Tabajara Ruas
Onde se conta como foi a carreira mais importante na vida do Negrinho
1
Catarino, sentado no chão, abraçando os joelhos, fala, sonhador. O violão está ao lado. Índio Torres escuta a voz grave, onde ele reconhece e teme novos horrores.
- A verdade é que eu não gosto do Cabo. Acho que ninguém gosta do Cabo. Uma vez o Cabo me deixou estaqueado um dia inteiro. Só porque eu cheguei tarde da dispensa. Não é coisa de cristão. Acho que ele é meio filisteu. Eu fui coroinha em Laguna antes de entrar pra o exército. Conheço bem o Novo Testamento. Pausa. Eu não acreditei no que o Amâncio disse, que tu tem pacto com o Demo. Tu tem um jeito bom, Índio, o Diabo não é teu amigo. Eu sei dessas coisas... eu li o Livro Santo. Uma vez eu tive uma visão da Virgem Maria, mas o senhor cura não acreditou. Ela estava em cima duma pedra, com o véu celeste e o manto claro... a pele dela era branquinha, branquinha e macia... tava pertinho da minha mão... mas o senhor cura não acreditou e me botou no tronco, como se eu fosse um negro e ainda me ameaçou de excomunhão em latim... ele rezou - em latim - e disse que ia me mandar pra o Inferno se eu continuasse contando que tive uma visão da Virgem Maria. Bati no peito três dias com medo da excomunhão e fiz penitência durante seis meses.
Catarino faz uma longa pausa. Índio Torres murmura em guarani:
- Quantas orelhas da minha gente o teu Regimento cortou?
- Tu falou em latim, Índio?
- Guarani.
- Guarani? O que tu disse?
- Quantas orelhas da minha gente o teu Regimento cortou?
Longa pausa.
- Desculpe que eu não posso lhe dar água. Eu sei que não é cristão. Mas não posso desobedecer o Sargento. O Sargento é pior que o Cabo. O Sargento já nasceu sem coração. Uma vez o Sargento ficou brabo com um soldado que tinha barranqueado uma égua de estimação dele e deixou ele estaqueado numa sanga que tinha jacaré. O jacaré comeu um dedo do pé do soldado e por pouco não come o resto. Eu vou ficar com medo se desobedecer o Sargento. O único que presta aqui no Posto é o praça Henrique. Ele sabe escutar o que eu toco. Os outros debocham... Quer que eu cante, Índio? Assim tu vai se distraindo. Fecha os olhos. Fecha os olhos, Índio. Escuta. Fecha os olhos... Isso.
- Eu vim pra contar a história.
Dum ¿ tatu - que já morreu
Passando muitos trabalhos,
Por este mundo de Deus.
O tatu foi homem pobre,
Que apenas teve de seu
Um balandrau muito velho
Que o defunto pai lhe deu!
Índio Torres pensa em dunas, banhados, o pampa.
2
Secretário tem a trouxa com dinheiro nas mãos e a deixa cair na linha de chegada. Ao redor dela, os desafiantes se encaram: Fagundes e o Barão.
Os juízes - Delegado e Netto - e André, Capincho, os peões e uma dezena de assistentes observam.
- Então está tudo certo. Agora, é com... Minuano e Raio do Jarau!
Minuano e Raio do Jarau escarvam impacientes o chão do partidor, com seus ginetes: Negrinho e Tomás.
- Deu pra trás por quê?
- Eu sei da minha vida.
- Tu tá é com medo.
O Barão se aproxima e apanha o Negrinho pela mão.
- Tu não pode perder...
Afaga a mão dele. André observa. Expectativa ao longo da pista.
Recabarren, amarrado a uma roda de carreta, também observa.
Bonifácia está ajoelhada diante dele, fazendo um curativo no pé.
O Negrinho sussurra algo ao ouvido do Minuano.
Secretário sobe vacilante num banquinho e levanta o lenço.
- Um... dois...três!
Baixa o lenço. Arrancam!
3
A corrida é parelha, emocionante. O Negrinho e Tomás gritam sem parar.
- Valha-me Virgem Maria, Nossa Senhora!
Os dois cavalos vão tão parelhos que parecem um só. O Barão, Fagundes, Capincho, Cara Cortada, André, Caldeira, Laura, Bonifácia, Netto, o Delegado, o Secretário, assistem, cada um torcendo pelo cavalo que apostaram. Porque uma coisa é certa: todo mundo apostou. A tensão é crescente nos rostos à medida que se aproxima a linha de chegada.
O Delegado e Netto na chegada, mais o Barão, André e Fagundes. Os dois cavalos passam juntos na raia de chegada.
- Ganhou Raio do Jarau!
- Confirmo. Ganhou Raio do Jarau.
Tomás dá uma volta vitoriosa, gritando e levantando os braços. O Negrinho dá uma volta maior e vai acalmando o baio, enquanto seus olhos demonstram medo.
André encara o Barão. O Barão se aproxima dos árbitros.
- Mau jogo, senhores, mau jogo!
- Foi na lei, Barão.
- O escravo do doutor Fagundes trapaceou no final. Usou o rebenque contra o meu ginete.
- Não vi nada disso. O que lhe parece, seu Antônio?
- Foi na lei.
Encarando o Barão.
- Então está confirmado. Secretário, anota aí: foi na lei.
Meio bêbado.
- A carreira é de parada morta. Perdeu o cavalo baio, ganhou o cavalo mouro.
Gritos e vivas dos apostadores que ganharam. Fagundes vagarosamente se abaixa e apanha a trouxa. Joga-a nas costas com um sorriso.
- Bebidas por minha conta! E com essa, eu me retiro.
O Barão aperta a mão do Doutor Fagundes, toca na aba do chapéu para o Delegado e Netto e se afasta em passos largos.
