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Sexta, 3 de novembro de 2006, 07h36

As cartas do domador - Capítulo 6

folhetim de Tabajara Ruas

Onde se conta os acontecimentos de uma aprazível manhã de domingo na fronteira sul

1

O sol está surgindo na linha do horizonte. Um tahan solta seu grito e levanta vôo.

Recabarren abre a janela do bolicho.

O churrasqueiro e dois peões carneiam a vaca. O sangue vai enchendo um balde. Colorado e outros cachorros espreitam.

Netto está se lavando, sem camisa, junto ao poço.

Laura ao espelho. Ela deixa o espelho e espia por uma fresta para fora. Duas carroças carregadas de gente se aproximam. São aficionados das carreiras que vêm com suas famílias.

Bonifácia chega para apanhar água. O vira-lata Colorado vem junto. Netto brinca com ele.
- Aí, Colorado, hoje vai ter fandango dos bons.

Começa a caminhar na direção do galpão, atando o lenço ao pescoço.

2

Índio Torres estaqueado no chão, enrolado no couro de vaca. O Sargento está inclinado sobre ele. O Sargento tem o rosto recém barbeado e o panfleto na mão. O rosto de Índio denota sofrimento e resistência tenaz
- Pela última vez, Índio, quem fez este panfleto?

O Índio não mexe um músculo.
- Muito bem, se tu quer ficar aí até os ossos estalarem, bom proveito. De noite o couro não encolhe muito, mas quando o sol torrar, Índio, aí é que tu vai ver o que é bom.

Levanta-se.
- Quando eu voltar das carreiras, renegado de merda, tu vai aprender a respeitar homem de farda. Vamos embora.

O Sargento monta. Henrique já está montado. O Cabo está ao lado do Índio Torres.
- Não vou me demorar, Sargento, só preciso esvaziar a bexiga.

Abre as calças e começa a urinar sobre Índio, agora completamente imobilizado. O Cabo dá uma gargalhada.

3

O grupo do Barão irrompe na coxilha: Barão, André, Capincho, Cara Cortada, e o Negrinho.

Pouco depois, a uns trinta metros, irrompem o Doutor Fagundes e seu grupo de quatro: os peões Tau e Vilagrán, mais os nossos conhecidos Caldeira e Tomás, o adolescente negro.

Puxam um belo cavalo mouro - o Raio do Jarau - coberto por uma capa colorida. O grupo do Barão puxa o Minuano, também coberto por uma capa.

Formam um vistoso conjunto de cavaleiros. Os dois grupos se unem e cavalgam juntos.
- Doutor Fagundes, que grande honra. Estava sonhando com este dia.
- Eu também, Barão. Não é todo dia que se ganha cem patacas de ouro.
- Não conte com o ovo no cu da galinha, doutor.
- Como diz o Delegado, somos mortais, não somos deuses...
- Nunca sei o que Delegado quer com esses ditos.
- Acho que ele quer dizer, meu caro Barão, que nós, simples mortais, podemos sonhar. É o nosso consolo.

4

Atrás de todos, lado a lado, Tomás e Negrinho. Caldeira de olho neles.
- Está preparado?
- Não vou mais.
- Como não vou mais?
- Estou fora.

E esporeia o cavalo se afastando. Tomás tenta ir atrás dele, mas Caldeira o impede.

5

Os dois grupos chegam diante do bolicho. Desmontam e trocam abraços e saudações.

A charrete do Delegado, com o Secretário, tocada por Muçum, também chega, com muitos gritos e alaridos. Troca de abraços e cumprimentos.

Todos entram no bolicho, que já tem seis/sete fregueses, e se acomodam no balcão. Um músico toca sua guitarra num canto.

O músico e o Secretário se abraçam, eufóricos.

Em fila no balcão: o Barão, Doutor Fagundes, o Delegado, Netto, mais um bando de espectadores apertados.

O Secretário sobe num banquinho, estufa o peito, preparando-se para declamar. O Músico toca a guitarra. Laura espia dos fundos.
- Soneto 9, Luís de Camões.

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa juntamente choro e rio
O mundo todo abarco, e nada aperto.

- Agora solta uns versos campeiros, anão almofadinha!

Risadas e deboches.

O Barão bate duas vezes com o cabo do chicote no balcão.
- Se o senhor Secretário for desacatado mais uma vez, vou considerar um insulto contra minha pessoa.

Silêncio absoluto.
- Recomece, por favor, amigo Secretário.

O Secretário coça a garganta, olha para Laura, se concentra.
- Soneto 9, Luís de Camões.

Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa juntamente choro e rio,
O mundo todo abarco, e nada aperto.

É tudo quanto sinto, um desconcerto,
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.
Estando em Terra, chego ao Céu voando;
Numa hora, acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar uma hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando
Respondo que não sei, porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.

A declamação é plena de beleza e emoção. O público explode em aplausos. Secretário desce do banquinho e sucumbe a um mar de palmadas nas costas e felicitações.

Laura se afasta para a cozinha.
- Mas barbaridade que é bom esse anão, Virge Maria.

6 .

Pela porta e pelas janelas se vê que continua chegando gente para a carreira. Às vezes, um gaúcho a cavalo, sozinho; às vezes, uma carroça cheia de gente.

