
Paulo Scott
No meio cultural (ou melhor seria: do consumo cultural?), nada me deixa tão perplexo quanto o fato de existirem espetáculos de figurões da música e do teatro cheios de apoio de grandes empresas. Apoio com base na lei de incentivo à cultura (portanto, com notórias vantagens fiscais e publicitárias) e o ingresso, ainda assim, custando cento e cinqüenta, duzentos e, dependendo o lugar, trezentos reais ou mais.Ok, admito: a boa arte (sobretudo, a certeza da boa arte) é inegavelmente elitista. Mas se estamos falando de dinheiro público, é natural que se coadune como requisito primordial o critério do acesso à cultura. Mas, sabem (sintam o drible), não é exatamente aí que pretendo chegar.
Volto-me ao corriqueiro, ao fato de que séries de bons projetos não recebem o apoio cultural merecido porque o sujeito que levantará ou abaixará o polegar é o diretor de marketing, homem de negócios, acostumado com... vamos dizer... com a nata repetitiva dos semanários; e se conforma em aplicar sua energia apenas na procura dos nomes conhecidos.
Nome conhecido traz mídia. Quem pode condenar? Mas, parem as máquinas, já lhes falei que se trata de dinheiro público, renúncia fiscal em prol da cultura? Mecanismo difícil, eu sei.
Minha sugestão é simples - se a empresa não tem pessoas com sensibilidade para detectar o que é bacana, o que merece incentivo e promover o que não necessariamente batuca no vídeo-show das grandes redes de televisão, como, sem muito alarde, vem conseguindo o Projeto Itaú Cultural capitaneado pelo Claudiney Ferreira (embora, e para que isso não pareça de todo leviano, a lucratividade dos bancos mereça análises e capítulo à parte) -, criem-se empresas independentes - a exemplo das auditoras independentes - com o propósito exclusivo de selecionar o que, de fato, merece ser incentivado.
Esdrúxulo? Como vocês podem pensar isso? É o dinheiro de vocês (sei, sei... uma vez nos cofres públicos... ambulâncias... et cetera... mas ainda assim, repito, é o dinheiro de vocês).
Monte-se grupos de especialistas (desculpem, mas elencar critérios da seleção não poderia ser tarefa minha) para se dar transparência e gerar um pouco de discussão sobre o que deve ou não ser incentivado.
Tenho sugestão: quem sabe o novo mereça ser incentivado. Quero enfaticamente dizer: mais incentivado.
Nada contra Caetano Veloso, Gilberto Gil, Lulu Santos, Paulo Autran, Fernanda Montenegro, Antônio Fagundes (note-se, estou citando gente cujo trabalho artístico eu respeito) e tantos outros, mas há - verdade seja dita: concorrência é diferente de conflitante - pás e pás de idéias que merecem alguns bons trocados e não os recebem.
Pensem na idéia, não lhes fará mal.
Terra Magazine