
Márcio Alemão
Como deve ser difícil ser ator de uma série de ficção científica!
Em dramas, comédias, o trabalho maior é o de "entrar" no personagem. Para tanto existe o famoso laboratório, o exercício que se faz para que o profissional consiga ser o que não é na vida real. Consiga ser o personagem, os personagens ou até mesmo as coisas. Sim. Em uma peça infantil, não chega a ser estranho que alguém faça o papel de couve, cenoura, asno, árvore. É um bom exercício que pode render eventuais indicações para prêmios: "melhor mandioca", "melhor coelhinho sapeca", "melhor árvore".
E pode render, claro, elogios rasgados:
- Cara! Incrível! Eu nunca vi um puf de couro do Embu tão perfeito. Você tava ma-ra-vi-lho-so. Você entrou no puf, você virou o puf, você era o puf. Aquela coisa do Embu, aquela textura, o sofrimento, o peso e ao mesmo tempo o prazer de estar, ser, servir. Maravilhoso!
Ser puf do Embu não é fácil, mas ainda creio que nada se compara ao trampo de um general lugikatoriano da frota estelar Kima que está sendo ameaçada por Nhantorahs. Porque é possível tentar entender um puf do Embu. É possível até ser um mecânico mesmo sendo Gianechini, para que se entenda a magia do interpretar. Mas como age, reage, pensa um general lugikatoriano? Como criar um "caco" para ele. "Caco" é uma pitada de texto que não está no texto mas que ajuda a formar o personagem, que empresta a ele graça, verdade. Digamos que o ator, inspirado consiga algo que faça algum sentido. Concordo que qualquer coisa pode fazer sentido, considerando o desconhecimento que temos sobre os lugikatorianos. Mas um lugi vamos adotar essa intimidade, posto que já começamos a entendê-lo melhor, ameaçado por Nhantorahs muda tudo.
Vivo esse drama toda vez que tento assistir à serie Stargate 1. Se você não é um daqueles esquisitos fãs que tudo sabem a respeito deles, que se encontram em grandes convenções em Las Vegas fantasiados seriamente, você não consegue entender absolutamente nada. Não bastasse a ameaça Nhantoriana, a solução proposta pela equipe é lançar mão do Munso, um tipo de explosivo com capacidade de gerar 2 milhões de Linkas, o que provocaria o desaparecimento dos Leutres e, adverte um comandante, poderia gerar um campo retro-reativo-magnético em Jurmenora. Putz! Diante dessa ameaça, todos se calam e buscam outra alternativa.
Não há de ser fácil entrar nesse clima, nesses personagens. Também acredito que entre eles possa haver uma cumplicidade:
- Cara! Muito legal aquele bordão lugi que você criou. Aquela coisa dele pressionar o cotovelo e dizer: "Torkah!", foi muito legal. Eu fiquei anos sendo um sargento Meltríaco e nunca consegui pensar em nada além da saudação clássica "ForanGaur".
Não é fácil. Aos que conseguem, meus cumprimentos terráqueos: parabéns!
Terra Magazine