Roberto de Sousa Causo
Martha Argel é uma escritora paulista que começou escrevendo ficção científica para fanzines como Somnium e Megalon. Seu conto humorístico "Consulte o Aurélio" (1991) ainda traz boas recordações aos fãs.
Desde então a autora partiu rumo a se enraizar no ramo do horror conhecido como "ficção de vampiro", relativamente forte no Brasil, em especial depois do sucesso de André Vianco. Tanto que o primeiro livro de Martha Argel, Relações de Sangue, foi publicado pela mesma editora de Vianco, a Novo Século.
Agora ela se aplica à fantasia contemporânea, nos contos de O Livro dos Contos Enfeitiçados, antologia de histórias sobre feiticeiras e feitiços, lançado pela Landy Editora - que também publicou em 2006 o livro de contos A Dama-Morcega: Narrativas de Terror Fantástico, de Giulia Moon.
Os dois livros surgem dentro da coleção Novos Caminhos. São livros de formato popular mas muito bem realizados, na maioria títulos em domínio público como A Origem e a Essência da Maçonaria, de Fernando Pessoa, e A Princesa da Babilônia, de Voltaire. Sem dúvida, os livros de Argel e Moon representam uma guinada para a ficção contemporânea de fantasia e horror.
A primeira história do Livro dos Contos Enfeitiçados é "Amarelo... Amarelo...", em que aparece algo da verve cômica de Martha Argel. Quem narra é a artista plástica Valéria - ou Valérie, como agora prefere ser chamada -, que, às vésperas de apresentar à sociedade paulistana uma obra que pode fazer a sua carreira, é forçada a ficar com a pequena Beatrix, sua sobrinha de quatro anos. A menina acaba de ficar órfã - seus pais morreram em um acidente de carro. A cínica e egoísta Valérie tem que lidar com a menina, que é boazinha exceto pelo fato de mudar para o amarelo a cor de tudo o que acha bonito.
A menina, que tem o amarelo como cor favorita, possui um forte talento mágico, e em alguns momentos o conto parece flertar com a idéia de que Valérie também é uma bruxa. O final, bem preparado ao longo da história, gira em torno da inauguração do quadro na casa de uma socialite. Carece de pegada, mas o conto tem outras revelações a oferecer.
"Eu Detesto Futebol", que vem a seguir, lembra, pelo tom gozador dos papéis sexuais, a "Vidinha Caseira", FC da autora estudada em Ficção Científica Brasileira, de M. Elizabeth Ginway: Um grupo de incógnitas bruxas paulistanas, com direito a sotaque da Moóca e tudo, se reúne para bordar e conversar, quando uma delas diz odiar futebol (por aquilo que o esporte faz ao seu marido, que fique bem claro). Juntas elas tomam uma providência, que leva, é claro, a um arrependimento subseqüente, em razão das conseqüências inesperadas. É um conto francamente cômico.
Já "O Verdadeiro Poder" investe na situação da luta de feitiços, dentro de um aludido triângulo amoroso, quando a narradora, uma bruxa, se vê lutando contra os demônios que querem controlar a mulher de Heitor, outro feiticeiro e o homem que Samara, a protagonista, ama. O conflito é bem imaginado, e a história avança velozmente.
Como um bom contraponto, "O Olho Vermelho" traz um passo mais lento, com uma bem realizada atmosfera de medo, quando o anônimo e interiorano protagonista descobre que o seu receio da luz do alarme do seu quarto de pensão tinha razão de ser. É o mágico disfarçado de dispositivo tecnológico, o que soa como um conceito bastante interessante. Há um final surpresa, nessa história.
"Final Feliz" é uma paródia de clichês dos contos de fadas, com uma provinciana princesa procurando a solução dos seus problemas no "consultório" de um mago. O interesse aqui é a mistura das situações de fantasia com aquelas do nosso cotidiano - e aquele que diz respeito a tratamentos comportamentais e de beleza que se vê continuamente nos programas vespertinos da TV aberta. Outra comédia.
Mais uma vez num movimento de contraponto, a seguir tem-se a história que dá título ao livro. Traduz algo da influência da série Harry Potter, de J. K. Rowling, quando vemos um garotinho entrando furtivamente na escura biblioteca do seu colégio, para descobrir se existe mesmo o tal livro dos contos enfeitiçados em que estariam capturados os maiores temores de quem tem a coragem de abri-lo. Sombrio, o conto oferece imagens fortes e uma reviravolta atrás da outra, perto de sua conclusão, num enredo bem imaginado.
Enfim, "Sofia" é a história mais longa do livro, bastante movimentada e divertida. Investe outra vez no conflito mágico, quando a personagem-título é revelada como sendo objeto de uma profecia - ela é a única que pode derrotar Olympia, poderosa feiticeira disposta a dominar a humanidade. Acompanhada de Fabrício (Martha Argel certamente sabe escolher os nomes dos seus personagens), o bruxo que revelara os poderes de Sofia, ela se atira a uma tensa luta contra Olympia. Transparece nessa história estratégias narrativas da literatura romântica para mulheres - o que é interessante por acrescentar uma outra dimensão de leitura à história.
O Livro dos Contos Enfeitiçados é livro consistente, de proposta clara, que evidencia um pensamento cuidadoso da autora no que diz respeito à magia que ela descreve, de história para história. A entrada de uma dicção informal paulistana aqui e ali (uma das marcas estilísticas da autora) traz alguma graça ao texto, e a alternância da tônica das histórias ajuda a manter o interesse. A marca central da fantasia contemporânea - que o mágico pode conviver com o cotidiano - aparece de maneira efetiva. Há também uma tintura feminista nas situações que mostram a mulher, mesmo no contexto mais convencional, como dotada de poderes superiores ou da capacidade de superar os obstáculos que aparecem.
Fica, no entanto, a sensação de que há um ímpeto exagerado rumo à conclusão, em boa parte das histórias. Uma cadência narrativa mais lenta num ponto ou outro, uma construção de cena e de atmosfera mais cuidadosa, a presença mais constante de detalhes específicos, ajudariam a variar os efeitos ou a extrair deles o seu potencial mais expressivo.
O Livro dos Contos Enfeitiçados, Martha Argel. São Paulo: Landy Editora, 2006, 166 páginas.
Leia também:
» Monstro brasileiro revive em 3D
» Drops