Três cavaleiros aparecem no horizonte: O Sargento, o Cabo e o soldado Henrique.

Fagundes bate com a mão na balcão.
- Bueno, chega de conversa fiada, vamos ao que interessa.
- Cavalheiros, vamos iniciar as lides desportivas deste domingo com o desafio entre o tordilho do nosso visitante, o senhor Antônio - como se chama o tordilho, seu Antônio?
- Fascínio.
- Entre Fascínio, nobre exemplar da estirpe eqüina, e o malacara do Delegado, mal batizado como Castelhano.
- O ginete do Delegado será o Negrinho. De acordo, seu Antônio?
- De acordo.
- Muito bem. Então vamos casar as patacas.

Fagundes estende um lenço sobre o balcão. Entram o Sargento, o Cabo e o soldado Henrique.
- Bom dia, senhores, bom dia para todos.

E vai apertando a mão de todos, um por um, até chegar em Netto.
- Ah, este é o senhor que estava interessado no nosso prisioneiro...
- Interessado?
- Vejam o que eu peguei grudado numa árvore no caminho.

Mostra o panfleto. O Delegado apanha o panfleto.
- É igual a este! Também peguei no caminho.

E bate com um papel no balcão. Secretário apanha o papel.
- "Cidadãos rio-grandenses! Sopram os ventos da revolução!"

O Delegado arranca o papel do Secretário.
- Essa balela é mais velha do que o rascunho da Bíblia!

Examina o papel.
- Uma tipografia assim não existe por estas bandas. Isto veio de longe... Posso perguntar, se não me levar a mal, o que o senhor queria com aquele índio?
- Preciso dum tratador de cavalos.
- É. Jesus Torres é um bom tratador de cavalos.
- Mas também é um renegado, um desertor e um assassino.
- Ele matou quem?
- Isso não vem ao caso. Tem muita gente tramando contra o Imperador, senhor Antônio. Vivemos tempos de idéias perigosas. Nos diga uma coisa, seu Antônio: vosmecê é republicano?
- Minha república é o lombo do meu cavalo.
- Essa república costuma ter vida curta.
- Não vou ficar pra semente.
- O senhor Antônio é um homem corajoso, sargento - diz o Barão com certa ironia. - Vai correr contra o cavalo do Delegado.
- Não é qualquer um que topa uma parada dessas - diz Capincho.
- Muito bem, chega de conversa - irrita-se o Doutor Fagundes. - Vamos casar as patacas.

O Delegado e Netto largam sobre o lenço 10 patacões de ouro cada um. Fagundes faz uma trouxa, dá um nó e a joga para os braços do Secretário.
- Vai estar esperando o vencedor... na raia de chegada!

7

A trouxa com as patacas cai sobre a raia de chegada. No lado oposto da raia, Netto encara o Negrinho com ar de mau, ambos montados. Capincho vai dar a partida. O Negrinho sussurra algo no ouvido do cavalo.
- Qual é teu nome, Negrinho? - pergunta Netto.
- Não tenho nome.
- Não gosto de perder carreira, Negrinho.
- Eu também não, sinhô.
- Tu não tens medo de mim?
- Eu sou afilhado da Virgem Maria.
- Não adianta proteção de santo nem de santa quando eu fico brabo, Negrinho. Quando eu perco uma carreira eu fico meio louco, com vontade de arrancar as tripas do sujeito que me ganhou.
- Chega de conversa! Atenção! Preparados: Um...dois...três!

Capincho desce o lenço.

Os dois arrancam, cabeça com cabeça!

Os espectadores acompanham com atenção crescente à medida que os cavaleiros avançam.

Aos poucos, o Negrinho começa a tomar distância de Netto. O Negrinho ganha por um corpo! Ele dá uma volta triunfal e todos dão vivas e gritos.

Vibração do Delegado e do Secretário, abraços.

8

Festa! Um duo musical está tocando, cercado de admiradores. Laura entra na dança com duas meninas. Laura dança com sensualidade, provocativa, e se torna o centro de atenção de todos os olhares. Olhares do Delegado, do Secretário, do Barão, de Netto, do Cabo, do Sargento e de Henrique, de Fagundes.
- Churrasco, carreira e baile! É tudo que um homem quer. Capincho entra decidido na dança, toma Laura pelo braço e começa a comandar os passos. Levados pelo entusiasmo de Capincho, vários casais dançam.

Recabarren, furimbundo, agarra Laura pelo braço.
- Mulher, não tem ninguém lá no bolicho pra atender a freguesia.

Laura sai contrariada.

No próximo capítulo:
Onde se conta como as coisas começam a ficar calientes entre Dona Laura e o Soldado Henrique

» Veja trechos do filme
» Sobre as Cartas do domador

Leia os outros capítulos do folhetim:
» Capítulo 1
» Capítulo 2
» Capítulo 3
» Capítulo 4
» Capítulo 5
» Capítulo 7

Tabajara Ruas, escritor e cineasta, está concluindo seu segundo longa-metragem, O General e o Negrinho.

Fale com Tabajara Ruas: taba.ruas@terra.com.br
 

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