folhetim de Tabajara Ruas
Onde se conta como as coisas começam a ficar calientes entre Dona Laura e o soldado Henrique1
O soldado Amâncio observa o horizonte do alto da torre. O soldado Amâncio boceja. Tédio. Catarino dedilha a guitarra e canta.
- Já vi chorar uma pedra
Pelo teu pé arredada:
Por tu passares por ela,
E ela não ser pisada!
Cuidavas que me deixando
Eu por ti deitava dó!
Muito fraco é o carreirista
Que tem um cavalo só!...
Amâncio desce da torre e se dirige a seu cavalo. Catarino vai até ele, preocupado.
- Amâncio, tu não pode abandonar o mangrulho.
Índio Torres, estaqueado no chão, observa Amâncio montando no cavalo e falando com Catarino.
- Vou na china Marta.
- Se o Sargento souber...
- Se o Sargento souber... eu te capo, Catarino. E fica de olho nesse Índio. Ele pode te pegar desprevenido.
- Me pegar?
- Com essa raça nunca se sabe, Catarino. Esses aí têm pacto com o Demônio. E sai a trote, deixando o assustado soldado Catarino só. Catarino se volta bem devagar. E encontra o olhar do Índio.
2
Secretário abre um lenço cheio de moedas sobre o balcão, diante de Laura. Estende o cantil para Laura. Laura enche o cantil do Secretário.
Henrique está a um canto, na sombra.
- Dona Laura, tudo que ganhei na carreira... por um segundo no Paraíso... um beijinho seu.
- Tire o chapéu quando falar com uma dama.
O Secretário tira o chapéu. Laura apanha uma frigideira debaixo do balcão e bate violentamente na cabeça do Secretário.
3
O baile continua animado, comandado por um resfolegante Capincho. O duo musical segue tocando, cercado pelos freqüentadores. Tau, Vilagran, Cara Cortada observam as mocinhas dançarem.
O bolicho está vazio. Henrique está no balcão. Laura arruma garrafas na prateleira.
- Dona Laura, permita que lhe diga, como homenagem, a senhora parece o tipo de mulher que não usa nada por baixo do vestido.
4
A dança continua animadíssima, Capincho comanda com alegria, suado e batendo palmas.
5
Laura olhando Henrique com firmeza.
- Aqui embaixo do balcão não tenho só panela pra dar na cabeça dos engraçadinhos... Tenho um facão de três palmos.
- Faz muito bem, dona Laura. O mundo está cheio de gente mal intencionada.
Henrique estende o copo vazio. Laura enche o copo sob o olhar de Henrique. Henrique coloca a mão aberta sobre o balcão.
- Um copo pra cada dedo.
Laura coloca mais quatro copos e os enche com a bebida.
Henrique bebe o primeiro copo de um só gole.
- Queria le pedir um favor. Em quem a senhora acha que eu devo apostar? No baio ou no mouro?
- E por que pergunta isso pra mim?
- Corre fama que a senhora conhece cancha reta.
- Não gosto do jeito que vosmecê tá me olhando.
- Eu olho a sua boca, dona Laura.
Henrique bebe de um só gole o segundo copo.
- O que tem minha boca?
- Homem olha mulher na boca, dona Laura.
6
Enquanto o baile continua, a roda de chimarrão segue animada. Apoiados nas janelas, do lado de fora, curiosos espiam. Entre eles o Negrinho e Tomás, em lados opostos, frente a frente: Tomás busca o olhar do Negrinho, que o evita.
- Ventos de revolução... ventos de revolução... Estou farto dessas novidades. Desde 1700 temos uma guerra atrás da outra. Trinta anos atrás perdi meu irmão mais velho na guerra contra os índios, 15 anos atrás perdi meu filho na guerra contra os castelhanos.
- Dez anos atrás perdi meu irmão Francisco, no Paso de la Pátria.
- Todos temos mortos nessas guerras estúpidas. E agora essa novidade de revolução... Moinhos de vento...
Mudando de tom, desconfiado.
- Senhor Antônio, espero que não seja um desses anarquistas lunáticos que querem começar outra guerra na Província.
- Meu negócio é comprar e vender... cavalos.
7
Henrique bebe o terceiro copo dum só gole.
- Por que homem olha mulher na boca?
- Boca de mulher é molhada, dona Laura.
- Tudo que é boca é molhada.
- Boca de mulher mata a sede do homem, dona Laura.
- Mata a sede do homem? E posso saber por que?
- Porque a mulher é uma fonte, dona Laura.
- Uma fonte?
Henrique bebe o quarto copo de um só gole.
- Uma fonte onde o homem bebe para ser feliz...
8
Segue a roda de chimarrão. Na janela Tomás encontra o olhar do Negrinho e cospe no chão, com desprezo e se afasta.
- Índios e negros num partido político: isso, sim, é novidade!
9
O Secretário está oculto atrás de uma árvore, para urinar. Quando começa a realizar seu propósito, percebe Laura se aproximando. Henrique também aparece, malicioso e sedutor.
Henrique alisa o braço de Laura. Ela se encolhe com um risinho e se afasta. Ele a persegue e a puxa para si. Beijam-se. Ela se solta dele.
Ficam negaceando, numa dança lúbrica de sedução e recusa, até que Henrique a aperta contra uma árvore.
- Eu quero beber da sua água, Dona Laura.
Laura se abandona. Escorregam para o chão. Laura senta sobre Henrique. É quando Laura percebe o Secretário a espiar. Ela não se altera: continua mexendo os quadris até atingir o orgasmo sem tirar os olhos do Secretário. Que tudo assiste, nervosíssimo, fazendo o Sinal da Cruz.
No próximo capítulo:
Onde se narra um empolgante duelo a facão, no melhor estilo campeiro
» Veja trechos do filme
» Sobre as Cartas do domador
Leia os outros capítulos do folhetim:
» Capítulo 1
» Capítulo 2
» Capítulo 3
» Capítulo 4
» Capítulo 5
» Capítulo 6
» Capítulo 8