Terra Magazine

 

Segunda, 6 de novembro de 2006, 07h53

Oito mil já se manifestaram em favor de Emir Sader

Karen Cunsolo

Mais de oito mil intelectuais, artistas e militantes políticos já se manifestaram em apoio ao professor Emir Sader, condenado à perda de seu cargo na Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj) e a um ano de detenção em regime aberto depois de processo movido pelo senador Jorge Bornhaunsen (PFL-SC).

Em 28 de agosto de 2005, Emir Sader escreveu um artigo criticando uma declaração do senador, que, referindo-se ao PT, dizia que o País "vai se ver livre desta raça, por, pelo menos, 30 anos". Em seu texto, Sader chama Bornhausen de racista: "O senador Jorge Bornhausen é das pessoas mais repulsivas da burguesia brasileira. Banqueiro, direitista, adepto das ditaduras militares, do governo Collor, do governo FHC, do governo Bush, revela agora todo o seu racismo e seu ódio ao povo brasileiro com essa frase, que saiu do fundo da sua alma - recheada de lucros bancários e ressentimentos." (leia artigo completo em http://cartamaior.uol.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=2171)

Bornhausen disse, em artigo na Folha de S.Paulo de 29 de setembro do ano passado, que sua declaração não tinha caráter racista: "Confesso que falei 'dessa raça' espontaneamente, sem premeditação, usando meu modesto universo vocabular, a linguagem coloquial brasileira com que me expresso, embora meus adversários tentem me isolar numa aristocracia fantasiosa". Depois disso, processou Emir Sader por injúria, que, em 1° de novembro último, recebeu a decisão em primeira instância pela 11ª Vara Criminal de São Paulo, à qual ainda cabem recursos.

Ivana Jinkings, dona da Boitempo Editorial, é a responsável por juntar assinaturas em favor do professor, que depois da divulgação, nesta segunda (6), será entregue ao poder judiciário. "Essa condenação é exdrúxula. Já era descabido o processo movido por Bornhausen, mas a sentença dada por esse juiz nos faz suspeitar que não teve base na análise jurídica, mas fundamentada na mesma visão política preconceituosa de uma elite não afeita à democracia", afirma. Leia a entrevista:

Terra Magazine - Quantos intelectuais e artistas já se manifestaram?
Ivana Jinkings -
Não sei ao certo, porque ainda não conseguimos contar todas as adesões, mas temos seguramente mais de oito mil assinaturas - de intelectuais, artistas, juristas, militantes políticos etc -, que agora estão sendo inseridas numa petição online. Entre os signatários, estão Antonio Candido, Chico Buarque e Flávio Aguiar.

Por que vocês decidiram manifestar apoio ao professor?
Porque essa condenação é exdrúxula. Já era descabido o processo movido por Bornhausen, mas a sentença dada por esse juiz nos faz suspeitar que não teve base na análise jurídica mas fundamentada na mesma visão política preconceituosa de uma elite não afeita à democracia e que por isso pensa poder impor quem e que partidos podem participar da vida democrática.
Ainda que possa ser questionável se o uso da expressão "acabar com essa raça" tenha conotação necessariamente racista (se nos basearmos nas acepções da palavra raça, podemos aceitar que o senador se referia a grupo, "família", coisa assim), a verdade é que se essa frase não expressa racismo, o que ele quis dizer é tão odioso quanto racismo, é ódio de classe. O que talvez o senador pefelista tenha querido dizer é que quer ver extinta a classe social que supostamente (ao menos no entender de sua mente doentia) sustenta o atual governo e o PT.

Qual sua opinião sobre o fato de a sentença proibir Emir Sader de lecionar?
Inacreditável, é a volta da censura à livre expressão de pensamento. Além do mais, é um ato de ingerência externa sobre a universidade, regida por concurso público, e que atinge todos os que procuram construir o pensamento criítico em nosso País.

 

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