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Sábado, 28 de outubro de 2006, 08h04

Muito além da pirataria

Caique Severo

Esta semana fiquei sabendo que a Coca-Cola está patrocinando conteúdo distribuído nas redes peer-to-peer, os famosos sistemas de download normalmente de conteúdo pirata na internet. Durante anos as empresas que criaram esses sistemas, como o próprio BitTorrent, argumentaram que eles poderiam servir para fins mais dignos do que baixar filmes que nem foram lançados no mercado ainda.

A ação da Coca-Cola prova isso com a colocação de um video do rapper Jay-Z, com trechos de um show e cenas de bastidores, nas redes P2P (abreviação para peer-to-peer, que significa de usuário para usuário). Quem faz uma busca por Jay-Z nessas redes, além de CDs piratas inteiros do artista, vai acabar encontrando o filme da Coca-Cola. E o conteúdo patrocinado pela marca tem bastante valor. É bem produzido, exclusivo, e traz um artista no auge do sucesso.

Uma das vantagens de distribuir conteúdo em redes P2P é que os custos de download são arcados pelo consumidor, já que os bits trafegam entre os computadores do usuário, sem passar pelos servidores da empresa. Normalmente, se você vai ao site de uma empresa assistir a um vídeo, o consumo de banda é todo arcado pelo dono do site. Aqui, não. Os usuários transferem os arquivos uns para os outros, automaticamente. Hoje são mais de 9 milhões de usuários simultâneos desse tipo de serviço. Quanto mais gente tiver o mesmo arquivo, mais rápido é o download.

Hoje em dia, o BitTorrent já é usado para a venda de conteúdo pela internet. O estúdio de cinema Warner Bros tem acordo com a empresa para usar a tecnologia para distribuir os filmes que vende na rede.

Outros artistas, como Audioslave, Ice Cube e Yellowcard, segundo reportagem do Wall Street Journal, utilizam essas redes de forma diferente. O usuário pode baixar a música e ouvir uma parte, mas para ter direito à música completa, ele deve encaminhá-la para um número determinado de amigos.

É uma grande virada na imagem desse tipo de serviço, que até agora é tratado como inimigo pelas empresas produtoras de conteúdo e entretenimento. As gravadoras ganharam um processo contra um serviço chamado Grokster. Até arquivos falsos de música eram colocados na rede para desestimular seu uso. Aos poucos essa tecnologia vai ganhar legitimidade e ser explorada em toda a sua capacidade de forma legalizada.


Caique Severo é jornalista e trabalha com internet desde 1995. É diretor de serviços de valor agregado de comunicação da DM9DDB.

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