Terra Magazine

› Terra Magazine › Colunistas › Tabajaras Ruas

Sexta, 17 de novembro de 2006, 07h57

As cartas do domador - Capítulo 8

folhetim de Tabajara Ruas

Onde se narra um empolgante duelo a facão no melhor estilo campeiro

1

O churrasco começa a ser cortado e repartido entre os freqüentadores. Secretário caminha rapidamente entre as pessoas, concentrado, excitadíssimo, murmurando coisas. O Músico continua sua canção, quando o Secretário entra, olhando para os lados, procurando Recabarren.
- Secretário! Aqui, por favor. Anota aí:
Consulta o relógio.
- Damos a largada... dentro de vinte minutos!
- Então, se me dão permiso, vou conhecer o famoso Raio do Jarau.
Netto se levanta e sai. Secretário vai atrás, olhar febril.

2

Índio Torres, estaqueado no chão duro, vê Catarino sentado no chão, as costas apoiadas contra o casebre, dedilhando a guitarra.
- Eu não sou filho daqui,
Sou filho de lá de fora;
Ando cumprindo o meu fado;
Acabando, vou-m¿embora.

Sereno da madrugada
Serenai por onde eu vim!
Não quero que ninguém saiba
Novas nenhumas de mim!

- Água.
Catarino pára a cantoria. Fica olhando para o Índio.
- Água.
Catarino se ergue e se aproxima, temeroso.
- Tu falou, Índio? O que tu quer?
- Água.
- Água?

3

Netto chega na figueira, onde Caldeira e Tomás tomam conta dos cavalos do Doutor Fagundes.
- Buenas.
Caldeira e Tomás mal respondem. Netto examina o mouro.
- Então este é o famoso Raio do Jarau. Quantos anos tem?

- Tomás, vai buscar um balde de água.
Tomás se afasta, contrariado.

4

Secretário entra no bolicho. Olha, cauteloso e tenso, para todos os lados. Recabarren está apoiado no balcão, ouvindo os comentários das carreiras de dois fregueses. Secretário coloca seu cantil no balcão.
- Pode encher, seu Recabarren.
Recabarren começa a encher o cantil.
- Mas me diga: quanto o senhor me dá por um segredinho?
E fica olhando para Recabarren com um sorriso safado.
Recabarren segura o Secretário pela lapela, para susto dos fregueses.
- Segredinho? Que segredinho?

5

Netto e Caldeira sob a figueira.
- O Índio está no couro de vaca desde ontem. Temos que tirar ele de lá... agora!
- Depois das carreiras, quando todos estiverem em suas casas.
- Vosmecê está mandando demais.
- Operação militar precisa de comando.
- E quem lhe deu o comando?
- Eu tomei a iniciativa para libertar o Sargento. Esteja preparado, senhor Caldeira.
Netto se vira e tromba com Tomás que chega com um balde de água. Recabarren passa por eles num transe enlouquecido. Tem o olhar desvairado. Some no meio das pessoas que lotam o galpão, onde o baile vai animado.
- O Recabarren tá mais apressado que cavalo de carteiro.

6

O Secretário segue Recabarren no meio das pessoas, entra no galpão. Recabarren apanha uma faca cravada num toco e avança contra Henrique.
- É tu mesmo que eu quero, bandalho.
Henrique empunha sua faca.
- Vem mostrar se tu é macho, guapudo!

A dança pára instantaneamente. Recabarren dá um urro e se joga contra Henrique. Henrique defende com a faca, salta para um lado e ganha espaço. Mostra uma expressão debochada para Recabarren. Começa a balançar a faca na mão.
- Além de velho e de borracho, guampudo.

Recabarren ataca, Henrique faz uma ginga e bate com o lado da faca no ombro de Recabarren. Risadas dos homens.
- Cabo, aparta esses dois.
- Deixa o Henrique brincar um pouquinho com o velho, Sargento.

E para Cara Cortada:
- Cinco no Recabarren.
- Topo.

Henrique vai recuando e debochando. Sai do galpão em direção aos fundos, onde está o varal de Bonifácia. Os cães latem e acossam os lutadores. Colorado se mete na briga e morde Henrique. Os cavalos se assustam, empinam e relincham.
- Aposto que o Recabarren se borra todo.

Netto, Barão, Capincho, Laura, Bonifácia, homens, mulheres e crianças olhando a luta. Os lutadores se aproximam do varal com lençóis. Henrique se enreda nos lençóis e Recabarren o atinge com a faca.

O sangue mancha os lençóis. Henrique tenta escapar, mas cai e se enrola ainda mais. Recabarren o fere novamente. Pânico do Sargento e do Cabo.
- Basta, basta, já correu sangue.

Recabarren, enlouquecido, não escuta e desfere mais duas facadas contra Henrique, sumido no meio dos lençóis. O Sargento saca o revólver, e atira a queima roupa no pé de Recabarren, que cai gritando. O Cabo salta sobre Recabarren e o imobiliza.
- Estou no meu direito. Ele me ofendeu.
- Tu não fez caso do meu aviso. Tu abusou, Recabarren.
- Eu defendi minha honra.
- Isso não vai mudar nada. Tu continua guampudo.

Capincho estende a mão para Cara Cortada, que coloca uma moeda nela.

Uma criança toca no lençol ensangüentado. A mãe lhe dá um puxão.

7

Henrique está estendido sobre uns pelegos, se esvaindo em sangue, cercado pelas pessoas curiosas. Bonifácia está debruçada sobre ele, tentando fazer um curativo.
- Não adianta. Ele se foi.
- Um milico a menos.

O Delegado resolve assumir o controle.
- Todo mundo para fora, todo mundo para fora.

O Sargento e o Cabo retiram as pessoas, ficam apenas o Barão e o Doutor Fagundes.
- Então, senhores?
- Eu estou aqui pelas carreiras!
- Vim ganhar cem patacas de ouro. Não é o defunto de um milico qualquer que vai me impedir.
- Secretário, anota aí. Crime: passional. Agressor: preso. Tumulto: controlado. Que siga o baile!

O Secretário bebe fundo no seu cantil.
- A turba quer circo.
- Não pedi sua opinião.
- A vida é um teatro, Delegado.
- Me poupe de suas frases idiotas!

E dá uma bengalada no pé de Secretário, que fica saltitando.

No próximo capítulo: onde se conta como foi a carreira mais importante da vida do Negrinho.

» Veja trechos do filme
» Sobre as Cartas do domador

Leia os outros capítulos do folhetim:
» Capítulo 1
» Capítulo 2
» Capítulo 3
» Capítulo 4
» Capítulo 5
» Capítulo 6
» Capítulo 7
» Capítulo 9

Tabajara Ruas, escritor e cineasta, está concluindo seu segundo longa-metragem, O General e o Negrinho.

Fale com Tabajara Ruas: taba.ruas@terra.com.br
 

Busque outras notícias no Terra

Terra Magazine América Latina, Veja a edição em espanhol