto que...
A família toda está em volta da longa mesa coberta por toalha de linho, com pratos e talheres e guardanapos de boa qualidade e certa elegância. Há velas acesas em candelabros. O Barão está na cabeceira, a Baronesa, na outra ponta; a Avó e Rejane em um lado, Clara e André no outro. Verônica supervisiona. Há um menino negro em pé a um canto. Maria põe a bandeja na mesa e se afasta.
- Vosmecê foi humilhado por um escravo. E eu fiquei humilhado vendo meu filho humilhado por um escravo. E por que tudo isso?
André vai falar, o Barão continua:
- Porque o senhor contestou minha autoridade. Quando eu disse que o baio pilotado pelo Negrinho era mais rápido, não era porque eu queria lhe rebaixar, era porque eu conheço esses animais. O senhor não aceitou a experiência do seu pai. Resultado: humilhação.
- Júlio, meu filho, essa corrida de hoje, promovida por Vosmecê, foi uma das coisas mais esdrúxulas que eu já vi na minha vida.
- Mamãe.
- Tu sabes, meu querido, o que quer dizer esdrúxulo?
2
Bonifácia espia por uma fresta do galpão. Netto está sem camisa, lavando-se numa bacia, com um balde e toalha. Netto percebe que está sendo espiado.
- Por que ele está preso?
Bonifácia aparece na porta, Netto continua se lavando.
- Se vosmecê conhece o Índio sabe que motivos não devem faltar.
- É... Quantos soldados no posto? Contei quatro.
- Quatro, mais o sargento. Um homem mau.
- Já que estou no inferno, morena, não custa dar um abraço no Diabo.
- Meu nome é Bonifácia, senhor...
- Antônio. Dona Bonifácia, então me diga uma coisa: a senhora conhece algum amigo do Índio?
- Eu sou amigo do Índio.
Netto se volta. Na sombra está um vulto que dá um passo adiante. É um negro enorme.
- É amigo do Índio? E quem é vossa graça?
- O nome é Caldeira. E vosmecê está convidado para conhecer outros amigos do Índio. Esta noite.
3
- O piloto do Minuano sempre foi o Negrinho. O André não quis aceitar isso e fez um desafio. Não posso arriscar perder cem patacões.
- Júlio, antes que eu me esqueça, precisamos providenciar os convites para o aniversário de Clara - disse a Baronesa, tentando mudar de assunto. - Não podemos repetir o que aconteceu no ano passado.
- Quantas patacas, Júlio? - a Avó, com dureza.
- Cem, mamãe.
- Cem patacas de ouro! A que tempos chegamos. Respeito vale mais do que uma montanha de patacas de ouro.
- No ano passado os convites não chegaram a tempo.
- Acho que ninguém nesta casa sabe o quer dizer esdrúxulo.
- Há uma guerra se aproximando. Alguém ignora isso? - O Barão passeou seu olhar severo pelos rostos dos familiares. - Vou dar um aviso bem claro, para todos: não quero mais ver minha autoridade contestada nesta casa, ou vou ser obrigado a me fazer respeitar.
4
O Negrinho se esgueira cuidadosamente atrás de uma cerca do curral, puxando um cavalo pela rédea. Afasta-se um pouco mais, monta em pêlo e cutuca o animal com os calcanhares, arrancando num galope silencioso.
5
Netto e Caldeira cavalgam num rio estreito e sinuoso, com grandes barrancas formadas pela erosão. Parece que estão num túnel. O leito é arenoso, a água dá na canela dos cavalos.
Ao longe, na sua frente, num halo de luz, aparece um cavaleiro negro, carregando uma tocha e aproximando-se vagarosamente. É uma aparição diabólica e ameaçadora.
Netto puxa a rédea e olha para trás. Surpresa: há mais dois cavaleiros atrás de si: Espada, de 22 anos e Tomás, de 17. Está cercado.
O cavaleiro com a tocha se aproxima. É Lança, 40 anos. Veste uma casaca esfarrapada e usa uma cartola. Tem o porte orgulhoso e sarcástico.
Todos cercam Netto e Caldeira.
- Quem é ele?
- Diz que é amigo do Índio.
- O que vosmecê quer?
Bonifácia chega a galope.
- Libertar o Índio.
- Não acredito nele. Veio nos espiar.
- Espere! Por que quer libertar Índio Torres?
- Porque sou amigo dele.
- Muito bem. E além disso...
- Temos um trabalho a fazer.
- E que trabalho é esse?
Desta vez quem chega é o Negrinho, a cavalo.
- Lutar contra o Império.
- Eu não luto contra o Império.
- Luta contra quem, então?
- Contra os brancos!
Espada salta contra Netto e o derruba na água, puxando-o pelo pescoço.
Lança salta do cavalo e encosta a ponta da faca no pescoço de Netto.
Espada segura Netto com um abraço.
Lança e Netto ficam se olhando nos olhos.
- Quem é vosmecê?
- Oficial do exército liberal republicano.
- Isso não existe! Não acredito nesse branco.
- Vamos libertar o Índio e perguntar pra ele.
Caldeira toca no ombro de Lança que afrouxa os músculos e retira a faca do pescoço de Netto.
- Eu não quero perguntar nada praquele Índio tramposo. Ele me roubou no jogo de cartas.
Os lanceiros riem, a pressão diminui.
- O Índio e eu fazemos parte de um exército de negros e de gaúchos.
- Quem acredita nele?
Bonifácia desfere um golpe com o punho na cabeça de Lança.
- Eu acredito, seu negro burro! Chega de conversa fiada! Não estão escutando o homem? Ele quer libertar nosso amigo e precisa de ajuda. Querem mais explicação?
- Silêncio todos! Silêncio, mulher.
Aproxima o rosto de Netto.
- Muito bem. Vosmecê quer mesmo libertar o Índio Torres? Então nos diga, cavaleiro: como?
No próximo capítulo:
De como se narra os acontecimentos de uma festiva manhã de domingo na fronteira sul
» Veja trechos do filme
» Sobre as Cartas do domador
Leia os outros capítulos do folhetim:
» Capítulo 1
» Capítulo 2
» Capítulo 3
» Capítulo 4
» Capítulo 6