4
O Negrinho desmonta. André se aproxima e lhe dá um empurrão violento. O Negrinho cai. O Barão segura André pelos ombros. André se solta com um movimento agressivo.
Pai e filho se encaram.
- Calma, filho, foi só uma carreira.
5
Pela abertura frontal do galpão o Delegado vê os grupos do Barão e do Doutor Fagundes se afastando. No alto da coxilha, cada grupo toma seu rumo. Tomás e Caldeira cantam e batucam.
O Delegado se vira e contempla o corpo de Henrique estendido sobre um banco comprido. Em torno dele, Netto, os músicos e o churrasqueiro. O Secretário se aproxima e tira o chapéu, com irônica reverência.
- Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida descontente...
O Sargento e o Cabo afastam Secretário com um pontapé, apanham o corpo de Henrique e o carregam para fora. Eles colocam o corpo dobrado sobre um cavalo, montam nos seus e se afastam.
Recabarren, puxado por uma corda amarrada aos pulsos, vai atrás deles, a pé, saltitando.
Laura espia pela fresta. Ouve a voz do Delegado.
- Vamos embora. Amanhã é segunda-feira, amanhã começam as preocupações.
- Amanhã começa o medo ¿ retruca o Secretário.
- Muçum, faz esse borracho calar a boca.
Muçum tenta apanhar o Secretário, mas ele é mais ágil e pula para cima da mesa, onde estão restos do churrasco: talheres, copos, garrafas, cumbucas com farinha, verduras, uma panela.
- Todos têm medo com o que vem por aí.
- Que asneira é essa que tu ta falando?
- O Delegado também tem medo!
- Secretário, vem sem ¿poblema¿.
Empunhando o panfleto, mostrando para o Delegado.
- ¿Poblema¿? Não há ¿poblema¿ nenhum. Só há um ¿poblema¿: o Delegado tem medo!
- Cala a boca e vem!
- Tem medo, sim! Vem aí um exército de negros,de índios, de pobres diabos...
O Delegado avança contra o Secretário.
- Cala essa boca, estupor!
O Delegado agarra o Secretário pelas pernas. Secretário apanha uma cumbuca de farinha e derrama na cabeça do Delegado. Muçum puxa o Secretário até o chão e o derruba.
- ...eles vão botar fogo em tudo... vão tirar o cabaço da filhinha mimosa do Barão... vem aí os ventos da revolução...
O Delegado, máscara de farinha branca, incha de ódio e pisa no pescoço do Secretário. Bate com o cabo do rebenque na cabeça dele, duas vezes. Jorra sangue. Netto segura o Delegado.
- Calma! Não há necessidade.
Eles se encaram, o Delegado cede.
Muçum coloca o Secretário no ombro e o leva até a charrete. O Delegado vai atrás, limpando o rosto com um lenço. Sobe na charrete.
Netto apanha o cantil do Secretário no chão e entrega-o para Muçum. Este incita os cavalos e faz a charrete arrancar. A cabeça do Secretário balança fora da charrete, pingando sangue.
Netto fica olhando eles se afastarem.
Bonifácia recolhe as roupas ensangüentadas no varal.
6
Roupas no varal, agitadas pelo vento. Verônica recolhe as roupas.
Cinco crianças, negras e brancas, cantam cantigas de roda.
Clara e Maria estão junto ao tear. Clara cantarola a música que entra pela janela.
- Olha! Escuta. Estão chegando.
- Tão chegando cedo.
Angustiada, Maria afasta a cortina para olhar.
- Não ficaram para festejar.
Clara corre para a janela. Ambas perdem a alegria quando vêem o aspecto sombrio do grupo. Maria mostra expressão de medo. Clara olha para ela, apreensiva.
7
Índio Torres, estaqueado no chão, vê o Sargento e o Cabo se aproximarem com o corpo de Henrique. Recabarren os segue saltitando.
- Estão chegando! Epa... aí tem coisa...
O Sargento e o Cabo entram no posto. Catarino se aproxima deles, receoso. Começa a examinar o corpo de Henrique, suja as mãos no sangue.
- Quem matou?
- O bolicheiro.
Catarino se joga sobre Recabarren e começa a espanca-lo. O Sargento desmonta e dá um empurrão em Catarino, jogando-o no chão.
- Para com isso, idiota! E o Amâncio, que não está no posto?
- Lá dentro.
Carregam Henrique para dentro do Alojamento.
Amâncio ronca, dormindo, bêbado, num canto. O Sargento e o Cabo estendem Henrique numa mesa. O Sargento dá dois pontapés em Amâncio, mas ele não se mexe.
- Quando esse traste acordar... vai se arrepender de ter nascido.
8
Netto está encilhando o tordilho, auxiliado por Bonifácia. Há uma certa solenidade ritual na preparação do animal. Netto monta.
- Hasta la vista, Dona Bonifácia.
Netto sai puxando o escuro e o malhado. Bonifácia sai atrás dele de nariz erguido. Netto se vira na sela, ela pára imediatamente.
- É só Bonifácia. E tome cuidado.
Netto toca na aba do chapéu.
- Até mais, Bonifácia.
Bonifácia faz uma vênia de dama elegante e fica olhando Netto se afastar.
Laura aparece na janela do bolicho. Seu olhar encontra o de Bonifácia. Laura fecha a janela com força.
Próximo capítulo: onde se narram as nefastas conseqüências da derrota do Negrinho na carreira.
» Veja trechos do filme
» Sobre as Cartas do domador
Leia os outros capítulos do folhetim:
» Capítulo 1
» Capítulo 2
» Capítulo 3
» Capítulo 4
» Capítulo 5
» Capítulo 6
» Capítulo 7
» Capítulo 8
» Capítulo 10